15/03/2010

Não



Um truque do destino ela começou a chamar a vida, ou melhor, começou a pensar que seria a vida uma tremenda armadilha. Ela, logo ela que pensava ter se comportado tão bem durante sua até então vida. Passou muitas horas trancada no próprio quarto, como quem se esconde do mundo, da vida. Mesmo vivendo só, mesmo não tendo em casa uma ameaça de resposta ou indagação, ela se trancou no quarto, simplesmente como fazia em seus dias de escola, quando chegava em casa e chorava a dor que ninguém suspeitava e ninguém podia um dia chegar a entender. Essas lágrimas voltaram agora, depois de tantos anos de sorrisos - alguns fingidos para simplismente encaixar com a situação, para caber dentro do espaço que ela não queria (mas precisava) entrar.


Visivelmente estava em estado de completa inércia calma e estática, como corpo que descansa boiando em ondas leves de algum mar, em alguma praia virgem; parecia ser primeira vez que descobria essas areias. Dentro da carne, do orgânico do corpo, era muinho de vento se transformando em fúria que destrói o que já existe para que depois se decida fazer-se fantasma ou reconstruir estruturas em cima dos escombros. Ela era agora incoêrencia, era um equilibrio inestável. Quando seus pais se separaram percebeu que deles ela só tinha herdado os medos, e em um estopim entendeu sua falta de ar. Dentro da mistura de exatidão e euforia, de tensão e melancolia, ela estava vendo no reflexo das suas próprias gotas de lágrimas derramadas no lençol, que ela não passava do reflexo do medo de outros que ela achava que já não faziam parte da sua vida.


Como era estranho olhar para ela e vê-la tão bem e ao mesmo tempo sentir em seu abraço um pedido de socorro. Ela chorava agora o medo que nunca tinha sido capaz de assumir, a solidão era realmente aterradora, e eu que nunca tinha sido só compartia com ela esse medo toda vez que ela olhava dentro dos olhos um olhar caindo, tentando alcançar o chão. Como era estranho vê-la desmoronar onde antes ela era tão sólida. Pouco tempo passou entre perfeição e o escuro que cega, que impede andar.


A um bom tempo atrás meus labios encontraram os dela, e a partir desse momento estava claro que meu coração começara a bater de forma distinta, e ela dizia o mesmo. Nossas vidas mudaram para que uma pudesse se adaptar a outra, e de formas desiguais o que resultou foi a união perfeita de dois corpos e o compasso de dois corações que juntos marcavam o rítimo do que chamam de amor, o que eu e ela estávamos descobrindo juntas pouco - a - pouco. Mas se tudo era tão perfeito, por que desabou?


Ela está agora no negro do seu próprio medo, e fui eu quem causou essa dor. Antes ela via claro, ainda que cinza, os dias e a vida, e eu com um simples “não” fiz de seus olhos meros objetos cegos que enfeitavam seu rosto, olhos azuis que via em preto e branco o que eu estava vendo em colorido. Ela está sozinha e eu já sinto saudade, mas receio que não me queira mais me ver, não por agora. Acho que o seu medo era tudo o que ela queria e precisava agora, ficar sozinha.


Ela com sorriso inocente de criança que descobre a solução do imaginário problema, veio perguntar para mim se eu queria ir para casa dela e junto comigo levar meus trapos e histórias metidas nas malas, que ela já tinha separado as gavetas e com caneta marcado minhas iniciais nos lugares que me correspondiam. E eu querendo aceitar disse não, palavra que saiu sem pensar, saiu por impulso, estímulo involuntário que sacrifica meu bem estar, eu disse sem querer dizer, e não pude voltar atrás, até agora não, eu não pude voltar.


