06/08/2010

Balanço



    Sentou lentamente no balanço que balançava sozinho pelo vento típico de fim de tarde nesses dias de outono. Ao seu lado outro balanço vazio em movimento. A areia fina do chão dançava com as folhas suicidas que iam caindo pouco a pouco das árvores secas, magras e, devido à falta de iluminação no local, escuras, quase negras; algumas folhas já estavam secas, umas próximas e outras bem longe  dos troncos, dos galhos de onde antes habitavam, outras mostravam  certa resistência e seguiam verdes agarradas a aqueles pequenos  pedaços de madeira.

     O céu estava escuro e somente alguns postes eram responsáveis por toda a iluminação do parque de medidas médias, com poucos brinquedos e muita poeira. No outro extremo do parque, bem em frente do balanço havia uma casinha de madeira e essa foi a primeira imagem que viu depois de sentar e tomar coragem para erguer a cabeça e começar a impulsionar com os pés trêmulos cheios de dúvidas a madeira velha e úmida que flutuava no ar presa por duas correntes, que por suas cores quase laranjas mostrava que os anos tinham enferrujado aquele lugar.

     Seu rosto mostrava quase a mesma melancolia que representava um parque sem o barulho das gargalhadas das crianças, da areia que se dissipava no ar sem que nenhum pequeno ser tivesse passado antes correndo de um brinquedo a outro como quem quer ir a todos ao mesmo tempo e corresse para compensar seus super poderes ainda não desenvolvidos. Ela era a única que representava alguma vida para aquele lugar que no momento era um simples resumo do mundo e da sua vida.

     O telefone no seu bolso direito apitava sem parar, tentando avisar que estava prestes a desligar por falta de bateria, mas ela parecia não escutar, ou simplesmente não prestava atenção nos sinais que se apresentavam diante dos seus olhos de que o tempo estava passando e que talvez, por não estagnar, era hora de ir. Ela balançava cada vez mais alto, enchendo os sapatos de areia, aos poucos sentia o sabor daquele ar poluído que deixavam sua boca seca, quase sem saliva. Seus olhos ardiam pelo ar que soprava cada vez mais forte e cada vez mais sujo.

     A luz de uma pequena lanterna a obrigou a parar, com um movimento bruto, grotesco, colocou os pés rígidos no chão que instantaneamente fez voar terra e ela, de forma desajeitada, se viu em pé em frente ao balanço que agora rodopiava de um lado a outro tentando assimilar e voltar para sua órbita natural. O guardinha
que já queria ir para casa, se aproximou com cara de cansado e a perguntou se ela estava perdida ou se queria alguma ajuda para chegar em casa, e ela com uma cara ainda mais cansada olhou para o senhor ao seu lado e sem dizer nada recolheu suas coisas no chão e deu as costas para aquele lugar. O velho guarda vendo aquela que
acabara de transformar-se em mulher indo em direção a rua mais estreita e antiga da cidade sentiu compaixão e tristeza porque parecia entender que ela só precisa de um descanso.

      Enquanto caminhava devagar por aquela rua representou um claro contraste para a decoração, parecia não pertencer ao ambiente e por respeito tirou os sapatos barulhentos e o casaco colorido. Com as mãos levava suas coisas e ainda que sentisse frio preferia a sensação de pertencer, de encaixar com alguma coisa, e de fato sua calça jeans e sua camisa preta eram as peças que faltavam naquela rua silenciosa de casas baixas, janelas na altura de quem passa, de quem se interessa pelo que está dentro e de quem se interessa pelo que está fora.

      Sua cabeça e seus pés doíam, latejavam sem sincronia. Sem saber por quanto tempo esteve caminhando por fim chegou em casa. Abriu a porta e com passos leves foi devagar até o banheiro. Não se importava muito, mas mesmo assim se preocupou em deixar as luzes apagadas e não fazer barulho, encostou a porta e ligou o chuveiro
dentro da escuridão. Enfiou a mão no bolso e foi tirando dali cada minúscula moeda, as chaves, o celular e alguns papéis rabiscados. Desamarrou o cabelo e desabotoou os botões da manga da camisa social. Nem por um segundo pensou em tirar a roupa e entrar de baixo daquela água gelada, entrou como quem quer lavar não só o corpo, mas como quem também queria se desfazer de alguns aspectos da vida.

      Quando sentiu a água atingir seu corpo teve uma sensação de quase dor, era prazer. A roupa molhada rapidamente colou no seu corpo escondido. Ela tinha os olhos fechados, concentrada na água que caia porque não queria pensar em nada mais, o alheio não lhe atraia. A roupa em pouco tempo se transformou em um grande incômodo, ela se viu obrigada a abrir os olhos e pouco a pouco ir se livrando de todos aqueles tecidos. Quando abriu os olhos viu que a entrava luz pela fresta aberta da porta, ficou a espera do que era óbvio para ela. A porta se abriu devagar a luz cresceu e dominou todo o banheiro, ela soltou alguma reclamação que a sua namorada não pode entender, ou simplesmente ignorou. Ela voltou a fechar os olhos ainda com metade da roupa por tirar e não disse nada.

      “Sempre tive medo de que você não voltasse para casa, que no caminho se desse conta de que não faço parte do seu conto de fadas.” – Disse a namorada enquanto entrava de baixo da mesma água fria que ela, também vestida.

