12/03/2010

Acha-se



Independente e solitária, tinha muitos amigos, porém o tempo que consumia consigo mesma não deixava tempo para os outros, se perdia facilmente dentro de qualquer pensamento cotidiano ou ilusionista, se deixava deitada em casa enquanto o mundo girava lá fora. Diziam que ela estava perdendo a vida, perdendo o tempo, deixando tudo passar sendo somente espectadora do espatáculo. Mas ela achava que o único que ela estava perdendo era a futilidade dos que não eram capazes de comtemplar a complexidade dos próprios pensamentos.


Ignorava as normas e o sistema, mas o que mais me dói é que ela também me ignorava, não sei se um dia ela chegou a conhecer minha existência para logo ignorá-la, mas ela a ignorava. E eu que a vejo todos os dias passeando por esses corredores amutuados como se não estivesse ninguém atrapalhando sua passagem, fico perdida entre os fones pendurados nos seus ouvidos e o casaco de ziper meio aberto, e enquanto ela passa por mim de olhos fechados cheia de confiança eu desmorono em dúvidas e medos.


Outros dias como qualquer outro compunham a minha vida dentro daquele déjà vu diário, eu quase não me importava com o que as pessoas fossem pensar de mim e sobre o que eu fazia, mas dentro daqueles dias eu me importava com o que ela pensava. Me vi em frente ao espelho todas as manhãs arrumando o cabelo, buscando a cor que combinava com meus olhos. Eu estava parecendo adolescente que, por fim, encontra seu primeiro amor. Talvez fosse realmente o primeiro amor, talvez o único verdadeiro.


Eu já não tinha mais idade para paixões como esta, e meu trabalho já não era tão emocionante. Pensei em desistir, me afastar dela e de mim. Umas férias fora de época eram a solução para acabar com a dor no meu peito, a falta de ar quando ela passa. Quando percebi de verdade que o que eu estava sentindo era amor impossível, eu pedi minhas contas e fui achando que nunca mais iria voltar.


Comprei a passagem mais barata, sem saber para onde ia. Minha mala leve e meu casaco pendurado na alça da mochila deixavam à mostra meu carácter temporario de descuido com a vida e com o que eu tento aproveitar dela. No papel impresso que me entregou o simpático moço do aeroporto vinha escrito o nome de uma cidade que eu nunca tinha visitado antes, cidade importante do sul do país. Chegando lá o primeiro que fiz foi pegar um ônibus para uma cidade qualquer, uma que eu nem sabia como pronunciar o nome. Pousada no meio do mato, passeios de cavalo. Mas tudo o que eu queria fazer no pouco tempo que podia estar ali era ficar no quarto, esquentando meu corpo com chocolate quente no frio quase inverno que fazia.

Dormi até que o sol se fizesse meio-dia, foi quase inevitável lembrar do sonho da minha primeira noite tranqüila, ela parecia anjo em minha imaginação ela dividia comigo seu fone com a música mais bonita que podia existir, eramos como dois namorados dividindo a mesma coca-cola em dois canudos. Eu estava tentando fugir, me perder, mas naquela manhã eu descobri que eu realmente estava me achando, encontrando um lugar adequado para cada sentimento dentro do meu ser.

Enquanto eu estive ali o tempo parou, e às vezes eu sentia meu coração parar junto com ele. Minha vida em pausa, e eu, mesmo que não estivesse percebendo, parecia caminhar.

Quando voltei para minha cidade, tive que começar outra vez do zero, como menina nova que sai de casa para procurar seu lugar no mundo, mas eu já tinha meu lugar o que eu procurava agora era um lugar dentro de mim.

27/02/2010

Meses



6 meses foi o tempo que ela passou aqui comigo, dormindo todos os dias sobre meu ombros, escutandos minhas antigas cantigas de ninar, as que me cantava minha mãe em dias de fortes tormentas quando a noite ainda era meu maior medo. Nunca antes na minha vida 6 meses me pareceram tão curtos, na verdade tudo foi uma grande contradição... eu sentia o tempo parar toda vez que eu olhava dentro dos seus olhos, parava toda vez que eu admirava toda a simplicidade do seu sorriso, eu juro, eu senti o tempo parar, mas não parou porque agora acabou os olhos e o sorriso.