Eu estive esperando toda a noite por um sinal, eu queria dar meu ombro, mas ela queria um abraço vazio que eu não tinha para oferecer, ela queria que o buraco negro a engolisse e eu queria fechar os olhos e no escuro beijá-la. Eu quis me desculpar, me redimir, trocar a resposta, mas ela não quis me ouvir. Ainda é cedo para entender o que tudo isso representa para mim, mas um dia quero saber o porquê, entender o que aconteceu dentro do eu interior, que quando vi que a perdia senti que a amava. Eu já sabia que a amava, mas ainda não via claro o que era esse sentimento. Eu já imaginava que seria para sempre, mas agora tenho total certeza de que se não for com ela, não será com ninguém mais.


Eu dentro de uma confusão inesplicável, tentei achar respostas, tentei ignorar para depois cair dentro do meu próprio erro. Sabia que o sozinho não era meu lugar, então por que será que dei a resposta equivocada se eu sabia a resposta certa? Talvez tivesse vindo essas três letras de algum sublugar, que a consciência não pôde ver e eu não pude controlar. Escapou... e alguma coisa dentro de mim estava escapando, foi com ela se esconder dentro das quadro paredes que velam seu sono, e que muitas vezes também chegou a ser meu lar, mas não hoje.


Para resolver a situação o único que me veio à cabeça foi assaltar o potinho de maionese debaixo da pia da cozinha, peguei dinheiro emprestado comigo mesma para alugar um carro familiar. O senhor, enquanto me entregava as chaves do carro, me disse que não entendia como uma pessoa tão jovem como eu tinha toda uma família para levar para passear, e eu lhe respondi que a família ainda não era grande, o que era realmente grande era a minha vontade de formar uma, e o único que me ajudaria era um espaçoso carro. Ele sorriu um sorriso de quem segue sem entender, mas prefere não alimentar a conversa e eu sorri como quem entende tudo e não faz questão de se explicar.


Estacionei o carro debaixo da janela dela, entrei na casa com a cópia da chave que ela já tinha me dado, e ao me ver abrindo devagar a porta do seu quarto me lançou um olhar de arrependimento de um dia ter feito isso e voltou a deitar. Eu não estava esperando muito mais do que isso. Caminhei até sua cama e deitei meu corpo ao seu lado, a abracei como sempre fazia nas noites que passamos juntas naquele quarto. Ela permaneceu parada, tentando ignorar minha presença, mas eu sentia sua respiração aumentar, e as lágrimas molhavam minhas mãos que tentavam alcançar seu rosto. Ela não queria falar nada e eu não a ia forçar. Falei nos seus ouvidos "tenho um presente para você" e na sua frente deixei cair as chaves da minha casa, e ela virou para mim, chateada e me respondeu "eu já tenho a chave da sua casa". “Eu sei minha princesa, mas na verdade eu quero que você me ajude a levar algumas coisas para lá... o carro está lá embaixo esperando que você entre com suas histórias e trapos e vá para casa comigo. Eu entendi que o não que eu respondi, foi desespero da minha alma pedindo para eu não ir com você, mas sim que você viesse comigo”. "Você tem dois quartos e a gente só precisa de um como aqui". “Eu acho que a gente já pode começar a pensar em...” E sem que eu pudesse terminar a frase ela me beijou um beijo molhado de mistura de felicidade e lágrimas, e sem precisar de resposta entendi que a família começava a se formar.

9 comentários:

Anônimo disse...

Que bonitinho esse texto =D

Eu sempre assalto o meu potinho de maionese para te ver =x
hahaha

n2

Desirée Lourenço disse...

Ahhhhhh, que lindo!!
Me apaixonei pelo texto agora!!

Lisa disse...

Me apaixonei pelo texto (2)

Karol Clark disse...

Achei divino demais moça!

Karol Clark disse...

Achei divino demais moça!

Anônimo disse...

ouns , muito lindo

Anônimo disse...

quee perfeiçãão!
pra mim, o melhor *0*

Anônimo disse...

perfeito!!!!!!!!

lekinha disse...

Lindo msm *-*

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