      Ao ter companhia respeitou o intruso que não incomoda e substituiu a água fria pela água quente. Enquanto o vapor ia subindo lentamente ela voltou sua atenção à roupa ainda por tirar, recebeu ajuda com os botões que faltavam e deu as costas à mulher que estava na sua frente para que esta pudesse tirar com mais facilidade a
camisa grudada no corpo molhado.

     “Sabe por que eu me apaixonei por você?” – Ela disse, e antes de ter uma resposta continuou – “Antes de me apaixonar por você, me apaixonei por seus medos, sua fragilidade. E sabe por que às vezes eu volto tarde para casa? Porque sou incapaz de assumir que não represento um porto seguro para você e meus abraços não te afastam dos seus monstros.”

     “Isso não é verdade” – Respondeu a namorada enquanto puxava devagar seu braço a forçando a dar a volta e encarar seus olhos escuros.

     “É verdade!” – Ela exclamou num quase grito de desespero.

      Olhou para cima, deixando a água cair diretamente no seu rosto. Durante alguns poucos segundos deixou que o silêncio voltasse a impor a ordem no seu corpo e em tudo não material dentro de si para voltar a falar em um tom que, sem poder aumentar o volume da própria voz, aceitou ser um sussurro.

     “Escutei você chorar essa noite, e sei que você estava pensando em mim enquanto deixava seu inconsciente desabafar. E hoje eu acordei e vi seu rosto inchado sorrindo por algum sonho bonito e por ver você sorrir me senti feliz e me dei conta que já não sou indiferente.”

     “Você precisa descansar.” – Respondeu sua namorada envergonhada por ter sido capaz de esconder as lágrimas da noite passada, e por não conseguir esconder naquele momento.

     Ela abaixou a cabeça e entrou no abraço da namorada que a esperava com a toalha aberta, sentia frio e por impulso caminhou em direção ao quarto, sentiu que estava sendo seguida e enquanto andava tropeçando nas bordas da toalha que arrastava no chão se perguntou se ela estaria no sonho que deu origem ao sorriso mais bonito que havia visto, e ao pensar nisso se virou e encarou sua namorada com cara de quem ia começar a fazer um interrogatório. E o que teve como resposta foi um sorriso similar e a seguinte frase: “Sim, eu sonhava com você, e sim, antes de dormir e sonhar eu chorei, chorei porque, não importa o que aconteça ou o que você diga, eu sempre vou temer te perder.”


11/05/2010

Blog de cara nova - Feliz 1 ano de Blog!

Olá!

      Eu estou aqui voltando a falar em primeira pessoa. Como você já deve ter percebido, o blog está todo diferente, de cara nova e com muitas novidades e isso é devido a comemoração de 1 ano do blog essa semana!

      E para não passar em branco resolvi remodelar todo o layout e criar algumas páginas. A primeira fala um pouco mais sobre mim. Outra sobre meus contatos, como Twitter, Orkut e outros. E por último e o mais especial, muitas pessoas me mandaram emails e recadinhos aqui no blog que gostavam muito dos textos, que os imprimiam, e resolvi fazer um livro virtual, onde os textos mais comentados, os mais bem votados, que vocês e eu mais gosto estivessem em uma versão exatamente para guardar com vocês, e inclusive para impressão. Espero que gostem do resultado. Para quem se interessar, o livro está disponível na página de downloads.

      E para terminar queria muito agradecer todos vocês que sempre estão aqui no blog comigo, lendo os posts, comentando, seguindo o blog. Eu fico sempre muito feliz de saber que vocês gostam do blog e estam curtindo ele comigo. Um beijo enorme pra vocês!

      Raianne Senna.