Estive perdida dentro do meu conto de fadas preferido, nunca antes eu tinha conseguido encontrar a entrada do labirinto. Sempre estive a margem, estive vivendo no que chamam de mundo real desejando me perder, percorrer caminhos no seu estreito abraço, caminhar na escuridão dos olhos fechados durante seu longo beijo. Desejo já voltar a entrar e procurar nosso castelo no centro desses corredores temidos pelos outros. E o que há de ser a partir de agora? Como resposta só tenho a ação de seguir empurrando a vida com a barriga até que uma de nós atravesse essa infinita água que em ondas vem gelar meu pé descalso na areia.


Agora que ela se foi é preciso que meu coração contraido, apertado de dor e de saudade que prende ládrimas ainda não derramadas na sua totalidade, se acostume outra vez a rotina sozinha e monótona de deitar na metade de uma cama sabendo que a outra metade não vai se preencher ainda que eu sonhe, ainda que eu imagine, seguirá vazia até a hora de despertar. Agora que o mundo voltou a tomar seu tamanho natural e que a casa perdeu o brilho que tinha vou ter que seguir, ainda que segurando nas bordas e nas paredes respirando esse escasso ar que me falta.


Não há música que não me lembre seu dançar torto que dançavamos em frente a pequena e velha televisão que já não mostra suas cores, não há música que não me lembre nossas danças a luz da lua que invadia a janela sem cortinas. Não há nada que não me faça lembrar qualquer característica sua. Ela se foi, mas continua aqui em todos os lugares que estou. Será possível, que uma vez que eu tenha me perdido em seus braços, eu me perca por não os ter mais? Afirmo e defendo ferozmente que o que eu sinto é infelicidade, mas ela insiste em dizer que é só saudade, mas eu sei que a saudade só cobre a falta de sorrisos dentro de mim, e com a infelicidade escondida posso seguir em frente mesmo sem conseguir erguer a cabeça. E a nossa música que cantavamos juntas já não é mais a mesma quando em uma tentativa frustrada de cantar minha voz rouca me engasgo com minha própria solidão.


O espaço geográfico que habito está apertado, não aguenta mais o meu chorar. Na verdade nem eu suporto mais essas lágrimas que escorrem frias no meu rosto gelado. Ela foi embora e dentro de suas malas escondeu metade de mim, levou o que sustenta as bases fracas da minha construção. E eu só queria que ela me levasse inteira com cada pedaço meu que agora desmorona dentro do meu corpo inexpressivo e invisível.


Sinto que aos poucos vou caindo, meus olhos se fechando, to precisando dormir e sonhar que os passados 6 meses não passaram.

29/01/2010

Frio



Faz frio lá fora e aqui dentro o ar que repousa entre nossos corpos agasalhados é gelado, mas quase não se faz notar. Sua respiração ao meu lado é calma e regular, seus olhos fechados e seu cabelo desarrumado fazem do seu sono uma das coisas mais bonitas que uma pessoa pode contemplar. Seu corpo, em movimentos involuntários para se proteger do frio, se encolhe como quem procura calor em si mesma e esquece do meu braço em sua cintura, se esquece do meu corpo que ao seu lado implora para que o tempo caminhe com passos anciãos em passeio diário em praça pública, meu corpo implora para que o tempo esqueça as obrigações do amanhã porque eu também quero esquecer as minhas.


A madrugada chegava devagar e o frio foi se intensificando, mas eu não percebi nada acontecendo ao meu redor porque eu me destrai com sua pele, com seus pelos arrepiados. Não vi que aos poucos o céu escureceu e algumas estrelas apareceram na nossa janela de cortinas abertas. Meus olhos tinham se acostumado com a escuridão e mesmo que eu não a pudesse ver com claridade eu via sua bela silhueta. Em algum momento da minha distração o vento se chocou com a janela e um pequeno estrondo a assustou, a fez mudar de posição, mas não a acordou. Seus seios e barriga descobertos, suas costas inteiras apoiadas no macio colchão, eu nesse pequeno espaço que me sobrou apoio minha cabeça no meu braço e a olho de cima, ela é realmente linda.


