Eu sai andando devagar da cozinha, e fui em direção a sala apagando todas as luzes acesas que eu encontrava pelo meu curto caminho. Olhei pelo vão da porta do quarto, tentando verificar dentro da escuridão o que havia de estranho naquele lugar, era meu próprio quarto, mas alguma coisa tinha mudado e eu ainda não sabia exatamente o que estava fora de lugar.
Parei na porta da sala iluminada somente pela televisão ligada, em volume baixo, quase inaudível. Descansei meu corpo na borda da porta e fiquei comtemplando aquela imagem por alguns minutos até que ela, que estava sentada no sofá, se deu conta da minha presença. Me olhou fixamente e sem dizer nenhuma palavra pediu para eu sentar ao seu lado. Me pediu de uma forma muito simples, sentou no seu canto preferido do sofá e depois de chamar minha atenção com o olhar olhou para o canto que sobrava; o meu canto.
Sentei sem dizer nada e contemplei a televisão mesmo sem prestar nenhuma atenção, sem até hoje saber que filme estava sendo interrompido pelos comerciais naquele desconhecido canal. Eu estava mais preocupada nas palavras que sairiam da sua boca, se essas palavras seriam acompanhadas por algum abraço ou carinho. Tive vontade de deitar sobre o seu colo como antigamente e ver o filme, tive vontade de encostar minha cabeça em suas pernas e sentir como ela tremia delicadamente de frio, mas eu também tive medo, tive medo de aquelas pernas já não representassem nenhum tipo de lar para mim, logo eu que simplesmente procurava qualquer tipo frágil de abrigo.
Ela simplesmente continou encarando aquelas imagens coloridas sem sentido que faziam da nossa sala algum tipo de preto e branco colorido. Parecia cansada, seus olhos às vezes se fechavam e ela se perdia dentro de seus pensamentos enquanto eu me perdia dentro das suas expressões, me perdia a cada piscar de olhos, a cada bocejo reprimido.
Eu me perdi dentro dessa cena, dessa cena de constrangimento ao lado da pessoa que eu mais amei no mundo e que me conhece como uma mãe e me amou como um boêmio em dias de inspiração e criatividade. E eu só queria saber se esse amor bêbado e verdadeiro seguia ali entre a gente sentado ao nosso lado naquele sofá como antigamente. Eu de alguma forma queria perguntar por esse amor, queria olhar dentro daqueles olhos perdidos e perguntar se esse amor seguia segurando sua mão e equilibrando seus dias de embriaguês e desilusão, mas simplesmente não tive coragem, ela estava distante e eu estava perdida.
Para tentar esquecer por alguns poucos segundos a possibilidade de ter que levantar desse sofá e esquecer o que ele representou para mim, eu olhei ao redor, procurando encontrar respostas ou saídas de emergência. O único que eu encontrei foi o controle remoto, jogado no chão, com as pilhas perdidas pelos cantos. Recolhi cada peça daquele pequeno quebra-cabeça e ao terminar de montar os pedaços quebrados apontei para a televisão e desliguei sem pensar nas conseqüências.
De repente me senti livre dentro do escuro, fechei meus olhos e descansei meus ombros sobre o tecido velho daquele que outrora era ninho, era risos e sorrisos. Vi a silhueta dela ao meu lado, ela se movia devagar, parecia ter medo de encostar. De se machucar. Levantou e tomou seu caminho tomando cuidado para não tropeçar. Ainda que eu soubesse que ela reprovaria minha atitude, me levantei com ela, segurei sua mão e a acompanhei ao nosso quarto de portas e janelas fechadas.
Eu falei “a gente precisa conversar.” Ela me olhou sem a intenção de me encontrar dentro do escuro e respondeu “Talvez amanhã.” Nós duas sabíamos que não haveria nenhum amanhã, mas ela resolveu tentar esperar. Aceitei sua reposta como um fim, como um adeus.