05/05/2010

Seu sorriso



           Ela está muito longe de mim agora, mas faz questão de me presentear seu sorriso todos os dias antes que eu possa dormir, porque ela sabe que me faz feliz vê-la sorrir seu sorriso tímido de quem nunca esteve ao lado, mas sempre esteve presente. A gente nunca chegou a ser próximas, nunca chegamos a concluir que o que se sentia era de verdade amor, tampouco pode-se dizer que tivemos tempo.
       A conheci a alguns anos atrás, quando a coincidência fez do cruze destraído de nossos olhares um encontro, ela procurava alguém no meio de todos e eu simplismente descansava meus olhos de tanta poluição humana, encontrei em seu delicado rosto meu descanso e também minha inquietude quando ela, ao buscar outro, me achou. Até que tentei disfarçar o meu encarar, mas já era tarde e ela tinha percebido e junto comigo se constrangiu. Era pequena celebração da pequena cidade em que nasci, bem longe de onde decidi viver. Muitas pessoas das quais eu achei que nunca mais ia ver estavam presentes, eu até que estava tentando me centrar mas meus pensamentos realmente não estavam ali, e assim foi até que a vi.
      Meus pés voltaram a tocar o chão, quando consegui ver que seus olhos de aspecto relaxado eram azuis, pensei em caminhar em direção oposta, pensei em fugir da pressão que era seguir encarando aquele olhar. Mas quando comecei a andar meus pés pareciam conhecer somente uma direção, a sua. A cada passo senti meu coração bater mais forte, no meio do caminho, quando parei de ohar o chão e tentei inútilmente desviar a direção vi que ela estava olhando para mim, parecia esperar. Ela me sorriu e esse sorriso me fez parar, significou rosto vermelho e olhar perdido em mim. E como quem rebobina uma fita velha eu dei passos para trás, e ela como quem adianta uma música para chegar no refrão veio em minha direção.  Quando ela chegou o suficientemente perto para que eu pudesse ver até os diferentes tons de água dos seus olhos eu a cumprimentei com acabeça e ela imitou meu movimento, me olhou meio curiosa e depois de alguns intermináveis segundos ela pronunciou alguma palavra que eu não prestara atenção e até hoje me pergunto qual teria sido.
      Eu não lembrava dela, mas ela insistiu em dizer que em algum momento de nossas vidas a gente tinha estudado juntas. Pode que tenha sido distração minha, nunca tinha prestado atenção nas coisas que eu encontrara dentro das salas de aulas até que cheguei na faculdade. Ela devia ser mais uma que sentava no oposto, no outro extremo da sala pintada de amarelo que diziam estimular o raciocínio, o que não funcionou comigo. Me envergonhei em perceber que ela sabia grande parte de mim e eu não sabia nada dela, me senti estranha, logo eu que me reservava para mim mesma, como podia estar tão exposta dentro da minha falta de interesse? Mas parecia que meu corpo vazio de qualquer sentido a interessava.
    Durante toda a festa ela esteve comigo, tentando me fazer lembrar que ela também já tinha existido para mim anteriormente, mas fui incapaz porque toda vez que eu fazia a cara de quem não sabe do que se está conversando ela sorria, achava graça do vermelho das minhas bochechas. Era impossível que ela tenha um dia estado comigo no mesmo espaço geográfico sem que eu tenha reparado naquele sorriso, seu bonito rosto quase perdia importância para os meus olhos quando ela me deixava ver seus dentes escondidos nos lábios finos. Seu sorrir tinha mudado ou era eu que tinha aprendido a reparar na beleza do enrugar do rosto quando a alma sorri? Eu nem tentei lembrar, não me procupei em revirar minhas lembraças para encontrá-la porque ela já estava ali comigo. Eu gostei tanto de ouvir a sua voz e de admirar o seu sorriso que eu tinha até esquecido que em um primeiro momento eu a tinha desejado.
     O que parecia improvável aconteceu, eu desejei passar a noite naquela cidade, desejei estar ali por mais algum tempo, mas eu não pude, a viagem era longa e eu tinha que seguir. Antes que a noite clareasse eu tinha que ligar o motor do carro e partir, me despedi com muito pesar daquele sorriso. Antes de dar as costas para ela a pedi que viesse me visitar algum dia, dei até meu endereço na esperança de um sim verdadeiro por parte dela, o sim veio mas já a sinceridade eu não tinha muita certeza, ela chegou a falar que talvez na semana seguinte chegaria de surpresa trazendo uma foto antiga da nossa infância. E eu com um pouco de sono fingi acreditar.
     Quando eu cheguei em casa não demorei para esquecer tudo o que tinha passado, exceto o sorriso, não saiu da minha cabeça. Eu até queria acreditar que ela chegaria com a foto, para eu ver se eu levava na minha cara de criança a inocência de não perceber tal beleza, ou se ela levava no rosto o sorriso escondido, guardado para outras ocasiões. Não acreditei que viria, mas veio, não ela, mas uma carta com seu nome e só uma coisa dentro, uma foto em que outrora eu era menor, encolhida dentro de mim mesma. Fiquei tanto tempo me observando na foto que não percebi o abraço que eu tinha em meus ombros, era ela irreconhecível, ignorando a foto e rindo, olhando para mim. Ela me ofereceu antes esses lábios em movimento e eu realmente não lembrava, ela tinha razão o tempo todo quando dizia que eu era distraída demais para dar atenção aos pequenos detalhes que ela expunha só para mim. Vi que a foto estava marcada, um relevo que indicava palavras no verso da imagem, virei para ler e em palavras borradas pelo envelope eu li “espero que você se lembre agora, porque eu nunca vou esquecer dessa época.”
     Essa época… que época foi essa que se apagou da minha memória? Apagou uma parte de mim que talvez antes não me era importante, mas agora sim.  Procurei em minhas próprias fotos encontrar a resposta, eu sabia exatamente o que eu fazia e quem eu era naquela época, mas eu realmente não sabia o que ela fazia, nem quem era ela.
       Eu respondi a carta, e muitas outras que vieram. E atendi os telefonemas e disquei muitas vezes também. Demorei bastante para voltar para aquela cidade apertada no meio do nada, mas quando fui passei a noite, amanheci com o sorriso do lado e pude então sorrir, porque ver aqueles olhos olhando dentro dos meus e aqueles lábios me sorrindo enquanto se aproximava para um beijo, me fizeram então lembrar que aquela mulher que eu tinha ao meu lado tinha sido a menina que um dia me sorriu aquele sorriso quando eu perdi minha primeira namorada, era ela, e eu não tinha percebido, era ela quem chorou quando eu virei as costas e vim embora. E por mais que me doa, agora mais em mim do que nela, vou ter que voltar a dar as costas.
      Agora sou outra vez distante, encolhida dentro de mim mesma, mas não mais por medo, mas simplismente porque cada vez que eu olho para dentro de mim e me escondo ali, estou vendo de olhos fechados o sorriso que me faz sorrir.

