
A madrugada invade o quarto pouco iluminado, a cama desarrumada somente pelo corpo desajeitado que habita o canto esquerdo da grande cama de casal, nenhuma manta sobre o corpo cada vez mais gelado pelo vento que a noite traz consigo, nenhum abraço que puxa e esquenta. A bebida de tarde e começo de noite estava começando a ser notada pelo corpo, o álcool parecia circular pelas veias deixando um estranho rastro, uma sensação quase indefinível que sondava todo o corpo frágil e, agora, muito fraco. Sabia que tentar dormir seria inútil, sabia que a partir daquela noite não seria a mesma da noite passada e que seu nome nunca mais seria pronunciado da mesma maneira, por ninguém, talvez nem por ela mesma.
Já era suficientemente adulta para considerar todo tipo de problema passageiro, hesitou nas conclusões sobre vida e mundo, porque sabia que o que tinha vindo estava vestido de problema e às vezes era esconderijo para lágrimas de amores mal resolvidos, nunca tinha visto um problema com um nome tão conhecido, conhecido até por pessoas que nunca o tinham tido. O que muita gente chama vulgarmente de armário ela chamava de covardia, porque ela sabia que se esconder não era nada além de falta de coragem se mostrar (para ela mesma).
Quando se viu dentro do seu pequeno armário no escuro e sozinha já quis logo sair, ao abrir sua porta se deparou com um terreno totalmente escorregadio e percebeu que para pisar firme teria que segurar numa mão que não vacilaria, no abraço forte e no ombro que sustentaria seus passos a caminho da estabilidade.
Como todo recém saído de casa, sua alegria era os domingos em família, pai numa ponta da mesa, mãe da outra e ela voltando a ser criança. Quando apertou a barulhenta campainha de sua antiga casa foi recebida pelo abraço do pai, e por milésimos de segundos se deu conta que era esse o apoio que precisava para sair do que a prendia, e o sorriso feliz da mãe de que vinha correndo pelo quintal seria outro pedestal para sua total felicidade. No curto caminho do portão para a porta da sala ela decidiu que esse domingo em questão teria que ser diferente dos outros, teria que ser melhor.
Já era suficientemente adulta para considerar todo tipo de problema passageiro, hesitou nas conclusões sobre vida e mundo, porque sabia que o que tinha vindo estava vestido de problema e às vezes era esconderijo para lágrimas de amores mal resolvidos, nunca tinha visto um problema com um nome tão conhecido, conhecido até por pessoas que nunca o tinham tido. O que muita gente chama vulgarmente de armário ela chamava de covardia, porque ela sabia que se esconder não era nada além de falta de coragem se mostrar (para ela mesma).
Quando se viu dentro do seu pequeno armário no escuro e sozinha já quis logo sair, ao abrir sua porta se deparou com um terreno totalmente escorregadio e percebeu que para pisar firme teria que segurar numa mão que não vacilaria, no abraço forte e no ombro que sustentaria seus passos a caminho da estabilidade.
Como todo recém saído de casa, sua alegria era os domingos em família, pai numa ponta da mesa, mãe da outra e ela voltando a ser criança. Quando apertou a barulhenta campainha de sua antiga casa foi recebida pelo abraço do pai, e por milésimos de segundos se deu conta que era esse o apoio que precisava para sair do que a prendia, e o sorriso feliz da mãe de que vinha correndo pelo quintal seria outro pedestal para sua total felicidade. No curto caminho do portão para a porta da sala ela decidiu que esse domingo em questão teria que ser diferente dos outros, teria que ser melhor.
Ao entardecer, antes de deixar o que agora era seu segundo lar, desligou a TV e chamou os pais para conversar, confessar. Com certo medo estampado no rosto, só começou a falar depois que a curiosidade de sua mãe a obrigasse soltar palavras concretas com mais rapidez, e quando saiu a palavra “gay”, fechou os olhos e respirou aliviada, pensou consigo mesma “que palavra mais pesada.”. Quando abriu os olhos se encontrou dentro de um ambiente de lágrimas, a mão no ombro que buscava não chegou, um silêncio ensurdecedor tomou conta até que a palavras de raiva saíram pela boca delicada de sua mãe. “Você carrega nosso sobrenome, mas a partir de hoje você não pertence mais a essa família. E ainda bem que você já se foi dessa casa, me poupou o trabalho e a vergonha de ter que te expulsar.” Estática e incrédula buscou refúgio nos olhos escuros do pai que sem falar nada levantou e saiu. Era hora de abandonar outra vez aquela casa, dessa vez para sempre.
