
A ansiedade para que chegue o outono, inconscientemente fez com que eu saísse de casa em busca de algum vestígio de fragrância de rosas, uma necessidade desconhecia por mim começou a forçar passeios diários na areia que beijava o mar e acolchoava meus pés descalços. Eu que nunca tinha me interessado o suficiente pelas praias da cidade maravilhosa agora não sou capaz de fazer sobreviver o meu dia sem ao menos, por alguns segundos, sujar minhas pernas até o joelho de areia e sal, de sentir no meu rosto de olhos fechados a brisa leve e fria que aparece no escurecer ainda claro do meu cotidiano.
Por muito tempo venho aprendendo a viver sozinha em um apartamento de dois quartos e uma cama de casal no quarto principal, a paisagem que sempre sonhei em ter na janela era para mim muitas vezes imensidão e vazio, essa praia em seu constante movimento não era mais entretenimento para minha pausa para o café. Nem mesmo a vida alheia na calçada que descansa no ponto de ônibus, ou se apressa para atravessar a rua me parecia interessante de admirar. Por muito tempo venho vivendo sozinha, mas ainda estou tentando lidar com o silêncio da minha boca e os gritos e estardalhaços que nascem dos meus pensamentos.
As folhas que aos poucos vão enfeitando as ruas da cidade me convidam a caminhar e flutuar com o vento junto com elas. O calor começa a deixar de incomodar, permitindo que eu abandone a paisagem e o café para talvez sentar no ponto de ônibus sem querer ir a nenhum lugar, permitindo que eu comparta minha solidão com o imenso mar. Esse outono que começa a se fazer notar vai me ajudar a entender se eu somar minha solidão a solidão de outro ser, será assim então uma grande solidão ou a ausência dela.
Eu que nunca apresentei disposição para nada que não fora meus sonhos, começo a sentir incômodo por ter realizado todos eles e não ser de todo completa e satisfeita. Lembranças que eu nem mesmo lembrava começam a me aparecer nas madrugadas que eu jogada no sofá tirava da televisão somente a luz fraca de algum filme em preto e branco, com o volume no mínimo eu dava as costas para a tela e adormecia com a dança das sombras no tapete; lembranças de quando eu, por cegueira profissional, abandonei minha primeira menina chorando no aeroporto e me esqueci de responder suas tantas cartas; lembrei-me de quando voltei e deixei minha primeira mulher.
A idade registrada no documento de identificação que venho ignorando parece controlar algumas batidas do meu coração que às vezes aperta mais que o necessário, tentando espremer dores antigas que nem eu mesma sabia que tinha. Sempre acreditei que as crianças são o futuro da minha geração e que provavelmente uma delas vai superar com muita facilidade todos os meus êxitos que demorei toda uma vida para conseguir, mas sinceramente nunca quis ter uma delas próximo demais do meu fraco corpo que, tenho certeza, não seria capaz de suportar os olhos miúdos olhando diretamente nos meus para logo soltar um belo sorriso e voltar para sua atividade. Entretanto ontem me surpreendi quando senti lágrimas silenciosas quase imperceptíveis escorrendo no meu rosto enquanto eu olhava o grotesco abarrotado de janelas do prédio, minha vista privilegiada da cobertura me permitia ver todas as intimidades, mas durante um bom tempo me vi perdida dentro de um quarto de paredes rosas que a janela aberta me permitia ver o sono de uma pequena menina que às vezes se encolhia com a brisa fria que entrava balançando as leves cortinas.
Já fui chamada de muitas coisas durante minha vida, mas nessa madrugada, no meu encontro com o filme em preto em branco que eu não tenho nem idéia de como acaba, eu indaguei a sensação de ser chamada de mãe, e sem que eu pudesse controlar eu sorri.
Durante a última estação eu posso dizer que em termos de estímulos intelectuais eu estive muito bem servida, e como artista fui capaz de criar a que eu considero minha melhor obra. Durante a hora perdida do fim do horário de verão vi meus óculos tortos na escrivaninha em cima de um livro consumido ainda pela metade, e percebi que muita coisa tinha acontecido, porém nem tudo tinha realmente mudado então eu decidi mudar. A começar por arrumar a casa, preparar tudo para a chegada de um novo eu. O outono iria me servir de desculpa para começar alguma coisa que eu ainda não tinha certeza do que era.
