13/04/2010

Sexta-feira







       Hoje é sexta-feira, dia de dedicar toda a minha noite a escutar Jazz num bar meio retrô no centro da cidade, voltar pra casa meio bêbada, dormir sozinha e só levantar quando o corpo começar a reclamar.


       Sai do trabalho e fui direto pra lá. Meu pedido de vinho tinto já virou simples “boa noite” para o garçom que vinha com a taça cheia após poucos momentos de eu me jogar numa cadeira meio sofá no canto mais afastado e com melhor vista para o pequeno palco que sustentava com certa dificuldade o grande piano e os músicos que o rodeavam. A banda de hoje eu não conhecia, no papel um nome que eu não sabia, e preferi não tentar, pronunciar. A luz fraca e as vozes baixas pareciam fazer parte inseparável do show que demorou a começar.
       A banda entrou quase sem fazer barulho quando me dei conta já estavam todos em seus devidos lugares, a moça loira em pé em frente ao microfone e toda sua banda de meninos com cara de recém maiores de idade. Pareciam banda de rock perdida em melancolia em dia de tocar suas melhores baladas. Destruíram qualquer conceito premeditado no primeiro acorde suave que veio acompanhado com o sopro leve do sax e que logo foi seguido pelos outros integrantes, a voz veio por último e quando chegou me fez entender o difícil nome da banda. Um francês cantado com os olhos fechados que embalou um sentimento de total nostalgia dentro de mim, uma melodia quase tátil, em perfeita sincronia, parecia se encaixar com o ritmo das batidas dos meus sentimentos.
      Percebi que estava quase em transe quando fui interrompida pelo garçom que trazia pra mim um guardanapo rabiscado e mais uma taça de vinho dizendo que a moça da mesa 1 mandou entregar, agradeci, joguei o papel na mesa e tomei um gole para voltar ao estado que estava antes, só abri o bilhete quando a música acabou e a banda parou para um café, li aquela letra quase desenhada onde dizia, em uma frase clichê, que eu não devia estar sozinha naquela noite tão bonita, joguei outra vez o papel na mesa só que dessa vez amassado e voltei para meu lugar esperando outra vez o show começar. Cinco músicas passaram até o agradecimento em um português aprendido de última hora, comecei a recolher minhas coisas para voltar para casa quando uma mulher, irreconhecível pela falta de luz, sentou ao meu lado, me olhou e afirmou “você não mudou nada, continua me ignorando”. Curiosa, me aproximei ao seu rosto forçando a vista para identificá-la, e quando seus traços marcaram um perfeito contraste com a luz meu coração quase parou, por um momento me vi sem ar. Ela olhou nos meus olhos, ignorou meu evidente nervosismo e perguntou “você já está indo embora? Queria conversar.” Voltei a colocar a bolsa onde estava e tomei fôlego para começar a falar, mas fui incapaz.
      Ela viu que da minha boca não ia sair muito mais que suspiros de incredulidade e cansaço, por muito tempo continuei estática, queria dizer alguma coisa, mas não fui capaz, não sabia o que dizer, ela era por exelência a última pessoa que eu esperava encontrar naquele lugar, porque a última vez que a gente se viu era como essa cena repetida no passado, mas da última vez ela estava desocupando o lugar ao meu lado, não o preenchendo.
     Quando o clima começou a ser de constrangimento para ambas partes ela olhou nos meus olhos se desculpou e falou que tinha sido um erro ter impedido minha saída daquela mesa, e antes que ela pudesse terminar de levantar eu disse palavras que saíram por vontade própria “você disse que nunca mais voltaria a me procurar, por que isso agora?”. Ela notavelmente não estava esperando que eu a dirigisse a palavra, então olhou para mim com um olhar curioso e voltou a sentar ao meu lado. E agora quem tinha ficado muda era ela, eu não insisti e voltei minha atenção para taça pela metade em cima da mesa, olhei também o papel amassado e me perdi em lembranças, que eu sinceramente não queria lembrar.  Ela me lembrava bons e maus momentos, foi minha primeira e única mulher, meu primeiro e único amor, depois dela só me interessava o jazz e o vinho no fim da semana, minha casa com seu retrato ao lado da cama. Mas não, eu não podia recair, não outra vez.
