01/05/2010

Frágil conhecido

        

       O cigarro queimava sozinho ao meu lado enquanto eu ficava simplismente deitada no sofá, a fumaça que subia ia se dissipando, se misturando com o ar que eu expirava, parecia dança de ator que faz de monólogo musical, em teatro vazio que faz sua música no eco do sapateado no assoalho de madeira, e quando acaba sua força disperça seu corpo no chão para enfim inspirar para encher outra vez de ar o pulmão. Eu estava como figurante da minha própria história porque não acordei disposta a assumir o papel principal, era eu quem fazia companhia para o cigarro que sozinho enchia todo o quarto, fechei as cortinas para que o sol brilhasse sem mim nesse dia de verão.
      A fragilidade daquela fumaça a fazia mais bonita que as próprias nuvens que eu via do outro lado do vidro da janela, cheguei a pensar que era como eu, me vi flutuar e me perder no meio no meu próprio ar, mas talvez eu não quisesse ser aquele fio branco que saia da sujeira ao meu lado, porque daquilo eu só conhecia mesmo era a beleza e a fraqueza que transparecia, e eu, eu era como livro aberto para mim mesma, me conhecia como quem decora as falas do seu filme preferido, como quem já percorreu todos os caminhos escritos na palma da mão.
      A xícara de café já frio impreguinava e completava o vazio do quarto em que eu me perdi no insuportável cheiro de melancolia e nostalgia. Não era domingo, mas parecia. Não era solidão, mas eu estava só. Minha cabeça doía, meus olhos eu não sabia se estavam melhor abertos ou fechados não entendi o que meu corpo pedia, nem mesmo prestei devida atenção se ele estava em coêrencia com o que eu sentia ou se estava ajustado ao latejar do novo dia. Por alguns momentos quando tentava acordar, no meu quase abrir de pálpebra, fui desconexão, não me encaixando em mim mesma me assustei, foi só então que pude levantar.
      Não entendi, nem só por um momento, nem mesmo em lapso repentino de memória ou explicação o real motivo de tal desânimo que me impediu de tragar a fumaça branca e o caldo negro. Teria eu perdido alguma página do livro da minha vida? Me distrai? Me esqueci? Sei que na noite passado fui sujeito e objeto do meu próprio desvendar, em fotos antigas e em cantigas de folclore que eu costumava dançar eu reli a história tantas vezes lida sem ao final conseguir escrever nem mais um parágrafo, nem ao menos falar nenhum outro travessão.
      Parei, abri parênteses. Dei uma pausa na música para escutar o um minuto de silêncio. Então levantei, levantei primeiro que o sol, me vesti antes mesmo de abrir os olhos. Não sacudi a poeira no esticar sonolento dos meus músculos, porque a poeira não estava em mim. Tentei em vão abrir aspas e cantar, mas tampouco tive o que dizer, não me veio à cabeça nenhuma música que resumia a situação. Acho que nem mesmo veio alguma outra música, só o vazio da falta de voz. Caminhei com preguiça pelos corredores dessa casa, procurando achar o meu lugar, sentei em outros sofás, nos cantos e nas beiras. Sentei de um lado e depois do outro na mesa. Deitei no tapete e ainda que na dureza do chão eu senti minhas costas doendo eu me senti confortável. Um confortável incômodo, pelo estranhamento de ter decidido deitar ali.
      Escutei a porta se abrir ao meu lado, eu sabia que era ela voltando de viagem e por isso não movi nenhum milímetro da minha posição para averiguar se realmente era quem eu pensava ser, escutei as rodinhas das malas deslizando pelo chão junto com os passos marcados pelos sapatos que ela rapidamente deixou ao lado da porta, e então a meia contato com o chão gelado fez voltar o silêncio. Escutei a porta se fechando e fechei os olhos como quem evita conversa inevitável, eu simplismente não queria explicar minha súbita vontade de deitar em outro lugar, até porque nem eu mesma entendia.
      Eu esperei de olhos fechados o começo do que seria provávelmente uma curta conversa, esperei mas não escutei nenhuma palavra. Abri os olhos em susto de quem acha que perdeu o que em poucos segundos antes estava exatamente na frente do nariz. Ela, em seu silêncio curioso que respeita o silêncio alheio que já impõe seu respeito, estava deitando ao meu lado, sem pronunciar nem sequer um ruído ela beijou de leve meus lábios e virou seu rosto apontando seus olhos para o teto, como quem diz que eu podia voltar a fazer o que eu fazia antes dela interromper.
       Uma imensa sensação de bem-estar invadiu cada entranha do meu corpo jogado, mesmo sem entender a atitude dela eu voltei para onde eu estava quando a casa ainda significava vazio. Ficamos ali como quem lê um livro, sozinhas e ao mesmo tempo em companhia. Ficamos ali até o corpo falar mais alto que a mente, e ainda que os pensamentos estivessem anestesiando a dor corporal, já não era suportável ver que ao meu lado ela sofria.
       Me virei, olhei para ela. Ao me ver ela sorriu como quem se alegra por enfim poder dar um beijo que a sudade antes tinha privado. E mesmo querendo muito o beijo ela esperou, dentro do abraço, que eu a beijasse. Ao soltar aquele frágil corpo eu a olhei nos olhos e com eles eu sorri, a beijei só quando pude ver nas linhas do seu rosto o quanto ela estava feliz por estar em casa. Levantei devagar e me senti no chão com as costas na parede fria, tinha ficado tanto tempo ali que não fui capaz de sustentar meu corpo em minhas pernas, ela continuou deitada, me acompanhando com o olhar.
       Peguei no bolso a amaçada caixinha de cigarros, peguei um e com meus lábios secos o segurei em minha boca enquento procurava qualquer coisa que pudesse fazer daquele cigarro inanimado uma fogueira. Ela se aproximou olhando fixamente meus olhos, pegou a caixinha amaçada e o que estava em minha boca, quebrou com delicadesa o meu vício diante dos meus olhos, e levantou dizendo que me prepararia um chá. Fiquei estática, surpreendida, e ao me encontrar outra vez sozinha na sala me senti perdida. Levantei e fui atrás dela, ajudar a preparar o café e ainda que em mim faltasse vestígios de fome eu queria sentar na mesa ao seu lado e descansar meu ser olhando o seu ser e o seu estar.
       Como se os olhos fechados conversassem e as bocas se olhasem ficamos caladas enquanto o chá esfriava e o bolo se partia em migalhas. E em migalhas também se desfez o começo do dia, que aos poucos foi diluído pelo sorriso dela que me fez lembrar que eu não estava só, porque ela sabia me ouvir mesmo quando eu não queria falar.

