
Sentada no sofá, a figura da jovem adulta, parecia um mixto de alegria e ansiedade. Estava sozinha, mas pelo seu sorriso bobo, meio torto no canto da boca que vinha dos seus pensamentos mais internos, inalcansáveis para os que a olhavam, mas não a conheciam; ela deixava claro que de solidão ela não entendia. Esperava o relógio marcar a hora da chegada, deitou e sentou inúmeras vezes no mesmo lugar do sofá, às vezes levantava, andava pela casa procurando algo para fazer, e tudo o que encontrava era outra vez seu amassado edredon e a almofada em perfeita desordem, exatamente como a desordem de sua mente e coração.
As horas foram passando como interminável imensidão de vazio, foram passando com a mesma sistemática velocidade de sempre, mas para ela parecia já haver passado uma eternidade. E em um desses descansos no sofá ela fechou os olhos para imaginar o que viria depois, mas o imaginar foi insuficiente e ela então dormiu. Dormiu um sono leve, tranquilo, nem parecia ser a mesma mulher que minutos antes revirava a casa como quem procura sua própria sombra quando o sol nos aparece justamente em frente, e nos faz cegar. Ela dormia tão simples e inocente que parecia que o vento tímido que entrava pelas brechas da janela meio aberta a fosse despertar como beijo de boa noite dado em quem já dorme, e este acorda só para retribuir o carinho.
A esperada mulher chegou bem mais tarde que o planejado, e sabendo disso abriu a porta com delicadeza, como quem procura não acordar a uma criança. Colocou a bolsa em cima da mesa e quando ia em direção ao quarto viu sua namorada deitada no sofá, a coberta jogada no chão e um copo de água derramado no tapete, que provavelmente deitou-se no chão como consequência da queda inesperada do edredon. Se aproximou do encolhido corpo adormecido tirando, em silêncio, do caminho tudo o que achava fora de seu lugar, sentou no tapete húmido e parou seu rosto exatamente onde estava o rosto de sua amada, ficou ali por alguns minutos, e sem reparar que aquele sono a hipnotizava ela desejou ficar ali até o amanhecer, esperar que se despertasse sozinha, com o brilho fraco do sol que fazia de seus olhos cansados e sonolentos ainda mais bonitos. Com os dedos calmos tirou o cabelo que caia sobre seu rosto, a acariciou e ao ver que os olhos deitados abriam devagar, abriam sem querer acordar, ela a chamou para deitar, ir para cama. Convite recusado com convite para deitar ali mesmo no sofá.
A atrasada mulher aceitou, mas antes levantou para apagar as luzes, tirar o sapato e a jaqueta suja de mais um dia de trabalho. Em seu corpo cansado sobrou somente a camisa larga que não se importou em amarrotar dormindo com seu amor no sofá, caminhou lentamente para mais uma vez não despertar o sono que outra vez tomou a sala e alguns olhos fechou, parou ao lado da porta, deu uma última olhada na sala para depois apagar a luz, e quando encostou as mãos no interruptor, viu uma carta de envelope rasgado em cima da mesinha de centro, pegou a carta e voltou mais uma vez para a porta, sentou no chão gelado debaixo do interruptor e abriu a carta com destinatário dublo, nome sem abreviatura de duas mulheres que agora estavam no mesmo lugar de luzes fracas. Ela abriu o papel amassado que estava dentro, o que indicava que já havia sido lido antes, e pelo peso do amassado se notava que já se havia lido muitas vezes. Sentiu medo, hesitou ao tirar o papel de dentro do envelope, mas sua curiosidade bateu mais forte e quando menos pôde notar, ela já estava lendo a primeira frase.
Nada mais que uma introdução, uma apresentação de uma entidade do governo. Derramou lágrimas que a situação e a hora obrigaram a serem silenciosas, ainda que se escutara um leve soluço rouco, derramou lágrimas a cada novo parágrafo que terminava, e ao terminar as duas folhas pregadas ela levantou cambaleante e apagou a luz. Caminhou até o largo sofá, pegou a coberta no chão e enquanto deitava no espaço que sobrava para ela, ela foi se cobrindo e cobrindo o anjo adormecido ao seu lado.
Outra vez os olhos sonolentos se abriram pela metade, e o corpo dormido se mexeu para dar lugar a outro corpo que vinha dormir.
Secando as lágrimas que ainda caiam ela aproveita o semi despertar de sua amada para perguntar baixinho, ao pé do ouvido enquanto a abraçava: “quando vai ser a visita da assistente social?”. E uma voz que com certeza não vinha de um corpo acordado, mais bem sonâmbulo respondeu: “Espero que essas suas lágrimas sejam de alegria, porque amanhã nos vão trazer nossa menina”. Agora as lágrimas que estavam começando a cessar, quebram as regras do escuro e chora alto, como criança, como quem ganha. Recebeu um abraço apertado, escondeu seu rosto nos cabelos da outra, apoiando a cabeça no ombro, escutou que o rosto ao lado que sustentava o seu também chorava, chorava devagar para que não notasse ninguém, para que ela pudesse chorar em paz.
Não foi necessário dizer-se palavras para que uma entendesse o soluço da outra, não foi preciso cantar o galo, dispertar o relógio, porque as duas estavam bem acordadas. O escuro engolia seus corpos, mas não abafava seus choros. E ainda que não tivesse ninguém ali com elas, o puro silêncio da casa já era um sinal de respeito e de admiração, era quase o mundo parando para assistir a felicidade se fazendo realidade. Era espetáculo feliz que comove como um drama os que assistem perplexos o desfecho da história.
O sol fraco de fim de madrugada as fez levantar para o banho, e juntas lavaram os corpos e as almas, lavaram os rostos manchados de lágrimas secas que com certeza voltariam a cair.
Pela manhã a campainha toca e uma delas se levanta para abrir, e no colo de uma moça de crachá uma pequena menina fita seus olhos molhados e pergunta em um português ainda por aprender: “você está chorando porque você está feliz?”.


4 comentários:
ai criança eh um bicho muito fofo!
super quero um desses pra mim! =D
n2
Um diaaaa terei uma beeeem linda *-*, ja que minha mae se recusa a ter outra -.-'
AIOEUIOAEUIOAEUOIUAEIOAUEU
adoreii o texto!
beijos
aaah adoreeei *-*
no começo eu pensei que seria alguma carta de separação, ou coisa do tipo, e me surpriendi com o que a carta dizia
muito boom!
beijos ;@
nossa.. o dia uqe isso acontecer na minha vida.. sera O DIA!
meu sonho
bjuxs belo texto
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