O som da praia era o único som presente no abiente, dentro dela, na profundeza dos seus pensamentos, esse repetitivo e agradável som competia com o som interno da sua própria respiração e a voz dos seus pensamentos.
Era quase noite e a lua iluminava a areia que sujava a sua roupa, a água salgada brilhava, e dentro daquele corpo cheio de dúvidas e medos aquele brilho parecia a única coisa de valor naquela praia deserta, exceto pela sua presença. O vento soprava forte e o cabelo solto que voava sem nenhuma direção, ia e vinha, lhe tapava a vista e a forçava a fechar os olhos, e cada vez que fechava os olhos era mais difícil abrir outra vez e encarar o mundo; cada vez que aqueles olhos azuis se escondiam debaixo da pele fina eles demoravam mais e mais para voltar a aparecer, voltar a iluminar.
O escuro foi pouco a pouco engolindo seu pequeno corpo, ela era só um ponto de interrogação para aqueles que passavam pela calçada, bem longe da areia húmida onde ela estava sentada, naquele exato momento ela era somente a sua própria sombra, era quase invisível, era somente o desenho negro, sem expressões, sem forças para levantar e ir caminhar sozinha sem o que antes era a base, era corpo. Ela se sentia como um passarinho na sua primeira tentativa de vôo, que cai desajeitado, cai de peito e machuca o coração, se sentia pequena, e ainda assim parecia não caber em lugar nenhum. Ela que já tinha morado em tantos lares, ainda estava à procura do se sentir em casa.
Depois de um bom tempo com os olhos fechados, olhando o seu próprio escuro, ela olhou para o oceano em movimento bem na sua frente, juntou forçar e vontade para levantar e sacudir a areia. Pisou com os pés descalços o chão gelado e começou o seu caminho deixando suas pegadas, umas mais fortes que as outras devido a seus tropeços de cansaço, umas mais fundas que as outras devido a suas pausas para um pseudo descanso. Andou quase uma hora pisando em pedras e conchas, pensando na dor que levava no coração. Parou e voltou para o carro só quando o vento gelado levava o seu cabelo e soprava sua nuca fazendo o seu corpo tremer de frio.
Entrou no carro, colocou as chaves e os sapatos, encostou a cabeça no volante sem vontade de diriir, sem vontade de ir. Apertou o acelerador como quem pisa em terras desconhecidas, devagar, com vontade de retroceder. Diridiu devagar, parou onde tinha que parar, onde em tempos de pressa passava sem pensar. Ergueu a cabeça e ligou o rádio... “tell me all that I should know ””tell me why I feel so low”... muitas palavras aquela cantora cantou, mas poucas faziam tanto sentido para ela. Olhou pela janela e viu que deixava para trás a praia e as pegadas, viu como aquela tarde tinha acabado e que alguma coisa dentro dela também tinha chegado ao fim.
Estacionou o carro na porta de casa e com os pés imundos de areia e suor ela entrou, entrou também deixando pegadas, mas pegadas diferentes das anteriores, era terra firme, era chão duro, e agora as marcas ficavam nos seus pés e não onde ela pisava. Foi direto para o banheiro, para a banheira com água quente, já estava cheia e ainda estava quente; parecia que alguém já sabia que ela ia chegar, sabia exatamente quando o escuro ia trazer ela de volta, por medo ou por alguma outra razão desconhecida. Ela entrou na banheira com a roupa no corpo e afundou a cabeça, mergulhou, inundou o banheiro com seus caprichos, com sua vontade de se esconder do mundo.
Saiu pingando suas dores pela casa ate chegar no quarto, deitou na cama ainda com a roupa molhada se cobriu com a coberta seca, dormiu. No meio da madrugada, quando seu corpo tremia exageradamente reclamando pela roupa gelada, ela acordou dentro de um abraço. Olhou para o rosto sonolento e acordado da sua namorada e voltou a apoiar a cabeça em seu peito, ignorando o que seu corpo pedia. Fechou os olhos e tratou de esquecer a tarde e tentou fazer daquela noite o começo de uma nova.
