Sentou lentamente no balanço que balançava sozinho pelo vento típico de fim de tarde nesses dias de outono. Ao seu lado outro balanço vazio em movimento. A areia fina do chão dançava com as folhas suicidas que iam caindo pouco a pouco das árvores secas, magras e, devido à falta de iluminação no local, escuras, quase negras; algumas folhas já estavam secas, umas próximas e outras bem longe dos troncos, dos galhos de onde antes habitavam, outras mostravam certa resistência e seguiam verdes agarradas a aqueles pequenos pedaços de madeira.
O céu estava escuro e somente alguns postes eram responsáveis por toda a iluminação do parque de medidas médias, com poucos brinquedos e muita poeira. No outro extremo do parque, bem em frente do balanço havia uma casinha de madeira e essa foi a primeira imagem que viu depois de sentar e tomar coragem para erguer a cabeça e começar a impulsionar com os pés trêmulos cheios de dúvidas a madeira velha e úmida que flutuava no ar presa por duas correntes, que por suas cores quase laranjas mostrava que os anos tinham enferrujado aquele lugar.
Seu rosto mostrava quase a mesma melancolia que representava um parque sem o barulho das gargalhadas das crianças, da areia que se dissipava no ar sem que nenhum pequeno ser tivesse passado antes correndo de um brinquedo a outro como quem quer ir a todos ao mesmo tempo e corresse para compensar seus super poderes ainda não desenvolvidos. Ela era a única que representava alguma vida para aquele lugar que no momento era um simples resumo do mundo e da sua vida.
O telefone no seu bolso direito apitava sem parar, tentando avisar que estava prestes a desligar por falta de bateria, mas ela parecia não escutar, ou simplesmente não prestava atenção nos sinais que se apresentavam diante dos seus olhos de que o tempo estava passando e que talvez, por não estagnar, era hora de ir. Ela balançava cada vez mais alto, enchendo os sapatos de areia, aos poucos sentia o sabor daquele ar poluído que deixavam sua boca seca, quase sem saliva. Seus olhos ardiam pelo ar que soprava cada vez mais forte e cada vez mais sujo.
A luz de uma pequena lanterna a obrigou a parar, com um movimento bruto, grotesco, colocou os pés rígidos no chão que instantaneamente fez voar terra e ela, de forma desajeitada, se viu em pé em frente ao balanço que agora rodopiava de um lado a outro tentando assimilar e voltar para sua órbita natural. O guardinha
que já queria ir para casa, se aproximou com cara de cansado e a perguntou se ela estava perdida ou se queria alguma ajuda para chegar em casa, e ela com uma cara ainda mais cansada olhou para o senhor ao seu lado e sem dizer nada recolheu suas coisas no chão e deu as costas para aquele lugar. O velho guarda vendo aquela que
acabara de transformar-se em mulher indo em direção a rua mais estreita e antiga da cidade sentiu compaixão e tristeza porque parecia entender que ela só precisa de um descanso.
Enquanto caminhava devagar por aquela rua representou um claro contraste para a decoração, parecia não pertencer ao ambiente e por respeito tirou os sapatos barulhentos e o casaco colorido. Com as mãos levava suas coisas e ainda que sentisse frio preferia a sensação de pertencer, de encaixar com alguma coisa, e de fato sua calça jeans e sua camisa preta eram as peças que faltavam naquela rua silenciosa de casas baixas, janelas na altura de quem passa, de quem se interessa pelo que está dentro e de quem se interessa pelo que está fora.
Sua cabeça e seus pés doíam, latejavam sem sincronia. Sem saber por quanto tempo esteve caminhando por fim chegou em casa. Abriu a porta e com passos leves foi devagar até o banheiro. Não se importava muito, mas mesmo assim se preocupou em deixar as luzes apagadas e não fazer barulho, encostou a porta e ligou o chuveiro
dentro da escuridão. Enfiou a mão no bolso e foi tirando dali cada minúscula moeda, as chaves, o celular e alguns papéis rabiscados. Desamarrou o cabelo e desabotoou os botões da manga da camisa social. Nem por um segundo pensou em tirar a roupa e entrar de baixo daquela água gelada, entrou como quem quer lavar não só o corpo, mas como quem também queria se desfazer de alguns aspectos da vida.