Deitei em seus seios como criança que pede carinho, abracei sua cintura mais uma vez sem muito me importar se seria novamente esquecida. Posicionei meus ouvido exatamente sobre a pele que cobria seu coração e, como canção de ninar, escutei seu copasso, seu rítimo, sua sincronia, escutei como seu corpo dançava sem ninguém perceber, se mexia e cantava sozinho só para meus ouvidos. Durante muito tempo eu fiquei ali decifrando seus sonhos pelos batimentos cardíacos e suas inspirações e expirações, me afastei de mim para me aproximar daquele corpo que descançava, ignorei minhas vontades de fechar os olhos e dormir para saciar minha vontade de acariciar aquela linda mulher que eu chamava de amor. Passei meus dedos pela sua cintura, pelos seus cabelos, a abracei como se nunca mais na vida eu poderia voltar a repetir aquele abraço. Beijei devagar suas bochechas delicadas com cuidado para não a acordar.


Meus olhos começaram a pesar com o passar da noite, minha boca a bocejar um sono que eu não queria assumir. Eu cochilava por alguns minutos e acordava lutando para não voltar a cochilar. Peguei o grosso cobertor para nos cobrir e quando aquele pesado tecido tocou a sua pele delicada ela, ainda dormindo, pegou e se cobriu com seu instinto, cada pedaço que antes eu beijava. Beijei seus lábios um beijo não correspondido de boa noite, e antes que meus lábios secos pudessem abandonar os seus ela pronunciou algumas palavras sem nem mesmo abrir os olhos, “Ainda acordada, princesa?”. Eu não respondi, somente deitei nos braços que ela tinha estendido para mim, me oferecendo seu ombro como travesseiro. Adormeci.


O dia aproveitou nossa janela de cortinas abertas para invadir o quarto e brilhar um pouco do seu brilho quente dentro dessas quatro paredes. Abri os olhos com certa dificuldade, estava claramente cansada, eu sentia os vestígios da noite passada em branco. Quando meus olhos estavam abertos e finalmente podiam ver percebi que faltava alguém ao meu lado, faltava o que deixava a cama apertada e pequena, não gostei da cama grande que se apresentava para mim naquela manhã.


Levantei em pleno desespero e fui procurar pela casa e tudo que eu encontrei foi um bilhete de letras desenhadas e arrumadas pendurado no imã da geladeira dizendo, “Estou pensando em desistir, me desculpa”. Como podia um bilhete com tão poucas palavras destruir toda minha estrutura em apenas alguns poucos segundos. Caminhei me arrastando e segurando nas paredes e deixei meu corpo cair no sofá, tentei remontar na minha cabeça minha vida, procurando alguma coisa que pudesse explicar tal acontecimento e tudo que vinha na minha cabeça era nada. Até onde eu me lembro a gente se amava.


Antes que eu pudesse me afundar e afogar nas minhas próprias lágrimas escutei o barulho da porta, a chave rodopiava na fechadura ao movimento das mãos da única pessoa que tinha as cópias dessas chaves. Ela viria reconstruir um mundo dentro de mim que tinha acabado de desabar, ou simplismete veio recuperar seus pequenos detalhes esquecidos nas minhas gavetas? Ela entrou devagar como quem pisa em território que não conhece, sentou ao meu lado no sofá e me perguntou que dia era hoje. Eu sem entender e sem querer muito escutar toda aquela conversa confessei minha distração e respondi que não tinha idéia de dia era hoje e perguntei porque isso importaria agora. Ela respondeu que hoje era nosso aniversário de namoro e que era para eu abrir meu presente que ela tinha acabado de trazer. A olhei com uma cara confusa, sem entender a conexão do bilhete com o presente. Abri aquele pequeno envelope que ela tinha acabado de me entregar e dentro dele havia duas passagens para fora do país e uma aliança com seu nome escrito. A olhei em busca de uma resposta e ela falou “Minha princesa, hoje quando acordei decidi desistir de tudo o que a gente vivia antes, confesso meu medo e também pensei em desistir de você, mas agora vejo que o que eu quero é uma cama maior e uma casa sem cópias de chaves. Desisti do meu trabalho aqui e a transferência para Paris me foi concedida. Não te peço que desista de tudo por mim, te peço que se case comigo e acarecie meu corpo adormecido todas as noites, que me proteja do frio e me beije todos os dias o seu tão bom beijo de boa noite”. A interrompi com um beijo, e sem precisar dar uma resposta levantamos juntas para começar arrumar nossos detalhes dentro de uma pequena mala.