De acordo com meu novo costume eu saí pela manhã a caminhar na areia quase deserta. Depois de algum tempo andando sentei para descansar meu corpo desacostumado ao exercício, sentei na areia sem medo de sujar minha calça branca limpa. Fazia tempo que eu não reparava a beleza da mulher carioca, e durante um bom tempo fiquei ali parada, olhando os rostos cansados e felizes das mulheres que passavam correndo um correr leve e devagar deixando pegadas por onde pisavam para que em pouco tempo a água roubasse essas digitais. Deitei e olhei para as nuvens que pareciam resistir fortemente a tentativa de entrada do sol, e sinceramente era melhor assim, ajustado à minha concepção de dia perfeito o cinza fazia parte do céu.
Gastei metade do meu dia na praia, levantei quando o vazio do horizonte foi substituído pela presença humana massiva. Fui caminhando até em casa e quando estive a ponto de entrar prédio adentro, hesitei; dei dois passos para trás e lá de baixo olhei para cima procurando achar minha janela, tentei imaginar qual seria minha imagem lá em cima olhando para baixo, olhando para onde eu estou agora. Foi como um mini encontro comigo mesma, na verdade era um encontro com o que eu costumava ser antes das folhas começarem a cair. Subi sem pressa as escadas tentando evitar o constrangimento do encontro com visinhos no elevador. Entrei em casa e fui direto preparar um banho de água morna, enquanto a água enchia a banheira eu abria minhas gavetas à procura de alguma roupa que me fizesse sentir bem, e acabei por escolher meu jeans desbotado e uma camisa branca manchada de respingos de tintas de canetas.
Entrei na água deixando meu corpo descansar, da janela do banheiro eu via a chuva que começava a cair, os vidros e espelhos foram embaçando e meu corpo enrugando com o passar do tempo, mas eu não tinha pressa. A música que tocava no radinho a pilha era calma e agradável, por alguns minutos estive em um estado de espírito, por muitos, invejado. Quando por fim a água se fez gelada eu sai pingando pela casa, me sequei no quarto onde eu antes tinha deixado as roupas dobradas em cima da cama arrumada. Depois de vestida fui abrindo as gavetas e revirando papéis, jogando fora o que para mim já não me servia. Troquei a sala de lugar, e a televisão a cabo eu mandei desligar. Parei alguns momentos para contemplar fotos de amores antigos, algumas eu rasguei e joguei fora, outras eu senti que ainda doía alguma coisa dentro do peito só de pensar em perder aquela imagem, aquela lembrança. Arrumando meu recanto eu ri e chorei com o que eu encontrei nas caixas debaixo da cama, no fundo dos armários, encontrei minhas futilidades em objetos sem utilidades, encontrei fraquezas e forças que existiam em mim nos títulos dos livros que tirei da estante para tirar o pó. Quando acabei a lua já estava lá emitindo a única luz natural que se podia ver, e tudo o que eu queria era deitar no sofá e inaugurar algum filme colorido, mas antes eu precisava de um filme e de alguém que o visse comigo.
Liguei para um antigo amigo que fazia muito que eu não o via, e ainda que ele não pudesse vir eu fiquei feliz ter escutado sua voz do outro lado, falou que já tinha marcado de sair, ir ao teatro. Eu até podia ter ido ao teatro também, mas eu preferi o meu sofá e deixei a poltrona para outra ocasião. No final o que restou fui eu, a pipoca e o guaraná como grandes amigos de sofá, eu ali como nunca antes, prestando atenção na estória do filme ignorando suas luzes fracas e suas sombras no tapete. Depois da última cena no filme olhei cansada com os olhos quase fechados devido ao peso do sono, a casa que brilhava um ar diferente, um brilho que nos meus anos de melancolia talvez não fossem bem-vindos. O relógio que apontava outra vez o início de outro dia me fez querer ir correndo para a cama e dormir o sono descanso que meu corpo pedia, mas por impulso inconsciente da rotina ainda existente, andei até a cozinha e preparei meu café, e depois de pronto fui até a janela dos fundos, observar o despertar da menina do quarto de paredes rosas. Parecia anjo, parecia paz, ela era o resumo do que nós adultos, sem saber que já fomos, aspiramos ser. Quando o acordar daquela menina apareceu diante dos meus olhos eu pude então ir dormir.
Fui dormir satisfeita com o meu dia, ri sozinha antes de fechar os olhos e esquecer do mundo, senti que alguma coisa realmente estava para mudar, e mesmo sem saber se eu acordaria com a mesma sensação, eu fui feliz.


4 comentários:
um conto símples mas profundo!
adoro o jeito que você escreve. deveria tentar fazer um livro (:
TENTA FAZER UM LIVRO!
te amo muito linda
vc escreve como ninguem...!
=D
n2
Nanne, já falei que vc arrasa né?
saudade minha linda! :)
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