Deitei ao seu lado na cama, deixando as lágrimas caírem silenciosamente para não perturbar seu precioso sono. Nossos corpos costumavam se encontrar no calor da noite em um abraço infinito, essa noite nossas costas se esbarraram, se embaraçaramm e se separaram. Esperei ela dormir para virar e contemplar seus cabelos negros espalhados pelo travesseiro, me aproximei devagar e a abracei como de costume, e de leve solucei lágrimas presas.
Quando eu passei meus dedos sobre sua barriga, tentando sentir pela última vez cada centímetro daquele que era meu corpo preferido, meu resumo de beleza, ela segurou minha mão, entrelaçou seus dedos nos meus e apertou o meu abraço frouxo. Minha respiração parou, tentei explicar tal comportamento com rotina, costume. Mas não. Ela realmente estava acordada e ao sentir meu corpo travado me disse com sua voz cansada e doce “Você não precisa ir embora, só preciso descansar, colocar a cabeça no lugar.”. Minhas lágrimas contidas sairam como quem precisa desabafar, foi quando eu chorei alto, solucei forte. Ela virou para mim passou a mão no meu rosto na sua tentativa em vão de secar minha pele. Com seus olhos me pediu compreensão, eu compreendi.
De manhã eu levantei bem cedo, bem mais cedo que o normal. Peguei minha mala arrumada debaixo da cama e deixei uma nota em meu travesseiro que dizia “Faz do tempo seu companheiro, faz do tempo seu, você tem o mundo, você tem só para você na janela desse mesmo quarto o oceano infinito, infinito como o anel no nosso dedo e como a promessa que a gente fez. Você agora tem o tempo que você tanto cobiçava, bom proveito. Você tem tudo e o único que eu quero é você, estou indo com o vento, só espero que ele não me leve longe demais e que algum dia você possa me encontrar. Ass: Aquela que costumava ser sua princesa. Te amo.”
Fechei as portas atrás de mim e antes de sair pela porta principal tirei minhas chaves do bolso e deixei pendurada na fechadura, dentro de casa. Sai devagar e fechei a porta nas minhas costas sem a possibilidade de voltar sem ser convidada. Preferi pensar que essa casa que eu abandonava não era minha, para mim era refúgio, era recanto.
Ao pisar a rua e ir com a direção que me indicava o vento eu percebi o que estava fora de lugar dentro daquele quarto, e a mais triste conclusão veio à tona, eu. Era eu quem, de alguma forma, sobrava. Eu era a última folha por cair para concluir o outono, e eu cai, desmoronei. E deixei meu coração transparecer e sentir junto comigo a brisa fria do inverno que chegou.
E hoje eu espero um convite para entrar (outra vez na sua vida).



10 comentários:
Amoo seu blog,o jeito como narra é fascinante!Já li todas as outras histórias,e depois dessa não pude deixar de comentar.Simplesmente perfeito.*-*
Tão real que dá pra sentir o vazio dentro de mim...
vc é a pessoa mais talentosa que conheço.
belo texto, mesmo que seja um texto triste.
me orgulho muito de vc.
Sou visita recente no teu Blog..
Seu texto me lembrou Clarice Lispector quando diz:
".. Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar, mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas duas pernas. Sei que somente com as duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar..”
Belo texto..
Excelente texto. Gostei muito ;)
Seus textos são fascinantes e maravilhosos. Nunca deixo de ler..
:)
Noooooossa como esperei algo novo seu...
recomendei seu blog no meu facebook
bjaw linda
Simplismente AMO seus textos, e amo vc. *-*
Estava com saudades das tuas palavras que com tanta facilidade me tocam, me emocionam.
Parabéns mais uma vez! Da sua fã numero 1. ;D
Beijosssss <3
J.
Me fez chorar e lembrar um momento de minha vida.
Parabéns, como sempre você escreveu perfeitamente...
Nossa, parabéns. Foi a 1ª vez que li um texto do seu blog, tenho certeza que vou ler e gostar de todos. É lindo.
Beijos. Deborah.
p.s.: http://www.orkut.com.br/Main#Profile?
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