      Somente quando minha taça manchada estava vazia que eu escutei outra vez sua voz, parecia envergonhada, parecia que minha pergunta tinha mexido com alguma coisa dentro dela. Ela outra vez voltou a me encarar, e olhando dentro dos meus olhos falou que queria voltar, que sabia que aquele era meu lugar preferido e que por isso tinha vindo essa noite me procurar.
     O ambiente voltou a ter música, agora de algum CD gravado, baladas que deixavam o clima ainda mais constrangedor. De repente, como se já não bastasse, começa a tocar a música, a nossa música. Parecia inacreditável, fiquei perplexa, isso só acontece comigo. Não sabia se era eu ou o álcool fazendo efeito, mas eu não podia mais suportar. Peguei a carteira dentro da bolsa e deixei o dinheiro debaixo da taça vazia, que pouco a pouco foi manchando de vermelho as notas ali debaixo, ela levantou-se comigo e quando eu virei para me despedir ela me abraçou e ao meu ouvido disse: “me permita ao menos uma última dança.”
     O garçom que já era amigo, me vendo ali foi em minha direção e eu achando que ele me ia tirar dessa situação o único que ele me tirou foi a bolsa, a pegou de minhas mãos e me piscou um olho, não tive coragem de dizer não e a abracei como nossa primeira vez, ela deitou sua cabeça no meu ombro e eu deitei a minha no seu. Meu coração batia tão forte que tive medo de que ela pudesse sentir com o contato de nossos corpos. Eu a desejava, mas não queria voltar a amá-la como antes, uma dança a luz fraca com a nossa música não significava que dessa vez seria para sempre, que dessa vez eu não me machucaria.  Como eu a desejava, e eu não podia deixar de desejar, mas não podia, não podia seguir com esse aperto no peito que tanto tempo me custou para superar.
     A música por fim tinha acabado e o que eu achava que tinha chegado ao seu fim, na verdade estava começando, não era culpa dela, que ao acabar o último acorde me soltou deixando-me livre para ir, mas eram meus braços que, ainda que a tivessem soltado, não queriam se separar daquele corpo. Peguei minha bolsa e fui em direção a porta, pegar um táxi para enfim ir para casa, ela como sempre fazia me acompanhou até a saída, foi ela quem chamou o táxi, e ela quem abriu a porta do carro para que eu pudesse entrar, sem nenhuma palavra me sorriu um sorriso que eu senti que era de despedida, eu retribuí o sorriso e fui embora dentro do carro. Pelo retrovisor eu vi que ela continuou ali parada, parecia esperar que o carro deixasse de ser visível para que pudesse então partir.
     Antes que isso acontecesse eu pedi para que o motorista parasse o carro, estacionasse em qualquer canto. Ele obedeceu, e eu sai do carro e de longe lhe sorri, ela veio andando quase correndo e ao chegar em mim ela parou, parou na minha frente sem saber exatamente o que fazer, sem saber exatamente o que eu queria que ela fizesse. Então eu fiz o que meu instinto me mandou fazer, a abracei e a convidei para ir comigo, entrar no táxi e começar outra vez o que a gente ainda não tinha acabado.

9 comentários:

Jordany disse...

Mais um dos maravilhosos contos seu... Amei. Parabéns.

Nicole disse...

AMei esse conto ... rs

PS: e o que aconteceu depois? hahahah

n2

Laura A disse...

o final na minha cabeça é hot hot hot!

otimo conto fowfa xD

suzy disse...

Estou aqui pela primeira vez e gostei muito,muito bom esse conto! Bjs

Luh. DeLarge disse...

Lindo lindo lindo!
Você é brilhante!
Suas histórias com seus detalhes minimalistas são incrívelmente gostosos de se ler!
Parabéns.
:)

Chyntia disse...

sem palavras! concordo com a luh.
otimo texto menina!

Conversa Miúda disse...

Senti como se fosse eu, nesta "Sexta-feira"

Parabens,

Continuarei lendo.

=]

Carla disse...

Nossa, muito lindo. parabéns!

Ação Jovem disse...

seria estupida em dizer que me faço de invisivel ou transparente em seu blog, amei e tem o meu convite:elisawz.blogspot.com
se quiser é claro e boa leitura desde já!

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