Ela está muito longe de mim agora, mas faz questão de me presentear seu sorriso todos os dias antes que eu possa dormir, porque ela sabe que me faz feliz vê-la sorrir seu sorriso tímido de quem nunca esteve ao lado, mas sempre esteve presente. A gente nunca chegou a ser próximas, nunca chegamos a concluir que o que se sentia era de verdade amor, tampouco pode-se dizer que tivemos tempo.
A conheci a alguns anos atrás, quando a coincidência fez do cruze destraído de nossos olhares um encontro, ela procurava alguém no meio de todos e eu simplismente descansava meus olhos de tanta poluição humana, encontrei em seu delicado rosto meu descanso e também minha inquietude quando ela, ao buscar outro, me achou. Até que tentei disfarçar o meu encarar, mas já era tarde e ela tinha percebido e junto comigo se constrangiu. Era pequena celebração da pequena cidade em que nasci, bem longe de onde decidi viver. Muitas pessoas das quais eu achei que nunca mais ia ver estavam presentes, eu até que estava tentando me centrar mas meus pensamentos realmente não estavam ali, e assim foi até que a vi.
Meus pés voltaram a tocar o chão, quando consegui ver que seus olhos de aspecto relaxado eram azuis, pensei em caminhar em direção oposta, pensei em fugir da pressão que era seguir encarando aquele olhar. Mas quando comecei a andar meus pés pareciam conhecer somente uma direção, a sua. A cada passo senti meu coração bater mais forte, no meio do caminho, quando parei de ohar o chão e tentei inútilmente desviar a direção vi que ela estava olhando para mim, parecia esperar. Ela me sorriu e esse sorriso me fez parar, significou rosto vermelho e olhar perdido em mim. E como quem rebobina uma fita velha eu dei passos para trás, e ela como quem adianta uma música para chegar no refrão veio em minha direção. Quando ela chegou o suficientemente perto para que eu pudesse ver até os diferentes tons de água dos seus olhos eu a cumprimentei com acabeça e ela imitou meu movimento, me olhou meio curiosa e depois de alguns intermináveis segundos ela pronunciou alguma palavra que eu não prestara atenção e até hoje me pergunto qual teria sido.
Eu não lembrava dela, mas ela insistiu em dizer que em algum momento de nossas vidas a gente tinha estudado juntas. Pode que tenha sido distração minha, nunca tinha prestado atenção nas coisas que eu encontrara dentro das salas de aulas até que cheguei na faculdade. Ela devia ser mais uma que sentava no oposto, no outro extremo da sala pintada de amarelo que diziam estimular o raciocínio, o que não funcionou comigo. Me envergonhei em perceber que ela sabia grande parte de mim e eu não sabia nada dela, me senti estranha, logo eu que me reservava para mim mesma, como podia estar tão exposta dentro da minha falta de interesse? Mas parecia que meu corpo vazio de qualquer sentido a interessava.
Durante toda a festa ela esteve comigo, tentando me fazer lembrar que ela também já tinha existido para mim anteriormente, mas fui incapaz porque toda vez que eu fazia a cara de quem não sabe do que se está conversando ela sorria, achava graça do vermelho das minhas bochechas. Era impossível que ela tenha um dia estado comigo no mesmo espaço geográfico sem que eu tenha reparado naquele sorriso, seu bonito rosto quase perdia importância para os meus olhos quando ela me deixava ver seus dentes escondidos nos lábios finos. Seu sorrir tinha mudado ou era eu que tinha aprendido a reparar na beleza do enrugar do rosto quando a alma sorri? Eu nem tentei lembrar, não me procupei em revirar minhas lembraças para encontrá-la porque ela já estava ali comigo. Eu gostei tanto de ouvir a sua voz e de admirar o seu sorriso que eu tinha até esquecido que em um primeiro momento eu a tinha desejado.
O que parecia improvável aconteceu, eu desejei passar a noite naquela cidade, desejei estar ali por mais algum tempo, mas eu não pude, a viagem era longa e eu tinha que seguir. Antes que a noite clareasse eu tinha que ligar o motor do carro e partir, me despedi com muito pesar daquele sorriso. Antes de dar as costas para ela a pedi que viesse me visitar algum dia, dei até meu endereço na esperança de um sim verdadeiro por parte dela, o sim veio mas já a sinceridade eu não tinha muita certeza, ela chegou a falar que talvez na semana seguinte chegaria de surpresa trazendo uma foto antiga da nossa infância. E eu com um pouco de sono fingi acreditar.