01/05/2010

Frágil conhecido

        

       O cigarro queimava sozinho ao meu lado enquanto eu ficava simplismente deitada no sofá, a fumaça que subia ia se dissipando, se misturando com o ar que eu expirava, parecia dança de ator que faz de monólogo musical, em teatro vazio que faz sua música no eco do sapateado no assoalho de madeira, e quando acaba sua força disperça seu corpo no chão para enfim inspirar para encher outra vez de ar o pulmão. Eu estava como figurante da minha própria história porque não acordei disposta a assumir o papel principal, era eu quem fazia companhia para o cigarro que sozinho enchia todo o quarto, fechei as cortinas para que o sol brilhasse sem mim nesse dia de verão.
      A fragilidade daquela fumaça a fazia mais bonita que as próprias nuvens que eu via do outro lado do vidro da janela, cheguei a pensar que era como eu, me vi flutuar e me perder no meio no meu próprio ar, mas talvez eu não quisesse ser aquele fio branco que saia da sujeira ao meu lado, porque daquilo eu só conhecia mesmo era a beleza e a fraqueza que transparecia, e eu, eu era como livro aberto para mim mesma, me conhecia como quem decora as falas do seu filme preferido, como quem já percorreu todos os caminhos escritos na palma da mão.
      A xícara de café já frio impreguinava e completava o vazio do quarto em que eu me perdi no insuportável cheiro de melancolia e nostalgia. Não era domingo, mas parecia. Não era solidão, mas eu estava só. Minha cabeça doía, meus olhos eu não sabia se estavam melhor abertos ou fechados não entendi o que meu corpo pedia, nem mesmo prestei devida atenção se ele estava em coêrencia com o que eu sentia ou se estava ajustado ao latejar do novo dia. Por alguns momentos quando tentava acordar, no meu quase abrir de pálpebra, fui desconexão, não me encaixando em mim mesma me assustei, foi só então que pude levantar.
      Não entendi, nem só por um momento, nem mesmo em lapso repentino de memória ou explicação o real motivo de tal desânimo que me impediu de tragar a fumaça branca e o caldo negro. Teria eu perdido alguma página do livro da minha vida? Me distrai? Me esqueci? Sei que na noite passado fui sujeito e objeto do meu próprio desvendar, em fotos antigas e em cantigas de folclore que eu costumava dançar eu reli a história tantas vezes lida sem ao final conseguir escrever nem mais um parágrafo, nem ao menos falar nenhum outro travessão.
      Parei, abri parênteses. Dei uma pausa na música para escutar o um minuto de silêncio. Então levantei, levantei primeiro que o sol, me vesti antes mesmo de abrir os olhos. Não sacudi a poeira no esticar sonolento dos meus músculos, porque a poeira não estava em mim. Tentei em vão abrir aspas e cantar, mas tampouco tive o que dizer, não me veio à cabeça nenhuma música que resumia a situação. Acho que nem mesmo veio alguma outra música, só o vazio da falta de voz. Caminhei com preguiça pelos corredores dessa casa, procurando achar o meu lugar, sentei em outros sofás, nos cantos e nas beiras. Sentei de um lado e depois do outro na mesa. Deitei no tapete e ainda que na dureza do chão eu senti minhas costas doendo eu me senti confortável. Um confortável incômodo, pelo estranhamento de ter decidido deitar ali.
      Escutei a porta se abrir ao meu lado, eu sabia que era ela voltando de viagem e por isso não movi nenhum milímetro da minha posição para averiguar se realmente era quem eu pensava ser, escutei as rodinhas das malas deslizando pelo chão junto com os passos marcados pelos sapatos que ela rapidamente deixou ao lado da porta, e então a meia contato com o chão gelado fez voltar o silêncio. Escutei a porta se fechando e fechei os olhos como quem evita conversa inevitável, eu simplismente não queria explicar minha súbita vontade de deitar em outro lugar, até porque nem eu mesma entendia.
      Eu esperei de olhos fechados o começo do que seria provávelmente uma curta conversa, esperei mas não escutei nenhuma palavra. Abri os olhos em susto de quem acha que perdeu o que em poucos segundos antes estava exatamente na frente do nariz. Ela, em seu silêncio curioso que respeita o silêncio alheio que já impõe seu respeito, estava deitando ao meu lado, sem pronunciar nem sequer um ruído ela beijou de leve meus lábios e virou seu rosto apontando seus olhos para o teto, como quem diz que eu podia voltar a fazer o que eu fazia antes dela interromper.
       Uma imensa sensação de bem-estar invadiu cada entranha do meu corpo jogado, mesmo sem entender a atitude dela eu voltei para onde eu estava quando a casa ainda significava vazio. Ficamos ali como quem lê um livro, sozinhas e ao mesmo tempo em companhia. Ficamos ali até o corpo falar mais alto que a mente, e ainda que os pensamentos estivessem anestesiando a dor corporal, já não era suportável ver que ao meu lado ela sofria.
       Me virei, olhei para ela. Ao me ver ela sorriu como quem se alegra por enfim poder dar um beijo que a sudade antes tinha privado. E mesmo querendo muito o beijo ela esperou, dentro do abraço, que eu a beijasse. Ao soltar aquele frágil corpo eu a olhei nos olhos e com eles eu sorri, a beijei só quando pude ver nas linhas do seu rosto o quanto ela estava feliz por estar em casa. Levantei devagar e me senti no chão com as costas na parede fria, tinha ficado tanto tempo ali que não fui capaz de sustentar meu corpo em minhas pernas, ela continuou deitada, me acompanhando com o olhar.
       Peguei no bolso a amaçada caixinha de cigarros, peguei um e com meus lábios secos o segurei em minha boca enquento procurava qualquer coisa que pudesse fazer daquele cigarro inanimado uma fogueira. Ela se aproximou olhando fixamente meus olhos, pegou a caixinha amaçada e o que estava em minha boca, quebrou com delicadesa o meu vício diante dos meus olhos, e levantou dizendo que me prepararia um chá. Fiquei estática, surpreendida, e ao me encontrar outra vez sozinha na sala me senti perdida. Levantei e fui atrás dela, ajudar a preparar o café e ainda que em mim faltasse vestígios de fome eu queria sentar na mesa ao seu lado e descansar meu ser olhando o seu ser e o seu estar.
       Como se os olhos fechados conversassem e as bocas se olhasem ficamos caladas enquanto o chá esfriava e o bolo se partia em migalhas. E em migalhas também se desfez o começo do dia, que aos poucos foi diluído pelo sorriso dela que me fez lembrar que eu não estava só, porque ela sabia me ouvir mesmo quando eu não queria falar.

