22/01/2012

ao som do quarto.


   O meu despertador acaba de marcar quatro zeros na sua limitada tela retangular, a luz está acesa fora e dentro do meu quarto, parece dia lá fora, mas não é. É a imensidão do mundo gritando sua vida pela janela, deixando o brilho sair voando pelas brechas que as cortinas não podem tapar.
   Minha alegria não extrapola nenhuma cortina branca ou preta, é tão interna que às vezes nem eu sei que está dentro de mim, se esconde como filho único que brinca com a própria sombra em dias ensolarados e olha pelo vidros da casa a chuva que escorre como lágrimas.
   Ainda falta uma hora para ela chegar, parece eterno cada tic e cada tac, esperei por tanto tempo que agora é difícil de acreditar que o que nos separa são somente minutos. Estou totalmente desconectada, tentando simplesmente não pensar no que pode ser daqui para frente, o próximo acorde é sempre incerto na minha guitarra, desafina e afina a minha vida enquanto eu canto e balanço o meu cabelo tentando ser uma rock star pro meu espelho. É tarde, eu sei. 
   É tarde demais para tentar desistir, para tentar esquecer ou voltar atrás, é tarde demais para muitas coisas e eu nem consigo explicar ou entender. A espera sempre dói e saudade sempre agüenta. O nosso amor também agüentou muito tempo, aguentou o peso insuportável da distancia e do desapego, fomos brigas e amores, fomos inimigos e amantes. A estrada esburacada da nossa história fez a gente avançar devagar e mesmo assim a gente caiu num precipício difícil de escalar.
   Minhas unhas quebraram na subida, junto com o meu coração que a perdeu quando, com a vontade desesperada de chegar ao topo, esqueceu de olhar para trás e de dar a mão e ajudar a subir quem caiu comigo. Mas eu sei que alguma coisa ficou lá embaixo, alguma coisa importante. Faltou descobrir o que a gente tinha perdido pelo caminho (e eu sabia que não tinha sido o amor).
   Estou esperando o som dos passos se aproximando, sou mãe que espera o filho na sala de emergência, enquanto ele canta as lágrimas num quarto visinho, onde o passo é restrito e o único que se pode fazer é esperar. Mas eu não quero esperar, quero chutar a porta e abraçar e proteger quem espera por mim. É loucura sentar na frente da porta? É loucura entregar a vida que se tem nas mãos de alguém?
   O relógio apitou e o som dos passos ainda não se deixam escutar do outro lado da porta. Olho pela janela esperando ver alguma sombra perambulante que entre pelo portão pesado que protege o frágil edifício com o meu frágil coração.
  Vi a incerteza nos passos dela, quase parando, duvidando se entrar ou não. Lágrimas de felicidade e tristeza desceram pelo meu rosto. Eu não podia fazer nada ante a sua indecisão, só me restava olhar aquelas dúvidas, aquela que parecia ser uma briga interna entre ela e a razão, parecia ter esquecido o motivo de ter andado até aqui, parecia retroceder nas memórias e pensamentos mais profundos. Parecia retroceder.
   Se ela for embora eu sei que eu não vou poder fazer nada para que ela volte a andar até mim, e eu por mais que corra atrás, nunca vou encontrar o espaço que eu tinha dentro dos abraços que ela já não me oferece. Abandonei a borda da janela, abandonei aquela vista escura iluminada por tão poucas luzes. Era sombra, era cinza e quase invisível.
   Coloquei música para que o quarto não ficasse tão vazio como nos velhos tempos que vieram. Ignorando o frio da rua, desci. O vento gelado encontrou, no meu rosto e corpo, cortou meus lábios como quem pede para calar.
   Ela ainda estava parada na frente do portão, quando me viu seu olhar se assustou e se aliviou, como se eu fosse uma resposta, uma outra sombra cinza perdida na escuridão, como se eu fosse e estivesse igual. Olhei dentro dos seus olhos e, ainda que meus pensamentos gritassem em desespero e ansiedade, não disse nada. Abri as grades que nos separavam e me aproximei lentamente do corpo e da alma que me fizeram conhecer a felicidade.
   O espaço no abraço ainda estava lá, senti a força de dois corpos frios se juntarem. Foi quase eterno. E entre sussurros perguntei: “Entra?”. Olhei nos olhos perdidos que não encontrou nos meus as respostas que procurava.
   Beijou meu rosto frio, beijou a minha mão gelada e se foi enquanto as lágrimas queimavam o meio sorriso que tinha ficado no meu rosto por vê-la mais uma vez.  

