09/04/2010

Vem











      
       As malas estavam já posicionadas na porta, depois de muitas horas de decisão de o que levaria consigo e o que deixaria para trás, antes de trancar as portas e deixar a casa ela deu uma última verificada nas chaves dentro da bolsa, olhou mais uma vez a passagem, os endereços marcados para quando chegasse, ligou para o táxi e saiu para esperar nas escadas da entrada, sentou no primeiro degrau e apoiou o rosto na mala que antes tinha colocado na sua frente, pegou o óculos e começou a reler todas aquelas letras pequenas desenhadas num pequeno papel que lhe havia chegado por correio. Já sabia de cor todas as referências e telefones da carta, e mesmo sabendo que não precisaria de nenhum deles leu e releu, não por interiorizar, mas sim para adimirar aquelas letras que tantas lembranças traziam, e que sabia que de agora em diante poucos desses desenhos legíveis seria escrito para ela.

      Ela estava tão distraída com o pequeno papel em sua mão que nem se deu conta que o táxi já estava parado em frente ao seu portão, o senhor que dirigia o antigo carro saiu para ajudar com as malas, e mesmo tendo bastante idade falou que ela fosse sentando que ele mesmo colocaria tudo na mala para ela. Obedeceu, sentou no banco da frente mesmo, tinha o raro prazer de fazer companhia aos motoristas de táxi, achava que eles mereciam um descanso das almas solitárias que sem pronunciar uma só palavra atravessavam a cidade, ela gostava de deixar algo mais que o dinheiro, ela gostava de deixar também um sorriso.
    A viagem até o aeroporto passou bem rápido, mal pôde acreditar quando viu a grande construção se aproximando, não era a primeira vez que voava, mas com certeza era a primeira vez que tinha na passagem marcada somente a ida. Não sabia exatamente quando duraria o vôo, mas sabia que não importasse quanto passasse no relógio, nunca seria maior que o tempo que ela esteve esperando por isso.
    Quando o avião começou a descer, naquela tarde em que o sol preenchia sozinho todo o céu, ela entendeu então o porquê que todos chamavam o Rio de cidade maravilhosa, entendeu por fim a necessidade que teve Tom Jobim de escrever o samba do avião. Felicidade igual aquela nunca tinha sentido, quando o avião tocou o chão ela sentiu-se chegando no céu, irônica sensação de encostar a terra e as estrelas no mesmo instante, sentiu-se grande e leve.
     Sem pressa foi pegando suas malas, sabia que não a estariam esperando, que ela mesma sozinha teria que encontrar seu caminho. Colocou os fones no ouvido e saiu no meio da multidão sem olhar para ninguém ali presente, andava devagar e de repente seu carrinho se pára e ela sem entender, já pronta para tentar não se estressar com o indivíduo que estava em seu caminho, ela levantou a cabeça e como o sol seus olhos brilharam e na mesma intensidade seu coração acelerou.
      A mulher que tirava os fones de seus ouvidos enquanto lhe dava um curto beijo pronunciou dentro do abraço: “você achou mesmo que eu não viria te buscar?”. Ela inocente concordou com a cabeça, demorou um pouco até entrar na realidade e beijar a mulher que estava parada ali na sua frente esperando alguma reação, com um sorriso de quem acha linda a cara de desconcerto da mulher.
      Ela, que não estava esperando por isso, simplimente calou, tudo o que queria dizer ela disse com os olhos, com o corpo, com o sorriso incosciente que transmitia a cada passo ao lado da mulher que empurrava seu carrinho, com suas poucas malas. Ao chegar no carro estacionado as duas pararam uma de frente para outra, sabiam que estavam sozinhas e que o beijo preso na garganta e no peito não podia mais esperar. Se entregaram por breves momentos, não durou muito o beijo que ela deu, mas o abraço, esse sim foi bem demorado. Pareciam estar regulando os corpos, deixando que os corações entrassem em compasso depois de tanto tempo batendo desregulado.
       Entraram no carro em extremo silêncio, cada uma perdida em seus próprios pensamentos, as duas sorrindo sem nem mesmo perceber. Olhando com um olhar que encara sem timidez ela estava totalmente virada olhando cada detalhe daquela que lutava para não desviar os olhos muito tempo do trânsito. Nunca na vida tinha apreciado tanto os sinais vermelhos nessas ruas abarrotadas de fim de tarde.