13/04/2010

Sexta-feira







       Hoje é sexta-feira, dia de dedicar toda a minha noite a escutar Jazz num bar meio retrô no centro da cidade, voltar pra casa meio bêbada, dormir sozinha e só levantar quando o corpo começar a reclamar.


       Sai do trabalho e fui direto pra lá. Meu pedido de vinho tinto já virou simples “boa noite” para o garçom que vinha com a taça cheia após poucos momentos de eu me jogar numa cadeira meio sofá no canto mais afastado e com melhor vista para o pequeno palco que sustentava com certa dificuldade o grande piano e os músicos que o rodeavam. A banda de hoje eu não conhecia, no papel um nome que eu não sabia, e preferi não tentar, pronunciar. A luz fraca e as vozes baixas pareciam fazer parte inseparável do show que demorou a começar.
       A banda entrou quase sem fazer barulho quando me dei conta já estavam todos em seus devidos lugares, a moça loira em pé em frente ao microfone e toda sua banda de meninos com cara de recém maiores de idade. Pareciam banda de rock perdida em melancolia em dia de tocar suas melhores baladas. Destruíram qualquer conceito premeditado no primeiro acorde suave que veio acompanhado com o sopro leve do sax e que logo foi seguido pelos outros integrantes, a voz veio por último e quando chegou me fez entender o difícil nome da banda. Um francês cantado com os olhos fechados que embalou um sentimento de total nostalgia dentro de mim, uma melodia quase tátil, em perfeita sincronia, parecia se encaixar com o ritmo das batidas dos meus sentimentos.
      Percebi que estava quase em transe quando fui interrompida pelo garçom que trazia pra mim um guardanapo rabiscado e mais uma taça de vinho dizendo que a moça da mesa 1 mandou entregar, agradeci, joguei o papel na mesa e tomei um gole para voltar ao estado que estava antes, só abri o bilhete quando a música acabou e a banda parou para um café, li aquela letra quase desenhada onde dizia, em uma frase clichê, que eu não devia estar sozinha naquela noite tão bonita, joguei outra vez o papel na mesa só que dessa vez amassado e voltei para meu lugar esperando outra vez o show começar. Cinco músicas passaram até o agradecimento em um português aprendido de última hora, comecei a recolher minhas coisas para voltar para casa quando uma mulher, irreconhecível pela falta de luz, sentou ao meu lado, me olhou e afirmou “você não mudou nada, continua me ignorando”. Curiosa, me aproximei ao seu rosto forçando a vista para identificá-la, e quando seus traços marcaram um perfeito contraste com a luz meu coração quase parou, por um momento me vi sem ar. Ela olhou nos meus olhos, ignorou meu evidente nervosismo e perguntou “você já está indo embora? Queria conversar.” Voltei a colocar a bolsa onde estava e tomei fôlego para começar a falar, mas fui incapaz.
      Ela viu que da minha boca não ia sair muito mais que suspiros de incredulidade e cansaço, por muito tempo continuei estática, queria dizer alguma coisa, mas não fui capaz, não sabia o que dizer, ela era por exelência a última pessoa que eu esperava encontrar naquele lugar, porque a última vez que a gente se viu era como essa cena repetida no passado, mas da última vez ela estava desocupando o lugar ao meu lado, não o preenchendo.
     Quando o clima começou a ser de constrangimento para ambas partes ela olhou nos meus olhos se desculpou e falou que tinha sido um erro ter impedido minha saída daquela mesa, e antes que ela pudesse terminar de levantar eu disse palavras que saíram por vontade própria “você disse que nunca mais voltaria a me procurar, por que isso agora?”. Ela notavelmente não estava esperando que eu a dirigisse a palavra, então olhou para mim com um olhar curioso e voltou a sentar ao meu lado. E agora quem tinha ficado muda era ela, eu não insisti e voltei minha atenção para taça pela metade em cima da mesa, olhei também o papel amassado e me perdi em lembranças, que eu sinceramente não queria lembrar.  Ela me lembrava bons e maus momentos, foi minha primeira e única mulher, meu primeiro e único amor, depois dela só me interessava o jazz e o vinho no fim da semana, minha casa com seu retrato ao lado da cama. Mas não, eu não podia recair, não outra vez.