21/01/2010

Alguma pergunta?

Olá a todas!

Volto com mais algumas novidades.
Então, muitas leitoras do blog andam me mandando emails, contando histórias, me perguntando inúmeras coisas. E ontem ao entrar no meu email decidi! Vou criar um acesso mais fácil e rápido para tentar falar com todas que me escrevem, e uma forma mais simples.

Resolvi criar um "caderno de perguntas"online, onde qualquer uma de vocês possam mandar perguntas, sugestões ou qualquer outra coisa que quizerem.

Para quem quizer, é só enviar a pergunta na caixa ao lado, ou clicando na imagem acima (formspring) e para ver as respostas, é so entrar nesse mesmo site ou no twitter do blog.

Beijão para todas =D

12/01/2010

Fim de ano - Parte 2



Leia antes: Parte 1



O período de entre-feriados de fim de ano, passou com tanta lentidão que até parecia que o a última semana do ano estava composta somente por segundas-feiras chuvosas, entediantes e com escassa aprendizagem de conteúdo intelectual, o que só provou sua teoria de que final de ano não é apenas uma transição de pequenas eras individuais, mas era também uma época de grande estagnação mental. Mas deixando para trás suas teorias típicas da falta do que fazer, a jovem menina parou em pé no meio da sala, olhou em uma visão panorâmica toda aquela bagunça, pensou que teria pouco tempo até sua única visita chegar, falando francamente, teria apenas algumas poucas horas para deixar a casa em estado apresentável e depois deixar a si mesma em estado apresentável, pensou que estava perdida e que seria tarefa para algum super herói da limpeza, mas começou mesmo não acreditando muito na própria capacidade de arrumação em alta velocidade. Depois de alguns minutos arrumando viu mesmo que de arrumação em alta velocidade ela não tinha nada então a solução foi achar um canto no armário para amarrotar as cobertas que estavam no sofá, as roupas que estavam jogadas pelo quarto foram direto para a roupa suja, não importava o quão sujo estaria, e com uma pitada de criatividade ela conseguiu terminar a, se é que se pode chamar assim, arrumação. Quando por fim parou no mesmo lugar estratégico da sala e olhou para o sofá agora engomado, parou para pensar o quanto era frustante passar o último dia de um ano arrumando a casa, e prometeu para ela mesma que essa seria a primeira e única vez que faria isso, e que tentaria não acumular descaso a casa quando estivesse esperando alguém.
A tarde começava a aparecer, e com os claros sinais de que não ia demorar para que a civilização daquela cidade começasse a se esconder em suas casas, ela resolveu ir rápido no mercado comprar coisas beliscáveis e bebidas, porque de maneira nenhuma queria virar o ano lúcida e sóbria, queria livrar-se da vergonha sem cair no lamentável. Comprou um pouco de cada coisa, o mercado local não tinha muita coisa mesmo, optou por inventar o que cozinhar e por escolher bebidas de grande aceitação nacional, tentou não se equivocar em nenhum detalhe ainda que sabia que seria impossível acertar em tudo.
Subiu as escadas com a respiração quase falhando, as sacolas marcando sua pele de uma forma estranha e alinear, subiu cada degrau como quem está pagando pecados e promessas nas grandes escadarias das grandes igrejas, pisou o último degrau aliviada, olhou em direção a porta fechada de sua casa como se fosse as portas de um paraíso, encaixou e deu voltas na chave com certa dificuldade e empurrou com força a porta para dentro, ao entrar o gato que aparentemente havia sumido pela manhã (estaria ele fugindo da poeira e da vassoura) pulou en um salto quase inimaginável até seus pés cansados e começou a procurar por carinho enquando fazia carinho nas pernas da sua nova dona. Os dois foram caminhando juntos como dois grandes amigos cumplices da vida, até a cozinha. Com as sacolas repouzadas no chão ela se dirigiu ao quarto para escolher sua roupa, que com total certeza seria a primeira que visse no caminho, uma maneira formal de se vestir com um estilo desleixado e descontraído.
Antes de chegar ao banheiro o celular no seu bolso tocou a música da mensagem, era sua visita dizendo que ia começar a se arrumar para começar a se aproximar daquela casa que agora estava a menina que começou a andar quase correndo ao terminar de ler tais palavras, o gato calmo acompanhava com a cabeça toda a movimentação agitada da menina que até o momento não tinha parado. Correu para tomar um banho que desejava ser eterno, mas teve que ser reduzido ao necessário exigido pela higiene humana. Se arrumou no banheiro mesmo, depois foi para o quarto em busca do perfume empoeirado que quase nunca usava e procurou o tênis jogado debaixo da cama para calçar. E assim chegou a noite sem que ela se desse conta.