Quando sentiu a água atingir seu corpo teve uma sensação de quase dor, era prazer. A roupa molhada rapidamente colou no seu corpo escondido. Ela tinha os olhos fechados, concentrada na água que caia porque não queria pensar em nada mais, o alheio não lhe atraia. A roupa em pouco tempo se transformou em um grande incômodo, ela se viu obrigada a abrir os olhos e pouco a pouco ir se livrando de todos aqueles tecidos. Quando abriu os olhos viu que a entrava luz pela fresta aberta da porta, ficou a espera do que era óbvio para ela. A porta se abriu devagar a luz cresceu e dominou todo o banheiro, ela soltou alguma reclamação que a sua namorada não pode entender, ou simplesmente ignorou. Ela voltou a fechar os olhos ainda com metade da roupa por tirar e não disse nada.
“Sempre tive medo de que você não voltasse para casa, que no caminho se desse conta de que não faço parte do seu conto de fadas.” – Disse a namorada enquanto entrava de baixo da mesma água fria que ela, também vestida.
Ao ter companhia respeitou o intruso que não incomoda e substituiu a água fria pela água quente. Enquanto o vapor ia subindo lentamente ela voltou sua atenção à roupa ainda por tirar, recebeu ajuda com os botões que faltavam e deu as costas à mulher que estava na sua frente para que esta pudesse tirar com mais facilidade a
camisa grudada no corpo molhado.
“Sabe por que eu me apaixonei por você?” – Ela disse, e antes de ter uma resposta continuou – “Antes de me apaixonar por você, me apaixonei por seus medos, sua fragilidade. E sabe por que às vezes eu volto tarde para casa? Porque sou incapaz de assumir que não represento um porto seguro para você e meus abraços não te afastam dos seus monstros.”
“Isso não é verdade” – Respondeu a namorada enquanto puxava devagar seu braço a forçando a dar a volta e encarar seus olhos escuros.
“É verdade!” – Ela exclamou num quase grito de desespero.
Olhou para cima, deixando a água cair diretamente no seu rosto. Durante alguns poucos segundos deixou que o silêncio voltasse a impor a ordem no seu corpo e em tudo não material dentro de si para voltar a falar em um tom que, sem poder aumentar o volume da própria voz, aceitou ser um sussurro.
“Escutei você chorar essa noite, e sei que você estava pensando em mim enquanto deixava seu inconsciente desabafar. E hoje eu acordei e vi seu rosto inchado sorrindo por algum sonho bonito e por ver você sorrir me senti feliz e me dei conta que já não sou indiferente.”
“Você precisa descansar.” – Respondeu sua namorada envergonhada por ter sido capaz de esconder as lágrimas da noite passada, e por não conseguir esconder naquele momento.
Ela abaixou a cabeça e entrou no abraço da namorada que a esperava com a toalha aberta, sentia frio e por impulso caminhou em direção ao quarto, sentiu que estava sendo seguida e enquanto andava tropeçando nas bordas da toalha que arrastava no chão se perguntou se ela estaria no sonho que deu origem ao sorriso mais bonito que havia visto, e ao pensar nisso se virou e encarou sua namorada com cara de quem ia começar a fazer um interrogatório. E o que teve como resposta foi um sorriso similar e a seguinte frase: “Sim, eu sonhava com você, e sim, antes de dormir e sonhar eu chorei, chorei porque, não importa o que aconteça ou o que você diga, eu sempre vou temer te perder.”



22 comentários:
CARACA! nem acredito..
estava morrendo de saudades do manuscrito!
Rayanne pf não passe mais tanto tempo sem postar.
abraço
Saudadees do seus contos!
Muito bom voce ter voltado!
Estava com medo de você ter abandonado... Bom te ver de volta. Seus textos simplesmente falam por mim. ♥ Seu blog é, de longe, o meu favorito. ^^ Parabéns, continua assim.
Hey! Primeira vez que visito o blog, e me apaixonei. Você tem um dom incrível com as palavras =)
Queria agradecer tbm, porque o seu texto ajudou um monte no MEU namoro... Nem sabe o quanto. rsrs
Enfim, vou estar sempre aqui ^^
Beijos :*
Lindo como sempre!