      Somente quando minha taça manchada estava vazia que eu escutei outra vez sua voz, parecia envergonhada, parecia que minha pergunta tinha mexido com alguma coisa dentro dela. Ela outra vez voltou a me encarar, e olhando dentro dos meus olhos falou que queria voltar, que sabia que aquele era meu lugar preferido e que por isso tinha vindo essa noite me procurar.
     O ambiente voltou a ter música, agora de algum CD gravado, baladas que deixavam o clima ainda mais constrangedor. De repente, como se já não bastasse, começa a tocar a música, a nossa música. Parecia inacreditável, fiquei perplexa, isso só acontece comigo. Não sabia se era eu ou o álcool fazendo efeito, mas eu não podia mais suportar. Peguei a carteira dentro da bolsa e deixei o dinheiro debaixo da taça vazia, que pouco a pouco foi manchando de vermelho as notas ali debaixo, ela levantou-se comigo e quando eu virei para me despedir ela me abraçou e ao meu ouvido disse: “me permita ao menos uma última dança.”
     O garçom que já era amigo, me vendo ali foi em minha direção e eu achando que ele me ia tirar dessa situação o único que ele me tirou foi a bolsa, a pegou de minhas mãos e me piscou um olho, não tive coragem de dizer não e a abracei como nossa primeira vez, ela deitou sua cabeça no meu ombro e eu deitei a minha no seu. Meu coração batia tão forte que tive medo de que ela pudesse sentir com o contato de nossos corpos. Eu a desejava, mas não queria voltar a amá-la como antes, uma dança a luz fraca com a nossa música não significava que dessa vez seria para sempre, que dessa vez eu não me machucaria.  Como eu a desejava, e eu não podia deixar de desejar, mas não podia, não podia seguir com esse aperto no peito que tanto tempo me custou para superar.
     A música por fim tinha acabado e o que eu achava que tinha chegado ao seu fim, na verdade estava começando, não era culpa dela, que ao acabar o último acorde me soltou deixando-me livre para ir, mas eram meus braços que, ainda que a tivessem soltado, não queriam se separar daquele corpo. Peguei minha bolsa e fui em direção a porta, pegar um táxi para enfim ir para casa, ela como sempre fazia me acompanhou até a saída, foi ela quem chamou o táxi, e ela quem abriu a porta do carro para que eu pudesse entrar, sem nenhuma palavra me sorriu um sorriso que eu senti que era de despedida, eu retribuí o sorriso e fui embora dentro do carro. Pelo retrovisor eu vi que ela continuou ali parada, parecia esperar que o carro deixasse de ser visível para que pudesse então partir.
     Antes que isso acontecesse eu pedi para que o motorista parasse o carro, estacionasse em qualquer canto. Ele obedeceu, e eu sai do carro e de longe lhe sorri, ela veio andando quase correndo e ao chegar em mim ela parou, parou na minha frente sem saber exatamente o que fazer, sem saber exatamente o que eu queria que ela fizesse. Então eu fiz o que meu instinto me mandou fazer, a abracei e a convidei para ir comigo, entrar no táxi e começar outra vez o que a gente ainda não tinha acabado.

09/04/2010

Vem











      
       As malas estavam já posicionadas na porta, depois de muitas horas de decisão de o que levaria consigo e o que deixaria para trás, antes de trancar as portas e deixar a casa ela deu uma última verificada nas chaves dentro da bolsa, olhou mais uma vez a passagem, os endereços marcados para quando chegasse, ligou para o táxi e saiu para esperar nas escadas da entrada, sentou no primeiro degrau e apoiou o rosto na mala que antes tinha colocado na sua frente, pegou o óculos e começou a reler todas aquelas letras pequenas desenhadas num pequeno papel que lhe havia chegado por correio. Já sabia de cor todas as referências e telefones da carta, e mesmo sabendo que não precisaria de nenhum deles leu e releu, não por interiorizar, mas sim para adimirar aquelas letras que tantas lembranças traziam, e que sabia que de agora em diante poucos desses desenhos legíveis seria escrito para ela.