Quando ela parou e percebeu que não faltava nada mais para fazer e que o que restava era esperar, o interfone toca, era o porteiro avisando que uma moça queria subir, ela perguntou para o porteiro com un tom irônico se a moça era bonita, e como resposta o porteiro riu e disse que mais bonita não podia ser e desejou um boa festa para as duas, ela pediu pra que ele a deixasse subir. Ao desligar ela deu uma última olhada na casa, buscando algum vestígio de desordem que pudesse ter ficado para trás, até achou alguns pontos de descórdia, mas pensou que arrumar o pouco que tinha era ser neurótica.
Poucos segundos intermináveis até baterem na porta se passaram, o coração estava saindo pela boca, e a mão tremendo enquando girava a maçaneta. Parecia cena em câmera lenta de um grande filme talvez de drama ou de romance, talvez uma grande mistura desses dois estilos o que definiria com exatidão a vida real. O nervosismo quase a empediu de terminar o movimento rotatório da chave. Abriu a porta e ao ver aquele rosto uma grande sensação de felicidade e satisfação invadiu seu pequeno corpo e ela com um incalculável esforço conteve o sorriso bobo preso no seu rosto.
Se comprimentaram com devida educação e poucas palavras, a luz da sala acesa foi um convite para entrar, sua linda visita sentou ao lado do gato no sofá enquanto ela foi até a cozinha pegar as primeiras bebidas e ligar o som do iPod na caixinha de som, não sabia se acertaria no gosto musical, mas pouco se preocupou com isso porque aquela noite queria escutar suas músicas preferidas. Sentou timidamente no sofá, e no exato momento em que sentou o gato levantou e se deitou em seu colo, e ao deitar ficou olhando a convidada com um ar meio ciumento e logo encostou a cabeça na calça preta e fechou os olhos devagar em um sono que veio devagar. Enquanto acariciava o gato em seu colo ela começou o que seria uma longa conversa sem assuntos determinados. Com o tempo a bebida foi entrando em contato com a consciência e a conversa foi mudando, as risadas ficaram mais altas e os movimentos mais bruscos, a destração das duas meninas fez com que as horas passassem despercebidas.
A conversa que ia e vinha dentro daquela casa fez com que a tensão acabasse por completo, que fez que a distância entre as duas em cima daquele velho sofá fosse diminuindo e o gato encontrou como leito outro lugar onde podia ver o que acontecia, mas ao mesmo tempo podia tirar seu cochilo em paz.
No momento de uma dessas longas risadas, derivadas de qualquer assunto sem importância, sua visita se aproximou perigosamente ao seu rosto, sua risada paralisada teve como resposta um beijo curto e rápido, beijo que veio quase como uma pergunta, um pedido de pemissão para dar o segundo, seu rosto paralizado pareceu coincidir exatamente com a música defeituosa baixada da internet onde durante alguns segundos tudo ficou quieto, ela com um rosto um pouco assustado e a outra com um rosto envergonhado, segundos que pareciam não ter passado, parecia um congelamento do tempo e do espaço que só voltou ao seu estado normal quando a autora do primeiro beijo se aproximou para dar o segundo que mais uma vez não foi rejeitado por ela. Beijo esse que durou bem mais que o primeiro, foi a quebra de um gelo que constrangia o ambiente naquela noite quente, o silêncio persistia, a música parecia respeitar o momento, parecia esperar algum sinal verde para poder seguir.
O beijo parou quando seu vizinho solitário apareu na janela e gritou em alto e bom tom "Feliz ano novo, mundo!", as duas se olharam com olhares curiosos e em movimentos sincronizados olharam para seus respectivos relógios e se deram conta de que um ano novo já havia começado. A anfitriã olhou sua visita com um ar de frustração, como se não tivesse feito bem seu trabalho e perguntou se a outra tinha feito algum pedido, falou que não tinha feito nenhum e se indagou se ainda existia tempo para pedir alguma coisa, mas quando parou para pensar no que pedir não conseguiu lembrar de nada. Sua companheira sinalizou negativamente quando indagada sobre os pedidos e respondeu com um ar tranquilo que não precisava de pedidos aquela noite, porque já tinha motivos de sobra para acreditar que esse novo ano que começava seria um ano feliz.


