“Você sempre achou que precisava de mais, sem se preocupar em olhar para o lado e ver que talvez já tivesse tudo, que o que viesse depois de tudo isso seria só capricho, vontades de mostrar para os outros que, por pertencer a uma minoria, você era maior, maior que tudo o que um dia alguém achou que você poderia chegar a ser.” Essas foram as últimas palavras que ela disse para mim olhando nos meus olhos antes de bater a porta que ela tinha deixado aberta ao sair. Palavras essas que foram um tapa na cara para mim, eu realmente queria ser maior, mas eu não sabia que tinha feito disso um muro que não me deixasse vê-la do outro lado da cama, do outro lado da mesa onde, em muitas ocasiões neguei velas acesas.
Demorei um pouco para agir, fiquei tão assustada com o seu repentino comportamento que perdi meu senso de realidade, e quando eu resolvi descer as escadas correndo já era tarde, ela não estava mais lá, não sei nem como foi embora, se já tinha premeditado a partida e chamado um táxi ou se estaria ali alguém esperando por ela. Não entendi muito bem, mas a deixei ir. Ela ainda era amor novo, eu gostava dela, mas parecia que ela me amava.
Uma vez na rua eu não senti vontade de voltar para casa, não tinham muitas lembraças nossas naquele apertamento, mas eu sabia que o cheiro do seu perfume ainda impreginava o corredor e a sala de estar. Caminhei pela pequena praça do bairro e de longe vi uma livraria, senti curiosidade de saber qual era a história do livro que aquela menina que tinha acabado de me deixar gostava tanto, ela lia e relia, me comentava trechos, mas nunca chegou a me contar o final. Fui até lá e comprei, entrei ignorando todas as estantes da loja, cheguei no caixa e pedi o livro por nome, autor e editora. E saí com a sacola na mão outra vez ignorando tudo o que ali dentro tinha.
Já era quase noite e eu pensei que com a brisa leve que soprava o perfume doce já teria desaparecido de casa, então fui andando até alcançar o grande portão de metal do prédio, como sempre faço passei direto pelo porteiro comprimentando somente com um movimento de cabeça, mas ele veio atrás de mim, falando que a menina que antes havia descido tinha passado outra vez por ali perguntando por mim, e como eu não estava ela tinha deixado um papel rasgado com alguns rabiscos escritos. De princípio tive medo de abrir, mas quando entrei, quando cheguei na sala, percebi que o vento o único que tinha feito tinha sido espalhar aquele cheiro. Sentei na rede na pequena varanda dos fundos e abri o bilhete e o livro. Comecei pelo papel rasgado que com letras borradas de caneta que falha e lágrima que cai dizia que ela estava realmente indo para tentar nunca mais voltar, que tinha deixado ali junto comigo todo seu coração e que sem mim aprenderia a viver sem ele. Abri o livro em qualquer página e ali dentro repousei o bilhete, seu amor seria meu marca página. Voltei a fechar aquelas finas e leves folhas e peguei o celular que estava no meu bolso. Disquei seu número e permaneci com o telefone no ouvido até cair na caixa postal, de alguma forma sabia que ela estava lá do outro lado, simplismente não queria ouvir minha voz, sabia como eu que eu não tinha nada a dizer.
Já sentia saudade, confesso. Talvez a falta da presença dela ali que me era estranho, era de um raro silêncio tudo aquilo, porque quando estava ela, era música cantada, tocada e dançada, e quando o silêncio pairava sobre nós ela ria, gargalhava, falava que o silêncio é somente habitat para os tristes, para os que não sabiam realmente enxergar a beleza de cada pequeno detalhe do que nos rodeia. Ela ria de mim quando eu dizia que as pessoas tinham medo do silêncio, que ele por ser um vazio imcomodava os que não eram completos. O silêncio era a nossa mais profunda discordância, era discusão interminável sem brigas, só pensamentos ao vento, uma ignorando e amando o ponto de vista da outra sem nunca ninguém mudar de lado.
Confesso também que pensei em outra vez discar os números, mas resolvi não insistir. A brisa tinha se transformado em vento que fazia o livro ao meu lado abrir sozinho, pedindo para ser lido. Peguei meus trapos pendurados no varal, o livro e minha solidão e levei tudo para dentro de casa, fechei as portas e janelas. A muito eu já morava sozinha, mas somente agora eu me sentia como tal, tive preguiça de cozinhar somente para mim, ignorei o dvd alugado que estava em cima da mesa, exatamente pelo motivo de não ter com quem dividir a pipoca, não ter com quem compartilhar o copo gigante de refrigerante. Deitei na cama, simplismente como sempre faço, olhando o teto como quem olha o céu, me perdi na brancura da tinta da parede e me assustei quando escutei uma música vindo não sei de onde. Levantei e olhei para os quatro cantos do meu quarto e percebi que a música vinha do meu bolso, eu não conhecia a melodia e quando vi a luz acesa do telefone celular pensei “ela, outra vez, trocou o toque. Já era de se imaginar.” Era sua música quebrando meu silêncio. Eu tinha demorado tanto para encontrar a origem do som que atendi antes que desligassem.
