12/03/2010

Acha-se




Independente e solitária, tinha muitos amigos, porém o tempo que consumia consigo mesma não deixava tempo para os outros, se perdia facilmente dentro de qualquer pensamento cotidiano ou ilusionista, se deixava deitada em casa enquanto o mundo girava lá fora. Diziam que ela estava perdendo a vida, perdendo o tempo, deixando tudo passar sendo somente espectadora do espatáculo. Mas ela achava que o único que ela estava perdendo era a futilidade dos que não eram capazes de comtemplar a complexidade dos próprios pensamentos.


Ignorava as normas e o sistema, mas o que mais me dói é que ela também me ignorava, não sei se um dia ela chegou a conhecer minha existência para logo ignorá-la, mas ela a ignorava. E eu que a vejo todos os dias passeando por esses corredores amutuados como se não estivesse ninguém atrapalhando sua passagem, fico perdida entre os fones pendurados nos seus ouvidos e o casaco de ziper meio aberto, e enquanto ela passa por mim de olhos fechados cheia de confiança eu desmorono em dúvidas e medos.


Outros dias como qualquer outro compunham a minha vida dentro daquele déjà vu diário, eu quase não me importava com o que as pessoas fossem pensar de mim e sobre o que eu fazia, mas dentro daqueles dias eu me importava com o que ela pensava. Me vi em frente ao espelho todas as manhãs arrumando o cabelo, buscando a cor que combinava com meus olhos. Eu estava parecendo adolescente que, por fim, encontra seu primeiro amor. Talvez fosse realmente o primeiro amor, talvez o único verdadeiro.


Eu já não tinha mais idade para paixões como esta, e meu trabalho já não era tão emocionante. Pensei em desistir, me afastar dela e de mim. Umas férias fora de época eram a solução para acabar com a dor no meu peito, a falta de ar quando ela passa. Quando percebi de verdade que o que eu estava sentindo era amor impossível, eu pedi minhas contas e fui achando que nunca mais iria voltar.


Comprei a passagem mais barata, sem saber para onde ia. Minha mala leve e meu casaco pendurado na alça da mochila deixavam à mostra meu carácter temporario de descuido com a vida e com o que eu tento aproveitar dela. No papel impresso que me entregou o simpático moço do aeroporto vinha escrito o nome de uma cidade que eu nunca tinha visitado antes, cidade importante do sul do país. Chegando lá o primeiro que fiz foi pegar um ônibus para uma cidade qualquer, uma que eu nem sabia como pronunciar o nome. Pousada no meio do mato, passeios de cavalo. Mas tudo o que eu queria fazer no pouco tempo que podia estar ali era ficar no quarto, esquentando meu corpo com chocolate quente no frio quase inverno que fazia.
Dormi até que o sol se fizesse meio-dia, foi quase inevitável lembrar do sonho da minha primeira noite tranqüila, ela parecia anjo em minha imaginação ela dividia comigo seu fone com a música mais bonita que podia existir, eramos como dois namorados dividindo a mesma coca-cola em dois canudos. Eu estava tentando fugir, me perder, mas naquela manhã eu descobri que eu realmente estava me achando, encontrando um lugar adequado para cada sentimento dentro do meu ser.
Enquanto eu estive ali o tempo parou, e às vezes eu sentia meu coração parar junto com ele. Minha vida em pausa, e eu, mesmo que não estivesse percebendo, parecia caminhar.
Quando voltei para minha cidade, tive que começar outra vez do zero, como menina nova que sai de casa para procurar seu lugar no mundo, mas eu já tinha meu lugar o que eu procurava agora era um lugar dentro de mim.

6 comentários:

Anônimo disse...

Que profunda essa última frase...! rs
Gostei! =D

lindo texto

n2

Desirée Lourenço disse...

Muuito bom, como sempre!
Parabéns!!
Adorei o texto!!

Anônimo disse...

Muuito bom, como sempre!
Parabéns!!
Adorei o texto!! (2)

AMEI!

Lisa

Anônimo disse...

seus textos sao MARA!

karol Clark disse...

Nossa, a cada texto que leio me encanto mais com o blog!
;)

@maricremo disse...

Perfeito, com esse me identifiquei de vdd

Postar um comentário