10 comentários:

Nicole disse...

Me encanto com o seu jeito de escrever a cada texto que vc publica. E me encho de orgulho.
Sou apaixonada pelos seus contos.

O começo desse texto me lembrou muito tudo o que aconteceu aqui no Rio. E é lindo o seu jeito de expressar tudo isso.

te amo muito.
n2

Luana disse...

sempre tem momentos nos quais os olhares realmente valem mais do que mil palavras!!!!

adorei!!!! bj

Karol disse...

as vezes o silencio pode ser o melhor remedio. super legal o texto parabens!

Ana Claúdia disse...

Nuuosa quando eu tava lendo me veio a imagem do rio tb. Tive a mesma sensação que ela! Gostei muito do texto. Simples e sincero.

isley lima disse...

nem tenho palavras p descrever seus novos textos como sempre acontece ao ler seus textos me deparo com situações q se encaixam em minha vida nossa estava com saudades do seu blog sempre me surge um sorriso bobo no rosto apos ler seus textos de tão bem q me fazem rsss

Nicole disse...

lindo o texto!

Núbia Moor disse...

Nossa, puts, me emocionei no final do texto!
Você é demais, e as coisas que você escreve são mais ainda! Parabééns!

Conversa Miúda disse...

Realmente impossível não gostar dos teus textos.
Não queria, não mesmo, parecer clichê em meus elogios.
Mas, menina, você é incrível!
Me passou agora, de relance na mente, a tua idade rs.
Enfim, seu blog, seus textos, são apaixonantes.
Salvei em "meus favoritos" e já estou seguindo. rs.

Em relação a este texto em especial, me veio a sensação de viver torridamente, uma situação, que talvez, em tempo fisico-real, não tenha durado mais do que 5 minutos.

Sua escrita é otima, parabéns.

Dayane Pereira disse...

Amei seus textos. Me levam para as minhas próprias histórias vividas ou não.
Já estou seguindo e baixei seu livro que achei digno, muito lindo o design.

Pantanal disse...

elas eram lesbicas?
sabe seu texto é fabuloso, parabésn me encantou muito de dentro para fora.

Postar um comentário