29/12/2009

Final de ano



Alguns dias depois do decadente natal em família em que cada um dos presentes estavam claramente desejando estar em outro lugar com outras pessoas ou até mesmo dormindo, ignorando de forma natural o falso papai noel infantil ou a gula dos mais avantajados no que se refere idade, a jovem moça recém saída de casa devido a faculdade consegue voltar para sua solitária casa, fugindo das saudades da mãe e das preocupações e conselhos do pai – já ouvidas e anotadas milhões de vezes antes. Quatro horas de viagem até o recanto calmo e silencioso do lar, que estava a somente a 20 minutos da faculdade; voltou contente quase sorrindo para a bagunça que talvez nunca fosse admitida na casa dos pais, para a loça meio lavada, o sapato debaixo da cama, o lixo por descer, voltou para a cama nunca engomada e para a roupa amarrotada nas gavetas. O frio do lugar a muito tempo vazio se fez notar ao simples abrir das portas da sala, a poeira fina acumulada em cima dos poucos móveis dava um certo ar fantasmagórico e a impressão de abandono. O gato do vizinho vinha em busca de carinho se entrelaçando em suas pernas e fazendo-a tropessar e depois deita no sofá esperando em um pseudo sono a companhia da cansada menina que acabava de chegar. Passou pela poeira e pelo vento como quem não nota nada de diferente no ambiente, atravessou o corredor sem nem mesmo olhar para os estranho quadros pendurados nas paredes brancas, desenhos feitos em dias de tédio e solidão, enquadrados como obras de arte sem valor algum. Chegou em seu quarto e não se preocupou nem em acender a luz, simplesmente abriu a porta e depejou lá dentro a grande mochila, deu meia volta e foi em direção a cozinha, passando pela sala acariciou o preguiçoso gato que ao sentir as mãos passando sobre seus pelos negros miou um bocejo calmo, abriu a geladeira com a esperança de encontrar qualquer coisa comestível e que ainda estivesse dentro do prazo de validade, nada. A mesma tentativa frustada de matar a fome a fez vasculhar os armários e denovo nada. Por um momento sentiu falta da casa que tinha acabado de deixar para trás, por um momento realmente curto, ao encontrar dinheiro no pode de maionese vazio agradeceu por estar em casa outra vez. Desceu as escadas do prédio e foi no mercadinho que ficava ao lado, comprou coisas bem “não natalinas” como os tipicos salgadinhos de milho da Elma Chips, qualquer coisa congelada e refrigerante. Com o gato deitado em seu colo e uma vasilha na mesinha de centro com suas besteiras comestíveis pegou o controle da pequena televisão e foi trocando de canal em busca de algum filme descente de se ver, acabou parando na típica programação global de fim de ano, mas ao escutar as palavras cantadas com as vozes conhecidas “hoje a festa é nossa blablabla...” trocou novamente o canal e acabou por escolher o canal religioso com a imagem da queda do lider católico atual, e chegou a esboçar um sorriso tímido com a cena que se repetia e repetia em distintos ângulos. E passada algumas horas de puro nada o que fazer adormeceu. Seu corpo torto no sofá deixava um grande espaço para o gato quase seu, às vezes se mexia devagar e expressava caras e sonhos e pesadelos, só despertou da posição incômoda quando a luz tinha se ausentado por completo das janelas abertas e o velho telefone começou a tocar insesantemente. Levantou e colocou o telefone no ouvido e esperou escutar o outro, sua mãe que parecia ainda não ter matado a saudade por completo e chorou. Depois de tantos minutos, quase intermináveis, desligou o telefone com o dedo mantendo-o na altura do seu rosto, apertou o botão criando coragem para digitar algum número previamente decorado, mas nunca digitado antes. Colocou o aparelho no lugar porque a coragem que tentava reunir durante alguns poucos segundos não foi assim tão suficiente. Madrugada marcada no relógio, TV susurrando alguma coisa desinteressante, já era hora e ir para o quarto, fingir arrumar a mochila e ligar o computador. Ao entrar no quarto teve a mesma sensação ao entrar em casa pela tarde, o mesmo vento (agora mais gelado) e o mesmo ar melancólico de solidão. Dentro da escuridão uma luzinha destacou dentro da mochila. Fazendo-a transparente, o celular abandonado lá dentro indicava algumas ligações perdidas e uma mensagem, as ligações sabia que era da sua mãe que lhe havia avisado no telefone, a mensagem ela não sabia de quem era, um número estranho que a única coisa que ela podia deduzir era que era de alguém da mesma cidae. Como todo ser humano não resiste a curiosidade ela abriu e leu exatas palavras “pensei em te ligar, mas tive medo de ouvir sua voz do outro lado ou talvez eu não tivesse mesmo nada para falar. Feliz Natal!”. Depois de ler gastou um bom tempo tentando adivinhar o autor de tal mensagem, imaginou por alguns instantes que seria seu amor platônico transformando-se em real, mas logo lembrou que não reconhecia o número e desabou. Deitou na cama sem nenhum vestígio de sono, e escutando a fraca chuva que começava a cair contemplou a mensagem até o dia chegar. O sol brilhando lá fora, mais um dia para começar, levantou e pegou um copo de leite gelado e em uma pequena tigela colocou o alimento do pequeno gato que não tardaria em chegar, olhou o telefone na mesinha enquanto ia em direção a janela espionar o mundo, passou direto mas seu pensamento continuou ali, parado pensando nos números quase decorados da noite passada. Debrussada na janela com sua caneca pegou o celular e abriu a mensagem, não para ler, mas para responder. Com poucas palavras pediu que o misterioso autor ligasse mesmo que não tivesse nada a dizer, porque ela tampouco saberia o que falar e que talvez os silêncios se entedessem entre eles. Passados não mais que cinco minutos o telefone em sua mão começa a vibrar e tocar uma música barulhenta, saltou em um susto rápido, sem pensar e com o coração na boca apertou o botão verde:

