Estou só, o escuro escondeu até a minha sombra. O quarto negro que me abriga e me obriga a abrir os olhos na tentativa inútil de ver algo, me expulsa de dentro de mim. E fora de mim sou quem eu quero ser, uma imagem destorcida da realidade atual do infinito escondido dessa casa, sou pássaro enjaulado que voa e quebra o bico no ferro frio que limita geograficamente o espaço e o tempo. Sou coruja de olhos abertos que não vêem.
Sei que existem estruturas sólidas sobre mim e ao meu redor, me sinto protegida, mas não me sinto em casa. Uma maneira estranha de acordar todos os dias e pensar “onde eu estou?” e depois de alguns poucos eternos segundos sentir o cheiro do meu próprio perfume no meu próprio lençol e lembrar com ar cansado e quase desesperado que essa é a minha cama.
Ainda que inativa posso escutar o barulho de cada tecla da minha velha máquina de escrever. Por muito tempo foi a minha melhor amiga, foi minha mãe e foi meu pai. Me dizia palavras bonitas de vez enquanto e palavras de ódio, escreveu muitas vezes palavras amor. E foi exatamente de amor suas últimas palavras. Hoje está ao meu lado, na minha mesinha de escrever, junto com a lâmpada que quase não ilumina, em conjunto são um resumo melancólico de quem eu costumava ser no passado.
Estou deitada olhando para o teto desbotado dessa velha casa, quase tão velha como a histórias contadas nos livros que ficaram do antigo inquilino, que eu por curiosidade e tédio li. Li tantas vezes alguns e tão pouco outros, que tomei como meu os nomes e os apelidos dos personagens pelos quais me apaixonei. São meus inimigos todos os vilões que encontrei pelas páginas quase amarelas que a velhice deixou como lembrança. Foi por estar sozinha, por não ter ninguém que eu mergulhei profundo para dentro de mim, e agora sinto meus pés presos na lama que sempre fica no fundo do poço quando nem mais água tem. Me perdi muitas vezes nos meios das linhas, dos parágrafos, que às vezes as histórias se dividiam em duas, e eu ficava no meio do que é sóbrio e do que é loucura.
É estranho não reconhecer o presente onde eu me encontro, é tão estranho saber que os sonhos e desejos já realizados ficaram pelo caminho e o futuro que me espera é linha reta e não permite visitar as curvas que eu já visitei. Um dia eu sonhei em morar dentro de um abraço, desejei que fosse eterno o corpo encostado no corpo. Felicidade efêmera eu disse, mas a saudade... ah, a saudade! Dura, dura até mais do que a própria vida, do que o próprio ser, perdura no coração que já parou de bater.
Ela se entregou e eu me entreguei, mas quando eu fechei meus olhos, eu cai com as costas no chão gelado da chuva do ano novo, com lágrimas quentes queimando meu rosto. O barulho interno me cegava e a vontade selvagem que invadiu meu corpo desprotegido e vestido de branco foi de entrar na água violenta, deitar sobre as ondas e talvez desaparecer. Desapareci e aqui estou, só.
Então eu olho para o teto, eu sei que ele está exatamente onde ele deveria estar, e eu olho para mim, estou fora de ordem, meu lugar é uma pessoa errante que foge e se afasta, que vai embora e me deixa sem lar, sem ar, sem o eu e sem o mim. E a valsinha agora eu danço sozinha.
A máquina de escrever enferrujou ou fui que perdi a musa que dançava ao som da força dos meus dedos golpeando as teclas duras e velhas? Enferrujei. Perdi a coragem de pedir que ela segure a minha cintura, desajeitada deixou meu corpo cair.



7 comentários:
Adorei as palavras, apesar da angustia refletida em cada uma delas...
Belíssimo, parabéns.
Muito obrigada Queen
vc consegue passar sentimentos como ninguém,.
te amo
Que lindo *-*, a tempos esperava por um texto novo e esse descreve tudo!
Adoro seus textos...Sempre tão intenso... Profundo!
Espero constancia esse ano... Que possas postar mais.
Tem um dom...
Parabéns.
Olá Anônino e Anna.
O blog está de volta!
eu também estava com saudade de escrever.
Prometo dedicar mais tempo ao blog!
Obrigada pelos comentários.
Abraços!
Que bom que você voltou!
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