23/05/2009

Marujo




Sou marujo molambento, vestido de trapos sujos de noites bêbadas, de chão escorregadiço de águas e algas encontradas pelo caminho. Meu barco é pequeno e leva consigo a maldição mais temida, a que nunca nenhum marujo se atreveu a encarar, mas eu não tive escolha e a tive que trazer.
Coloquei no meu barco uma mulher que pediu aventuras, estava ela parada no cais, na última cidade em que estive, a pedir desesperada abrigo no mar a todos que passavam, não se atreveu a desistir nem por um instante, esperou até o mais insignificante barco partir. A encontrei adormecida quando cheguei, a acordei com sutileza como se deve acordar toda mulher, questionei seu sono na areia, e ela respondeu que essa era sua cama porque ela vivia no mar. “No mar, vivo eu, minha senhora” e ela me disse “Contigo, moro eu agora”.
Ela veio com seu vestido branco e entrou em meu barco como se fosse rainha entrando em seu castelo, pediu pressa nos meus assuntos que ela estava esperando. Atordoado fui correndo beber meu rum, voltei em noite clara e coloquei a âncora a pingar. Partimos, eu, ela e a maldição rumo ao mar aberto, de ondas claras e leves.
Parecia anjo em contraste com a lua, dizia não ter ancestrais e não pretendia ter herdeiros, dizia que era sozinha como marinheiro, que seu corpo foi um erro e sua mente uma verdade, e que nada a deveria impedir de se jogar no mar e viver com os peixes. Falou sem eu precisar perguntar sobre todo esse mar, sabia mais que eu e uma penca de marujos mais.
Pediu-me desculpas por trazer em suas saias a maldição. O fim talvez estaria mais próximo com ela ao meu lado, mas ele sempre esteve aqui, a um passo. Ela foi só o passo errado em direção ao mal, mas ela não era precisamente esse mal.
Talvez fosse morte disfarçada de anjos de Deus, que nos enforca em suas cordas – cabelos em noites de amor, naufraga nossas vidas e a faz esquecida no fundo do mar, e ela volta a deitar, agora em outro cais; Ela, seu vestido cada vez mais sujo, e sua paz.

3 comentários:

Anônimo disse...

ooo imaginacao! rs =)
amo os seus textos linda!


te amo
n2

Daniele disse...

"seu corpo foi um erro e sua mente uma verdade, e que nada a deveria impedir de se jogar no mar r viver com os peixes"

adorei
*-*

Laila disse...

lindo texto

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