      Ela estava tão distraída com o pequeno papel em sua mão que nem se deu conta que o táxi já estava parado em frente ao seu portão, o senhor que dirigia o antigo carro saiu para ajudar com as malas, e mesmo tendo bastante idade falou que ela fosse sentando que ele mesmo colocaria tudo na mala para ela. Obedeceu, sentou no banco da frente mesmo, tinha o raro prazer de fazer companhia aos motoristas de táxi, achava que eles mereciam um descanso das almas solitárias que sem pronunciar uma só palavra atravessavam a cidade, ela gostava de deixar algo mais que o dinheiro, ela gostava de deixar também um sorriso.
    A viagem até o aeroporto passou bem rápido, mal pôde acreditar quando viu a grande construção se aproximando, não era a primeira vez que voava, mas com certeza era a primeira vez que tinha na passagem marcada somente a ida. Não sabia exatamente quando duraria o vôo, mas sabia que não importasse quanto passasse no relógio, nunca seria maior que o tempo que ela esteve esperando por isso.
    Quando o avião começou a descer, naquela tarde em que o sol preenchia sozinho todo o céu, ela entendeu então o porquê que todos chamavam o Rio de cidade maravilhosa, entendeu por fim a necessidade que teve Tom Jobim de escrever o samba do avião. Felicidade igual aquela nunca tinha sentido, quando o avião tocou o chão ela sentiu-se chegando no céu, irônica sensação de encostar a terra e as estrelas no mesmo instante, sentiu-se grande e leve.
     Sem pressa foi pegando suas malas, sabia que não a estariam esperando, que ela mesma sozinha teria que encontrar seu caminho. Colocou os fones no ouvido e saiu no meio da multidão sem olhar para ninguém ali presente, andava devagar e de repente seu carrinho se pára e ela sem entender, já pronta para tentar não se estressar com o indivíduo que estava em seu caminho, ela levantou a cabeça e como o sol seus olhos brilharam e na mesma intensidade seu coração acelerou.
      A mulher que tirava os fones de seus ouvidos enquanto lhe dava um curto beijo pronunciou dentro do abraço: “você achou mesmo que eu não viria te buscar?”. Ela inocente concordou com a cabeça, demorou um pouco até entrar na realidade e beijar a mulher que estava parada ali na sua frente esperando alguma reação, com um sorriso de quem acha linda a cara de desconcerto da mulher.
      Ela, que não estava esperando por isso, simplimente calou, tudo o que queria dizer ela disse com os olhos, com o corpo, com o sorriso incosciente que transmitia a cada passo ao lado da mulher que empurrava seu carrinho, com suas poucas malas. Ao chegar no carro estacionado as duas pararam uma de frente para outra, sabiam que estavam sozinhas e que o beijo preso na garganta e no peito não podia mais esperar. Se entregaram por breves momentos, não durou muito o beijo que ela deu, mas o abraço, esse sim foi bem demorado. Pareciam estar regulando os corpos, deixando que os corações entrassem em compasso depois de tanto tempo batendo desregulado.
       Entraram no carro em extremo silêncio, cada uma perdida em seus próprios pensamentos, as duas sorrindo sem nem mesmo perceber. Olhando com um olhar que encara sem timidez ela estava totalmente virada olhando cada detalhe daquela que lutava para não desviar os olhos muito tempo do trânsito. Nunca na vida tinha apreciado tanto os sinais vermelhos nessas ruas abarrotadas de fim de tarde.
      Ela vendo que talvez fosse demorar para realmente chegar na sua nova casa, que não era nem um pouco desconhecida, encostou a cabeça no estofado do banco do carro, abriu a janela e fechou os olhos sentindo o vento invadir o carro e seu rosto, como um movimento involuntário estendeu a mão e acariciou as pernas da mulher que estava ao seu lado. Totalmente entregue ao vento e as pernas, quase adormeceu. Estava em paz. Voltou a encarar a mulher que dirigia, ainda com a mão em sua perna, se aproximou do rosto que olhava para frente com veemência beijou seu rosto com um leve encostar de lábios e pele, deixou sua mão escorregar pela perna que se movimentava com o passar de marchas, freios e idas, repousou seus dedos na virilha da mulher que imediatamente, ao sentir aqueles dedos, olhou de rabo de olho para a que estava de carona e falou voltando a olhar para frente “você gosta mesmo de me provocar né?”. Ela envergonhou, não tinha sentido que, com seu tocar, tinha estimulado vontades quardadas, desejos contidos. Ela que antes não tinha a intensão, agora fazia de propósito. Para provocar como tinha escutado antes.
      Quando finalmente ela pisou no apartamento de portas deixadas abertas, ela sentiu-se estranha, demorou algum tempo para sentir que aquele chão que agora sustetaria seu passo era realmente um lar, não mais só visita. Estava parada em pé, em cima do tapete da entrada, quando escutou uma inocente risada nas suas costas que veio acompanhada por um abraço, braços que se juntaram com todo o corpo e a protegeu de qualquer medo que podia vir a apresentar, ou que já estivesse temendo. Sorriu aliviada ao sentir aquele contato em seu coagido corpo.
      As malas ficaram jogadas na sala, ela não teve pressa, nem vontade de abrir e desvendar o conhecido mundo que trazia consigo. Queria era deitar, descansar seu corpo nos ombros que já estavam preparados para ela, somente para ela e seu sorriso. Entrou ignorando a casa estranhamente bem arrumada, passou direto pela cozinha de louças lavadas por completo, se esparramou na cama arrumada como nunca antes tinha visto. Não demorou muito para sentir ao seu lado outro corpo desarrumando o lençol engomado, virou e beijou o rosto que por estar já com os olhos fechados, parecia estar esperando por aquele contato.
       A saudade era grande, imensa, mas os atos que desenhavam o dançar de abraços e carinhos era calmo, quase tranquilo. A respiração dela e a que não a pertencia mas mesmo assim respirava devido a proximidade dos rostos, era calma ainda que irregular. Já estavam juntas a tanto tempo, mas aquele olhos nos olhos foi como primeiro beijo onde cada um dos donos dos lábios que se encontram estivessem apaixonados um pelo outro a muito tempo sem que nunca tivessem tido a chance de se encontrar.
       Ela fechou os olhos e o corpo, se sentiu como quem se joga do mais belo precipício só para voar, provando que as leis da física somente são aplicáveis ao corpo, jamais se aplica para as almas livres e sonhadoras. Ela se entregou inteira, com a certeza que seria feliz, que já era feliz por estar ali voando com as borboletas em seu estômago.