Quando eu cheguei em casa não demorei para esquecer tudo o que tinha passado, exceto o sorriso, não saiu da minha cabeça. Eu até queria acreditar que ela chegaria com a foto, para eu ver se eu levava na minha cara de criança a inocência de não perceber tal beleza, ou se ela levava no rosto o sorriso escondido, guardado para outras ocasiões. Não acreditei que viria, mas veio, não ela, mas uma carta com seu nome e só uma coisa dentro, uma foto em que outrora eu era menor, encolhida dentro de mim mesma. Fiquei tanto tempo me observando na foto que não percebi o abraço que eu tinha em meus ombros, era ela irreconhecível, ignorando a foto e rindo, olhando para mim. Ela me ofereceu antes esses lábios em movimento e eu realmente não lembrava, ela tinha razão o tempo todo quando dizia que eu era distraída demais para dar atenção aos pequenos detalhes que ela expunha só para mim. Vi que a foto estava marcada, um relevo que indicava palavras no verso da imagem, virei para ler e em palavras borradas pelo envelope eu li “espero que você se lembre agora, porque eu nunca vou esquecer dessa época.”
Essa época… que época foi essa que se apagou da minha memória? Apagou uma parte de mim que talvez antes não me era importante, mas agora sim. Procurei em minhas próprias fotos encontrar a resposta, eu sabia exatamente o que eu fazia e quem eu era naquela época, mas eu realmente não sabia o que ela fazia, nem quem era ela.
Eu respondi a carta, e muitas outras que vieram. E atendi os telefonemas e disquei muitas vezes também. Demorei bastante para voltar para aquela cidade apertada no meio do nada, mas quando fui passei a noite, amanheci com o sorriso do lado e pude então sorrir, porque ver aqueles olhos olhando dentro dos meus e aqueles lábios me sorrindo enquanto se aproximava para um beijo, me fizeram então lembrar que aquela mulher que eu tinha ao meu lado tinha sido a menina que um dia me sorriu aquele sorriso quando eu perdi minha primeira namorada, era ela, e eu não tinha percebido, era ela quem chorou quando eu virei as costas e vim embora. E por mais que me doa, agora mais em mim do que nela, vou ter que voltar a dar as costas.
Agora sou outra vez distante, encolhida dentro de mim mesma, mas não mais por medo, mas simplismente porque cada vez que eu olho para dentro de mim e me escondo ali, estou vendo de olhos fechados o sorriso que me faz sorrir.



17 comentários:
UM otimo texto!
pena que existem pessoas que nao sabem o que eh isso. ou que nao tenham um sorriso.
Nossa A cada História que eu leio em seu blog, me fascino mais e mais. Parabéns mesmo. Todos os dias eu entro nos eu blog na esperança de encontrar algum artigo novo postado pra eu ler. Já li e reli todos. e não me canso. ^^ São Fantásticos.
A cada linha escrita do seus textos estão sempre a frente uma grande surpresa,é como se a cada palavra escrita um enigma atravessasse os nossos pensamentos, e com o atravessar desses enigmas a esperança de decifrá-lo que ao concluir a leitura podemos desvendar cada um desses enigmas. São textos maravilhosos a cada linha lida a vontade de ler e ler sempre mais.Parabéns seus textos são maravilhosos!!!
O blog está lindíssimo, e claro o texto também!
Beijos
Quem nunca encontrou um sorriso assim?
Eu queria um sorriso assim só pra mim'...
Lindo texto!
EU tb queria um sorriso assim pra mim tb rsrs
adorei o texto
Adorei seu blog...
legal..
também faço contos
lésbicos.
Adorei...
Que lindo *--*
Em cada palavra,em cada tom da melodia passional da sua escrita,é simplesmente surpreendente o modo como você se espressa com os vocábulos...Eu simplesmente adoreii o seu blog,pretendo visitar o quantoo for preciso.
Quero lhe dizer q agora vc tem uma nova leitora de carteirinha aki.rsrsrs'.amey suas historias!são perfeitas..amei vc tbm..
bjs *-*'
Seguindo vc ,
Mano parabens vc escreve muito :D
LIIIINDO DMS *-
aaaah CHOREI fato ! Me fez lembra o sorriso dela que esta longe de mim, separado poooor quilometros de distancia ! :'(
SEGUIINDOO, AMEII O BLOG *-
Amei lindo
Eu salvei o link do seu blog nos meus favoritos há um tempo atrás porque achei o nome dele lindo mas não tinha lido nenhum texto seu. Hoje resolvi abri-lo e esse foi o 1º texto que eu li. Me apaixonei completamente pelos detalhes e lembrando que também tive que dar as costas à um sorriso igual a este. Parabéns, seu texto é fantástico. Um beijo, Nanda.
adorei ou amei são palavras pobres demais no vocabulario ...para qualificar seus textos..tenho certeza d qw vç escreve de alma pensamento e coração...mem inspira a fazer lindas cartas pra minha namoarada ...congratulations.
O sorriso eu já encontrei, ele só não é meu e nem vai ser... :(
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