21/03/2010

Adeus



Ela veio aqui hoje, sentou do meu lado no sofá beijou meu rosto e permaneceu em silêncio, veio como quem queria só sentir minha pele e nem por um minuto pretendia ouvir minha voz ou pronuniar a sua. Deitou no meu colo sem pedir, e eu por força do costume acariciei seu longos cabelos ruivos, eu escondia meu dedos nos cabelos despentiados como quem não quer mais nada na vida, me faltavam sentimentos mas sem saber o por quê eu segui ali durante toda a tarde, em silêncio, em carinho.
Já faziam 3 anos que a gente estava morando juntas numa casinha pequena onde eu e ela nos encaixavámos perfeitamente, parecia ter sido feita à medida, assim como eu parecia ter sido feita de acordo com as preferências dela e ela de acordo com as minhas. Nossos trabalhos consumiam todos os nossos dias, mas pela noite a cama era refúgio, era encontro e perdição. E nos finais de semana nossa casa no meio da cidade era para nós casinha de campo, fazíamos chá com biscoitos, abríamos o livro de receita antigo e tentávamos cozinhar alguma coisa exótica que acaba com muitas fotos e risadas das caretas de desaprovação culinária. A gente tinha se afastado do mundo tanto quanto ele tinha se afastado de nós e sem precisar de muito mais a gente era feliz sozinhas.
Todos os dias de todo esse tempo que estivemos juntas os vãos, as sobras e as penumbras de portas entre abertas eram apenas detalhes, quando eu tinha medo ela me sorria com seus olhos azuis, e fazia de seus braços abrigo para minha alma. Ela sabia dos meus medos, ela conhecia minhas fraquesas, e eu tinha decorado seus traços, contado suas pintas. Ela era o único pedaço de mim que um dia eu cheguei a entender, talvez tenha sido a única parte de mim que eu quis conhecer. Durante todo esse tempo me fiz vazia para deixá-la entrar dentro de mim, me entreguei, me desfiz de mim para ser somente dela. Mas desvaneceu, desbotou.
Já fazem dois meses que essa casa já não representa mais um lar, ela não quer mais ficar e eu não quero mais seguir. Ela me diz que precisa de ar, e eu a digo que preciso do mar. Não sei ao certo quando tudo realmente começou, não sei o motivo banal que deu origem a situação que hoje nos encontramos, parecia estar acabando. Não foi briga, foi cansaço. Os abraços que guardavam meu sono foram se transformando aos poucos em anjo da quarda que me da as costas no escuro. Eu ainda a achava linda, ainda a desejava, ainda a amava, mas ela foi saindo do espaço que eu deixei para ela, e em consequência fui me preenchendo de mim. Eu sentia que ela ainda me queria, ainda me amava, mas não conseguia mais sustentar suas próprias bases para poder sustentar as minhas.
Há dois dias tudo explodiu em lágrimas, e então ela fugiu. Saiu de casa, falou que não voltaria para jantar. Arrumou uma mochila e falou que com o resto eu podia ficar. Ao sair trancou a porta do lado de fora como quem me tranca com nossas lembranças, eu sabia que ela tentava, mas não podia esquecer, e eu simplismente não tentava. Passei a noite em claro em plena escuridão de falta de lua. Pensei se ela voltaria, pensei no beijo que não dei de despedida, indaguei se sobraria em mim um pouquinho dela e se nela sobraria um pouquinho de mim. Eu sem ela era simples corpo sem sombra, seria preciso uma reconstrução de uma estrutura que não desmoronou, mas perdeu suas bases e suas vigas de sustentação.
Ontem o dia foi vazio, parecia não existir, ou seria eu que não estivera existindo enquando as horas passavam em imensa solidão por muito tempo não provada por mim? Outra noite passou em pleno escuro amedrontador, a ainda que tivesse medo não ousei acender a luz porque meu medo maior era não encontra-la na sala clara.
E quando o sol esteve a ponto de sair, de aparecer na minha janela eu escutei a chave revirando a fechadura, ela sentira pena? Vinha para libertar meu corpo das lembranças? Eu, sentada no sofá acompanhei com o olhar seus movimentos que silenciosos se aproximavam de mim. Não senti nem alegria, nem raiva, nem tristeza; eu esparava o final, não estava confusa, mas procurava entender o que a tinha feito voltar e se ela voltaria a ir.
Sentou do meu lado no sofá beijou meu rosto e permaneceu em silêncio, veio como quem queria só sentir minha pele e nem por um minuto pretendia ouvir minha voz ou pronuniar a sua. Deitou no meu colo sem pedir, e eu por força do costume acariciei seu longos cabelos ruivos, eu escondia meu dedos nos cabelos despentiados como quem não quer mais nada na vida, me faltavam sentimentos mas sem saber o por quê eu segui ali durante toda a tarde, em silêncio, em carinho. Quando a madrugada começava a cair, meus olhos (sentindo sua presença no meu colo) se sentiam preparados para outra vez fechar em sono profundo, em descanso. Um ruído que se manisfestava dentro de mim, saiu por minha boca em forma de palavras tantas vezes pronunciadas quebrando o fino vidro do silêncio. Minhas palavras pareceram gritos, ainda que estivessem saído em forma de sussurro.
Estive muito tempo olhando para o nada, às vezes para nosso reflexo na TV desligada, mas quando senti minhas palavras vindo a olhei nos olhos, pela primeira vez depois das lágrimas eu vi seus olhos inchados, isso fez inchar os meus. A olhei nos ollhos esperando que ela olhasse nos meus, e quando outra vez nos encontramos eu encontrei o mar nas suas lágrimas e ela respirou seu ar. Acariciei seu rosto e perguntei: “vamos deitar?”.
Eu não consegui dormir mais uma noite e talvez nem ela, mas a gente fingiu que os olhos descansavam enquanto nossos corpos se entendiam em nosso preferido abraço de fim de dia.

10 comentários:

Nicole disse...

"quando eu tinha medo ela me sorria com seus olhos azuis, e fazia de seus braços abrigo para minha alma. Ela sabia dos meus medos, ela conhecia minhas fraquesas, e eu tinha decorado seus traços, contado suas pintas."


=D

amei o texto
de verdade

n2

joyce domingos disse...

guria,eu amei seu texto e estou com os olhos marejados.......

amei de verdade....

Anônimo disse...

muito muito muito liindo *-*
Parabéns! ;D

Lisa disse...

nossa que texto lindo.
bjux

Yaniara disse...

como disse nossas companheiras acima.. lindo lindo lindo

Psycho Lés disse...

Muuuuito lindo... adorei, como sempre!!!

Dê uma olhadinha neste blog...Um blog meio psicótico, meio psicológico e totalmente lésbicohttp://psycholes.blogspot.com/

Psycho Lés

Anônimo disse...

Lindoooo!!!

Anônimo disse...

nossa.. mto bom!

Polly disse...

Amei... muito lindOoooO =)

Margarida disse...

Lindo é pouco! Mto bem escrito! Parabéns.!

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