Não me canso de ler seus textos, porfavor, não canse de postar tambem :D
Viciei no seu blog e venho aqui todos os dias em busca de mais textos.
Ainda bem que voltou.Beijos
aaaaai, amém rss *-*
ameeeeeei demaaais, perfeito, parabéns Raianne! ;*
Uhull.. voltou..
texto perfeito como sempre..
E é verdade, nunca se canse de escrever..
brçs
Suenne
Guria, tu és boa demais, viu?
Mergulha nessas águas aí da literatura e nos dê esse prazer de curtir os teus textos, ok?
Beijos.
AAAAAH que bom que voltou Rai,
passava todo dia por aqui para ver se tinha voltado e me aliviou ao ler seu texto, falou por mim, pelo meu final de semana.
valeu por compartilhar seu dom com a gente (:
bgs
Eu ainda estou besta! Sério, menina! Que perfeição, que coisa mais bela esse conto! A profundidade, é incrivel como consegue imaginar uma história tão densa e emocionante se passando em termos de horas ou minutos! Dizer que você está de parabéns é medíocre! Eu te considero a melhor contista lésbica que eu conheci e dificilmente será superada por alguém!
Fiquei muito tempo voltando aqui para ver se tinha algo novo. E nossa, você já era excelente, deu um salto! Quase me leva às lagrimas (e me faz desistir de escrever kkkkkkkkkk) mas penso que é uma honra dividir o espaço de escritora com você. Você merece ter muito sucesso sabia? Publica um livro, garanto que propaganda da minha parte não faltará! E eu serei a primeira a ter a cópia!
Novamente, foi brilhante! Palavras são incapazes de expressar! Divino! Um grande beijo e continue escrevendo, por favor! Seus contos são uma luz pra mim e muitas outras! Meus mais sinceros parabéns!
Olá não escreve mais por que?
beijos amei ta de parabéns boa semana!
Amei, isso vai me ajudar muito! Me senti em uma paz absurda! Acho que vou dizer muito isso pra alguém que é muito importante em minha vida! Estava hiper ansiosa para ver mais um belo texto seu. Demorou um pouquinho mais saiu! E eu simplesmente amei!
Tá bem escrito, e acho que passou bem a idéia! Gostei da história e da maneira como você desenvolveu ela. O negócio é continuar escrevendo! Assim como você, também sou nova, e também escrevo contos. Como é bom saber que ainda temos tempo, muito tempo pra desenvolver a escrita e as idéias, não é mesmo? Me parece que você tá no caminho certo. É isso, até mais, garota!
Encontrei-me aqui por acaso... e comecei a ler sem saber ao certo o que encontraria...
e a sucessão de palavras foram tomando forma dentro de mim e de repente eu estava devorando cada um dos textos numa maratona louca...
Rs... Li tudo... e me senti apaixonada... não sei pelo que... só me senti assim... e só tenho a agradecer por isso...
Então, obrigada ^^
Minha amiga disse que vinha aqui sempre , e que encontrava força e motivação a cada palavra a cada verso , venho aqui e constato é pura magia de uma menina encantadora, seguindo-te ♥
Parabens, o conto é realmente lindo.
Vc escreve mto bem.
E... ao menos a sua personagem tinha uma namorada, que em algum momento poderia afugentar-lhe o medo neh...
Me identifiquei com ela, mas ao contrário, sempre volto para uma casa vazia.
Eternamente vazia.
=/
Rainne passei para conhecer seu blog ele é not°10, show, espetacular desejo muito sucesso em sua caminhada e objetivo no seu Hiper blog e que DEUS ilumine seus caminhos e da sua família
Um grande abraço e tudo de bom
Ass:Rodrigo Rocha
Lindos textos... são bons pra refletir, pois eles sempre se encaixam em algum pedacinho de nossas vidas... =)
Ótimos textos, você escreve tão bem...
http://8inks.blogspot.com/
bonitinho teu blog.. bjos !!
Raianne seus textos são mágicos, você tem sim um dom pra escrever *--*
Parabéns pelo blog, e continue sempre que puder postando seus textos lindos :)
Dá uma passada lá no meu blog: www.viciadosemliteratura.blogspot.com
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