Escutei sua voz do outro lado, nada mais que um simples “oi”, eu permaneci calada e ela ausente. Depois de um longo nada, eu disse “volta?” e ela me respondeu “não sei se posso”, outra vez um nada, dessa vez foi ela quem começou a falar no espaço vazio de nossas vozes “muda?” e eu respondi “não sei se consigo”. Ela falou “me conta como foi seu dia, para que talvez eu sonhe com você essa noite”. Repondi “Comprei o livro que você gosta, ainda não comecei a ler porque, por primeira vez, tive medo do silêncio.”. Ela “você não percebe? Você foi hoje tudo o que eu queria que você tivesse sido durante todo esse tempo que estivemos juntas. Você comprou o livro que eu gosto mesmo não gostando de ler, você assumiu seu medo, e aposto (risos irônicos) que você nem se importou com a música brega tocando no seu celular.”. Eu “é verdade, eu não me importei. Mas fico feliz de saber que você também a considera brega (eu ri, sem a opção de me controlar)”. Voltei a dizer “volta?” e complementei a frase dizendo “volta que o silêncio já me enguliu e eu ainda tenho todo um livro para ler, enquanto eu descubro a história que te faz tão feliz eu prometo fazer você feliz sem que você precise ler nenhuma palavra do meu livro que agora coloco sobre minha cabeceira.” Ela respondeu “talvez amanhã, outro dia.”
Eu sabia que ela não voltaria, senti em suas palavras que ela já tinha se conformado e percebi em minhas palavras que eu ainda não tinha me adaptado a dividir minha vida com alguém, embora eu sabia que estava disposta a tentar com ela. Foi tudo uma questão de desencontro, ela deixou de me amar quando eu comecei a amá-la. Ela foi embora, eu sei, antes que não sobrasse nada de mim dentro dela, sabia que ela queria quardar o melhor de mim antes que eu não fosse mais capaz de dar o melhor para ela. E ela deixou comigo o meu amor por ela, o amor dela e uma tal música brega que eu não tive coragem de mudar.



17 comentários:
Adorei o texto! rs =D
ainda mais a conversação no telefone ... rs
n2
Juro como qualquer dia desses você me faz chorar. x_x rs
Por favor, junte todos esses textos, mais os que virão e faça um lindo livro. *-*
Fã. õ/
Beeijo, sucesso. ;*
Você me fez chorar X_X
Estou passanado por 99% do que você escreveu*-*
Gosto de todos os seus textos mais dessa vez achei meu texto predileto rsrs
Obrigado, por deixar 'minha' dor mais leve e bonita =)
( Carina )
é incrível como algumas pessoas simplesmente carregam consigo o dom...
e conseguem fazer com que simples palavras façam com que os outros vivam e revivam sentimentos que levaram uma vida inteira pra perceber.
Simplesmente fantástico! É bem o que eu passei... Ela deixou de me amar quando comecei a amá-la... Infelizmente, um desencontro sempre doloroso. Amei seu texto, delicado, profundo, simples e complexo ao mesmo tempo. Soube falar tão bem desse momento. Te dou os parabéns! Sou louca por contos mas não tenho muita habilidade com eles, sou mais de escrever romances rs. Por isso vivo de admirar quem sabe escrever essas pequenas histórias que valem mais do que muito livro imenso por aí. Está de parabéns viu? Não pare nunca de escrever que eu prometo não parar nunca de ler! rs Beijão! E publique, hein? Te desejo sucesso com teus textos!
Nossa, comecei a ler seus textos e não parei mais de chorar, ai só me restou parar de ler, inundei todos os meus livros. Seus textos são incríveis, de uma sensibilidade quase inatingível. Parabéns, mesmo!
Só você para me fazer chorar,com seus textos de uma realidade apaixonante,sensibilizante.
Parabéns !
Acabei de conhecer seus textos e achei algo de outro mundo, vc passa exatamente o que acontece com a maioria. Muito bom!
otima historia
otima escrita
otimo blog
otimo tudo!
amei absolutamente .. parabéns pelo blog ! parabéns mesmo ! :)
Esse conto é a realidade de muitas pessoas.No meu caso foi o contrário " ela passou a me amar quando eu deixei de ama-la.
BjãoOo
Eu descobri o seu blog hj, já deve ter visto comentários meus nos outros posts.
Este em particular, me arrancou lágrimas. Coisa estranha, nunca tinha sentido isso ao ler um conto. Mas, enfim, chorei.
Pegar um sentimento, e transpor em palavras, é o seu dom, com absoluta certeza menina!
Bom, aceite mais uma fãn.
E, como toda fãn é ousada, me dá a chance de trocar uma idéia contigo rsrs!
Tb gosto de "rabiscar" umas coisinhas por ai. Nada, comparado a você rsrs!
Grande beijo!
Lágrimas percorreram meu rosto involuntariamente à ultima parte do texto.
Parabéns, você sabe mesmo comover alguém apenas escrevendo.
Simplismente amo seus textos.
Noossa Girl se me fez chorar, mais uma vez né' rsrsrs
Carã eu to viciada no teu Blog, e tipo já é segrado vir aqui e leer, nossa eu choror tooda vez'
e tipo tu escreve simplesmente de forma perfeita, objetiva, tensa, delicada, direta, nossa é lindo demais na verdade é bom demais vir aqui ler.
Olha sério mesmo, eu vou te agradecer por colocar essas coisas lindas a nossa disposição'
é Lindo seu Blog, é Lindo oque você escreve e aposto tudo oque me é mais sagrado que você é Linda'
Beijos e sucesso Girl'
:*
cara q maneira vc é 10
Helen Coimbra
Esse é a partir de hoje o meu txt preferido...
so eu sei o sofrimento q foi ´p mim sentir essas letras....
resumindo...LINDO
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