10/01/2012


     Estou só, o escuro escondeu até a minha sombra. O quarto negro que me abriga e me obriga a abrir os olhos na tentativa inútil de ver algo, me expulsa de dentro de mim. E fora de mim sou quem eu quero ser, uma imagem destorcida da realidade atual do infinito escondido dessa casa, sou pássaro enjaulado que voa e quebra o bico no ferro frio que limita geograficamente o espaço e o tempo. Sou coruja de olhos abertos que não vêem.
   Sei que existem estruturas sólidas sobre mim e ao meu redor, me sinto protegida, mas não me sinto em casa. Uma maneira estranha de acordar todos os dias e pensar “onde eu estou?” e depois de alguns poucos eternos segundos sentir o cheiro do meu próprio perfume no meu próprio lençol e lembrar com ar cansado e quase desesperado que essa é a minha cama.
    Ainda que inativa posso escutar o barulho de cada tecla da minha velha máquina de escrever. Por muito tempo foi a minha melhor amiga, foi minha mãe e foi meu pai. Me dizia palavras bonitas de vez enquanto e palavras de ódio, escreveu muitas vezes palavras amor. E foi exatamente de amor suas últimas palavras. Hoje está ao meu lado, na minha mesinha de escrever, junto com a lâmpada que quase não ilumina, em conjunto são um resumo melancólico de quem eu costumava ser no passado.
   Estou deitada olhando para o teto desbotado dessa velha casa, quase tão velha como a histórias contadas nos livros que ficaram do antigo inquilino, que eu por curiosidade e tédio li. Li tantas vezes alguns e tão pouco outros, que tomei como meu os nomes e os apelidos dos personagens pelos quais me apaixonei. São meus inimigos todos os vilões que encontrei pelas páginas quase amarelas que a velhice deixou como lembrança. Foi por estar sozinha, por não ter ninguém que eu mergulhei profundo para dentro de mim, e agora sinto meus pés presos na lama que sempre fica no fundo do poço quando nem mais água tem. Me perdi muitas vezes nos meios das linhas, dos parágrafos, que às vezes as histórias se dividiam em duas, e eu ficava no meio do que é sóbrio e do que é loucura.
   É estranho não reconhecer o presente onde eu me encontro, é tão estranho saber que os sonhos e desejos já realizados ficaram pelo caminho e o futuro que me espera é linha reta e não permite visitar as curvas que eu já visitei. Um dia eu sonhei em morar dentro de um abraço, desejei que fosse eterno o corpo encostado no corpo. Felicidade efêmera eu disse, mas a saudade... ah, a saudade! Dura, dura até mais do que a própria vida, do que o próprio ser, perdura no coração que já parou de bater.
   Ela se entregou e eu me entreguei, mas quando eu fechei meus olhos, eu cai com as costas no chão gelado da chuva do ano novo, com lágrimas quentes queimando meu rosto. O barulho interno me cegava e a vontade selvagem que invadiu meu corpo desprotegido e vestido de branco foi de entrar na água violenta, deitar sobre as ondas e talvez desaparecer. Desapareci e aqui estou, só.
  Então eu olho para o teto, eu sei que ele está exatamente onde ele deveria estar, e eu olho para mim, estou fora de ordem, meu lugar é uma pessoa errante que foge e se afasta, que vai embora e me deixa sem lar, sem ar, sem o eu e sem o mim. E a valsinha agora eu danço sozinha.
   A máquina de escrever enferrujou ou fui que perdi a musa que dançava ao som da força dos meus dedos golpeando as teclas duras e velhas? Enferrujei. Perdi a coragem de pedir que ela segure a minha cintura, desajeitada deixou meu corpo cair.