As duas dormiram juntas, esperando o sol chegar e esquetar seus corpos unidos. Agora toda a cama estava gelada, como se se tratasse de somente uma massa no meio de um espaço vazio. Era começo de primavera e o sol que entrava pela janela ainda era tímido, era um sol que queria entrar e abraçar as duas, mas sem coragem fica só olhando pela janela.
O despertador programado para a mesma hora de sempre não tocou, faltou pilha, faltou vontade de acordar, assim como ela e a pessoa que a abraçava. Estavam acordadas, mas não queriam assumir essa condição para não ter que levantar e encarar uma a outra, de uma forma ou de outra o silêncio diz muitas coisas e de alguma forma, junto com o abraço apertado, ele ia aquecer as coisas, ele ia resolver o que tinha para ser dito.
Quando o dia a convidou para viver a vida do lado de fora da janela, ela se escondeu dentro daquele abraço que a protegia. Olhou outra vez para aquele sol que brilhava e se rendeu aos seus pedidos e sentou na cama. A menina ao seu lado continuou deitada, a acompanhou com os olhos e enquanto ela esticava o corpo sentiu como a acariciavam as costas, devagar, tão delicadamente que sentiu imensidão do amor que contia naquele gesto. Parou num gesto súbito, olhou nos olhos daquela menina como a muito não fazia, e com voz sonolenta e decidida a convidou para dançar a valsinha do Chico, a convidou para dançar todos os dias.
A resposta que recebeu foi um sorriso e uma frase simples a fez entender que a vida era tão simples como aquelas palavras. E elas ficaram ecoando na sua cabeça, aquela voz não parou de cantar a frase durante todo o dia dentro dos seus pensamentos. E ela saiu para viver a tarde com o sol de mãos dadas com aquela menina.
(“A gente já está dançando a nossa valsinha, como todos os dias. Hoje foi só um tropeço, um passo mal dado. Mas eu ainda amo o seu jeito desajeitado de segurar minha cintura.”)



14 comentários:
Fazia tempo que não passava por aqui mas não esqueci!
Parabéns! Você tem um enorme talento e deveria escrever um livro.
Amei o texto, beijos!
Deveria escrever um livro +1
Adorei o texto =D
"Ela entrou na banheira com a roupa no corpo e afundou a cabeça, mergulhou, inundou o banheiro com seus caprichos, com sua vontade de se esconder do mundo"
Seus textos são muito bons mesmo. Parecem falar diretamente comigo.
E para dar continuidade ao que já foi dito: Você deveria escrever um livro! =D
Comecei um blog há pouco tempo, se você pudesse me dizer o que acha, ficaria agradecida
http://www.spleendesconexo.blogspot.com/
um dos seus textos mais bonitos, *-*
cada dia melhor Rai (:
Eu estava precisando ler alguma coisa assim. :')
Parabéns Raianne. *-*
esse texto me tirou da mais baixa mediocridade e revigorou meu ser me tirando da minha profunda e imensa baixa estima...Incrivél...
seus contos são cativantes, mas sempre tira de você duvidas é o que sinto quando os leio, te imagino dentro de uma super proteção e uma divisória de caminhos ainda mal resolvidos.
Será que estou errada?
Muito lindo amei!!!!
Olá! tem selinho pra ti no meu blog. beijos.
http://diversifiquesuavida.blogspot.com/2011/02/selinhos.html
Olá, boa Tarde. Estou passando aqui para dizer que cada escritor que gosta de mostrar suas obras tem direito de saber desta noticia, podem já até saber mais vou deixar aqui como lembrança.
Estou escrevendo meus textos no ' recanto das letras' e é maravilhoso, acho legal cada escritor participar. Beijos e lindo Blog;
Sempre passo por aqui
Volta
t.t
Já faz um tempão que vc não deixa novos textos aqui onde vc está?
Então estou aqui apenas de passagem, para divulgar mais um trabalho meu e de outras pessoas, se quiser entrar na sociedade é só me mandar um e-mail, meu Site é:http://www.wix.com/elisa2709/amorcom
espero que goste.
Saudade dos teus textos.
Seus textos fazendo muita falta ;/
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