- Alô?!

Uma voz oscilante e insegura, com palavras ditas rápidas e lentamente, a respiração que era possível ouvir com claridade disse:

- Olá, acabei de receber a sua mensagem, e revolvi ligar. Tô um período a mais que você na faculdade e não acredito que você me conheça, bem... talvez de vista, não sei.

- Não precisa se explicar, reconheci sua voz.

- O que eu tenho para falar é que eu me apaixonei pelo seu jeito solitário, pelo seu sorriso de fim de aula... tamanho é meu constrangimento que é melhor disser logo antes que eu desligue de tanta vergonha. – silêncio – Bem, eu só queria perguntar se você tem planos para o reveillon, a residência da faculdade está às moscas e... não sei, seria ótimo virar o ano com você. - silêncio – Talvez você agora esteja me achando uma louca, mas eu não poderia virar esse ano sem cumprir o objetivo que eu traçei ano passado.

- Por que não vem você para minha casa? Aqui não é proibido fazer festa. Você sabe onde fica?

- Sei...

- Perfeito, te espero dia 31! Beijo

Desligou o telefone sem acreditar muito no que tinha acabado de acontecer, era ela! Era ela! Seu plâtonico tinha acabado de se declarar. Ficou tão feliz que não foi capaz de ficar parada, precisava fazer alguma coisa, libertar a energia, a tensão rapidamente acumulada durante a ligação.
Foi para o quarto, trocou de roupa, escovou os dentes e os cabelos, saiu tropeçando nos móveis pelo caminho até chegar na porta. Chamou o gatinho e o pegou no colo, atravessou o corredor, apertou a campainha do senhor que morava em frente, quando aquela cara de barba branca envergonhada ao ver o gato em seus colos abriu a porta, ela sem exitar perguntou com um sorriso nos lábios: “Posso adotar seu gato?”. A resposta afirmativa daquele senhor fez aquele dia um dos melhores que ela poderia ter pedido de natal.


Final de ano...

Hoje era para sair o meu texto na coluna do PL, mas como não está no ar o site.. - Alguém sabe o pq? - Bom, então eu resolvi postar aqui. Espero que gostem.


Um clichê super feliz natal (atrasado) pra todas e um ótimo ano novo!


beijão