04/06/2009

63 anos


Hoje é meu aniversário de 63 anos, e também meu último dia de trabalho porque decidiram que eu já tinha dado o que melhor que podia dar e que agora é hora de descansar, o anúncio dessas férias prolongadas e inesperadas veio em forma de presente hoje, no dia do meu aniversário. Confesso que essa foi, depois da morte de meu marido, a pior notícia que eu recebi. Só percebi que seria bom pra mim depois do argumento do meu chefe, que percebendo minha tristeza, se aproximou com cara de quem quer dar conselho, mas não sabe o que falar; me disse uma pequena frase que mudou muito a minha percepção sobre o tema (“Veja pelo lado positivo, agora você vai poder fazer o que sempre sonhou”).
Ele não sabia de nenhum dos meus sonhos, na verdade nem eu sabia, mas resolvi pensar neles, não nos sonhos-objetivos que sonhei poucos anos atrás, mas resolvi lembrar e reviver os sonhos de quando eu era jovem, de quando sonhos eram realmente sonhos e eu tinha um monte deles.
O meu primeiro passo depois de chegar do escritório foi tirar a poeira da caixa de sapato escondida no cantinho do armário, recuperar as fotos esquecidas ali por anos, joguei todas na cama e de uma por uma fui descobrindo mundos que já vivi, fotos que me fizeram sorrir, e em algumas deixei o pranto cair, parei e olhei pra mim num espelho meio embaçado, eu não era mais nada daquilo que estava ali naquelas imagens ultrapassadas, e sabia que não voltaria a ser, talvez a essência daquele velho sorriso ainda estivesse aqui, e era isso que eu estava procurando.
Encontrei perdida uma foto em que estava eu com meu cabelo colorido tocando meu violão cheio de adesivos que pregavam a paz no mundo e ao meu lado com os braços entrelaçados a minha cintura o primeiro amor da minha vida, que um dia, para me provar que seria eterno, chegou em casa com uma tatuagem com a imagem daquela foto, e eu com toda minha inocência a questionei sobre o que ela faria quando fosse velha e aquilo estaria enrugado e sem cor, ela falou que não se importava ela só queria me ter ao seu lado todos os dias. Olhei outra vez no espelho reparando naquelas rugas que tanto temia, e percebi que ela não envelheceu comigo, mas eu envelheci com ela, e que suas rugas fizeram as minhas.
Me lembrei de que quando o mundo me cobrou responsabilidade sobre o que sentia, desisti e caí nos braços de um rapaz que não amava e que ao meu lado se deitou até o seu último dia. Ele foi amante perfeito, um exemplar marido, mas quando me abraçava, em minha cabeça, vinha a imagem de outro abraço mais delicado. Com o tempo sumiram os abraços e as lembranças e o único que eu levava comigo era uma preocupação de seguir com a rotina cômoda que tinha.
Quais eram meus sonhos aquela época? Era viajar, fugir com ela pra algum outro lugar. Vai ser difícil realizar esse sonho, na verdade nem sei mesmo se quero saber sobre ela, não quero olhar em seu olhar e com vergonha dizer que é hora de recomeçar. Depois de tanto tempo... não é certo.
Sai pra comprar meu próprio presente, e comprei os CDs que eu escutava, os filmes que eu alugava, comprei pipoca, comprei guaraná. Essa noite vou começar minhas férias como quem começa uma vida, a diferença é que os outros a vivem eu não, eu a vou imaginar. Não vou ferir mais aquele coração, mas com certeza vou procurar seu nome na lista telefônica e pelo menos uma mensagem vou deixar. Talvez minha intenção seja esperar, como antigamente, o telefone tocar e sair pra ver o sol sumir em alguma praia.

Ontem foi meu aniversário de 63 anos, e também meu último dia de trabalho. E hoje acordei com um telefonema um pouco peculiar.


6 comentários:

Nicole disse...

Nunca é tarde de mais pra recomeçar, né? rs
Vida de hetero ninguém merece! =x

hahaha Amei o texto linda


n2

Carla disse...

Gostei de ver essa perspectiva!
A gente nunca pensa que pessoas dessa idade sejam assim.
E muito menos pensamos em sua dor ao ter que renunciar de uma coisa tão importante.
Ótimo texto.

Anônimo disse...

imaginei muito a minha avó!
será que eu puxei isso dela!
bjo

jessica disse...

Lindo!

Sяtª Jéssica disse...

realmente nunca é tarde pra recomeçar...

muito lindo este texto

continue assim

bjus...

Alda disse...

Quase é a história da minha vida. Porém, eu não era hippie e tenho 59 anos.
Parabéns pelo texto minha jovem. O mundo precisa de mais pessoas assim, que intenda, comprienda e faça o bom para o próximo.

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