O bar das redondezas foi seu primeiro refúgio. Pediu dose dupla da bebida com maior teor de falta de memória do dia anterior, bebeu num só gole seco e marchou feito soldado traidor para sua, realmente sua, casa. E agora a madrugada invade o quarto pouco iluminado, a cama desarrumada somente pelo seu corpo desajeitado que habita o canto esquerdo da grande cama de casal, nenhuma manta sobre o corpo cada vez mais gelado pelo vento que a noite traz consigo, nenhum abraço que puxa e esquenta. A bebida de tarde e começo de noite estava começando a ser notada pelo corpo, o álcool parecia circular pelas veias deixando um estranho rastro, uma sensação quase indefinível que sondava todo o corpo frágil e, agora, muito fraco. Sabia que tentar dormir seria inútil, sabia que a partir daquela noite não seria a mesma da noite passada e que seu nome nunca mais seria pronunciado da mesma maneira, por ninguém mais, talvez nem mesmo por ela mesma.


17 comentários:
Quantas belas palavras podem ser encontradas no pensamento de alguém que vive no mesmo mundo que você...Sente os mesmos medos, angustias e decepções...
é... mais ou menos assim.
belo texto
te amo muito amor
n2
PS: falando em ciclos e circulos rs
' Sabia que tentar dormir seria inútil, sabia que a partir daquela noite não seria a mesma da noite passada e que seu nome nunca mais seria pronunciado da mesma maneira, por ninguém mais, talvez nem mesmo por ela mesma.'
(parte perfeita! *-*)
Mas que perfeito. x_x
e queeee medo. :xx haha
Muuito bom menina. (y
Nossa...me deixou mais preocupada do que já estava.(será que comigo vai acontecer o mesmo?)
mas o texto é simplesmente lindo!
adorei
bjus...
É impressionate como vc consegue me surpreender a cada texto, a cada palavra, escreve maravilhosamente bem, de um jeito que... eu nem sei explicar. Cada texto seu q leio sinto a garganta apertar, os olhos encherem d'agua. Como pode escrever tão bem assim!?
Adoroooooo vc *D*
nossa a cada dia q passa vc se supera em seus textos nem tenho palavras p descrever o quanto esse seu texto me fez relembrar a mim com meus pais e irmão nesta mesma situação ao revelar minha sexualidade parabens vc consegue detalhar todos os medos e angustias q passamos ao nos declararmos gay´s so queria te fazer agora um pedio amanha dia 6 de agosto é meu niver farei 24anos e adoraria ganhar de presente um e-mail com um texto seu algo q vc ñ tenha publicado ak se ñ for muito incomodo desde ja fico grata pelos seus textos mil bjs de cuida
meu e-mail isleylimaa@hotmail.com
Oi...
Encontrei seu blog por acaso em uma comunidade no orkut procurava por outra coisa. Mas mesmo assim fiquei curiosa...
Então comecei a ler e não parei enquanto não li todos os textos...
É maravilhoso ler textos tão reais que expõe de maneira tão linda todos os sentimentos que acompanha um homossexual.
Tive momentos maravilhosos aqui: Alguns textos fizeram sorrir, muitos me fizeram chorar por trazer a tona a dor de um amor perdido, outros me trouxeram tristezas passadas mais ainda presentes como este.
São todos muito bons continue escrevendo...
Bom, então é isso gosto muito do que você escreve.
Bjxs!
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Um forte abraço,
Dário Dutra
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Venho sempre aqui a procura de novas historias!
mais um belo texto
"a mão no ombro que buscava não chegou"
acho q representa o medo de todas/todos nós
Putz, comigo foi exatamente a mesma coisa, só que fui morar com meu pai.. :/
minha mãe até hj não pode escutar essa palavra, ela diz que é uma vergonha pra ela, por causa das 'amigas' de infancia dela ..
por isso que nao contei ainda, meeedo D:
um dia eu chego la. haha
otimo texto, assim como os outros.
continue escrevendo!
PuTS Garotaa vooc e demais acheii seu blog por acasoo numa comunidadee ee fiqei super curiosaa de ler historias sobre um assunto qe me interessa...
Mi deu ate inspiraçao pra escrever um ...
Um beijoo
Camila
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