      Ela vendo que talvez fosse demorar para realmente chegar na sua nova casa, que não era nem um pouco desconhecida, encostou a cabeça no estofado do banco do carro, abriu a janela e fechou os olhos sentindo o vento invadir o carro e seu rosto, como um movimento involuntário estendeu a mão e acariciou as pernas da mulher que estava ao seu lado. Totalmente entregue ao vento e as pernas, quase adormeceu. Estava em paz. Voltou a encarar a mulher que dirigia, ainda com a mão em sua perna, se aproximou do rosto que olhava para frente com veemência beijou seu rosto com um leve encostar de lábios e pele, deixou sua mão escorregar pela perna que se movimentava com o passar de marchas, freios e idas, repousou seus dedos na virilha da mulher que imediatamente, ao sentir aqueles dedos, olhou de rabo de olho para a que estava de carona e falou voltando a olhar para frente “você gosta mesmo de me provocar né?”. Ela envergonhou, não tinha sentido que, com seu tocar, tinha estimulado vontades quardadas, desejos contidos. Ela que antes não tinha a intensão, agora fazia de propósito. Para provocar como tinha escutado antes.
      Quando finalmente ela pisou no apartamento de portas deixadas abertas, ela sentiu-se estranha, demorou algum tempo para sentir que aquele chão que agora sustetaria seu passo era realmente um lar, não mais só visita. Estava parada em pé, em cima do tapete da entrada, quando escutou uma inocente risada nas suas costas que veio acompanhada por um abraço, braços que se juntaram com todo o corpo e a protegeu de qualquer medo que podia vir a apresentar, ou que já estivesse temendo. Sorriu aliviada ao sentir aquele contato em seu coagido corpo.
      As malas ficaram jogadas na sala, ela não teve pressa, nem vontade de abrir e desvendar o conhecido mundo que trazia consigo. Queria era deitar, descansar seu corpo nos ombros que já estavam preparados para ela, somente para ela e seu sorriso. Entrou ignorando a casa estranhamente bem arrumada, passou direto pela cozinha de louças lavadas por completo, se esparramou na cama arrumada como nunca antes tinha visto. Não demorou muito para sentir ao seu lado outro corpo desarrumando o lençol engomado, virou e beijou o rosto que por estar já com os olhos fechados, parecia estar esperando por aquele contato.
       A saudade era grande, imensa, mas os atos que desenhavam o dançar de abraços e carinhos era calmo, quase tranquilo. A respiração dela e a que não a pertencia mas mesmo assim respirava devido a proximidade dos rostos, era calma ainda que irregular. Já estavam juntas a tanto tempo, mas aquele olhos nos olhos foi como primeiro beijo onde cada um dos donos dos lábios que se encontram estivessem apaixonados um pelo outro a muito tempo sem que nunca tivessem tido a chance de se encontrar.
       Ela fechou os olhos e o corpo, se sentiu como quem se joga do mais belo precipício só para voar, provando que as leis da física somente são aplicáveis ao corpo, jamais se aplica para as almas livres e sonhadoras. Ela se entregou inteira, com a certeza que seria feliz, que já era feliz por estar ali voando com as borboletas em seu estômago.

7 comentários:

Nicole disse...

Que fofinho o texto! rs

adorei e principalmente...

"...já era feliz por estar ali voando com as borboletas em seu estômago."

te amo muito
n2

N! disse...

Adorei tudo sabe, essas histórias felizes fazem falta. E o jeito como fala do Rio, dá tanta vontade de conhecer. *---*
Parabéns menina, sucesso. (yn

Amanda, Luiza e Yasmin disse...

liindo liindo, muuito perfeeito *------*

Nicole Abrahão disse...

Perfeito, menina! Está de parabéns como sempre! Eu adorei a referência ao Rio. Há pessoinhas bem importantes pra mim lá! rs Beijão!

Anônimo disse...

é mais ou menos assim que sonho que seja a minha historia no final da faculdade :D

adorei o texto!

suzy disse...

Muito bom mesmo!É sempre bom ver finais felizes,penaq nem sempre é assim!
BjãoOo...

Milena disse...

Nossa que lindo esse texto, me perdi nas palavras, me desliguei do mundo quando estava lendo... Realmente voce tem talento, e invista nisso :)
Sucesso.

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