30/03/2010

Ser maior

 
      “Você sempre achou que precisava de mais, sem se preocupar em olhar para o lado e ver que talvez já tivesse tudo, que o que viesse depois de tudo isso seria só capricho, vontades de mostrar para os outros que, por pertencer a uma minoria, você era maior, maior que tudo o que um dia alguém achou que você poderia chegar a ser.” Essas foram as últimas palavras que ela disse para mim olhando nos meus olhos antes de bater a porta que ela tinha deixado aberta ao sair. Palavras essas que foram um tapa na cara para mim, eu realmente queria ser maior, mas eu não sabia que tinha feito disso um muro que não me deixasse vê-la do outro lado da cama, do outro lado da mesa onde, em muitas ocasiões neguei velas acesas.

      Demorei um pouco para agir, fiquei tão assustada com o seu repentino comportamento que perdi meu senso de realidade, e quando eu resolvi descer as escadas correndo já era tarde, ela não estava mais lá, não sei nem como foi embora, se já tinha premeditado a partida e chamado um táxi ou se estaria ali alguém esperando por ela. Não entendi muito bem, mas a deixei ir. Ela ainda era amor novo, eu gostava dela, mas parecia que ela me amava.


       Uma vez na rua eu não senti vontade de voltar para casa, não tinham muitas lembraças nossas naquele apertamento, mas eu sabia que o cheiro do seu perfume ainda impreginava o corredor e a sala de estar. Caminhei pela pequena praça do bairro e de longe vi uma livraria, senti curiosidade de saber qual era a história do livro que aquela menina que tinha acabado de me deixar gostava tanto, ela lia e relia, me comentava trechos, mas nunca chegou a me contar o final. Fui até lá e comprei, entrei ignorando todas as estantes da loja, cheguei no caixa e pedi o livro por nome, autor e editora. E saí com a sacola na mão outra vez ignorando tudo o que ali dentro tinha.


       Já era quase noite e eu pensei que com a brisa leve que soprava o perfume doce já teria desaparecido de casa, então fui andando até alcançar o grande portão de metal do prédio, como sempre faço passei direto pelo porteiro comprimentando somente com um movimento de cabeça, mas ele veio atrás de mim, falando que a menina que antes havia descido tinha passado outra vez por ali perguntando por mim, e como eu não estava ela tinha deixado um papel rasgado com alguns rabiscos escritos. De princípio tive medo de abrir, mas quando entrei, quando cheguei na sala, percebi que o vento o único que tinha feito tinha sido espalhar aquele cheiro. Sentei na rede na pequena varanda dos fundos e abri o bilhete e o livro. Comecei pelo papel rasgado que com letras borradas de caneta que falha e lágrima que cai dizia que ela estava realmente indo para tentar nunca mais voltar, que tinha deixado ali junto comigo todo seu coração e que sem mim aprenderia a viver sem ele. Abri o livro em qualquer página e ali dentro repousei o bilhete, seu amor seria meu marca página. Voltei a fechar aquelas finas e leves folhas e peguei o celular que estava no meu bolso. Disquei seu número e permaneci com o telefone no ouvido até cair na caixa postal, de alguma forma sabia que ela estava lá do outro lado, simplismente não queria ouvir minha voz, sabia como eu que eu não tinha nada a dizer.


       Já sentia saudade, confesso. Talvez a falta da presença dela ali que me era estranho, era de um raro silêncio tudo aquilo, porque quando estava ela, era música cantada, tocada e dançada, e quando o silêncio pairava sobre nós ela ria, gargalhava, falava que o silêncio é somente habitat para os tristes, para os que não sabiam realmente enxergar a beleza de cada pequeno detalhe do que nos rodeia. Ela ria de mim quando eu dizia que as pessoas tinham medo do silêncio, que ele por ser um vazio imcomodava os que não eram completos. O silêncio era a nossa mais profunda discordância, era discusão interminável sem brigas, só pensamentos ao vento, uma ignorando e amando o ponto de vista da outra sem nunca ninguém mudar de lado.


       Confesso também que pensei em outra vez discar os números, mas resolvi não insistir. A brisa tinha se transformado em vento que fazia o livro ao meu lado abrir sozinho, pedindo para ser lido. Peguei meus trapos pendurados no varal, o livro e minha solidão e levei tudo para dentro de casa, fechei as portas e janelas. A muito eu já morava sozinha, mas somente agora eu me sentia como tal, tive preguiça de cozinhar somente para mim, ignorei o dvd alugado que estava em cima da mesa, exatamente pelo motivo de não ter com quem dividir a pipoca, não ter com quem compartilhar o copo gigante de refrigerante. Deitei na cama, simplismente como sempre faço, olhando o teto como quem olha o céu, me perdi na brancura da tinta da parede e me assustei quando escutei uma música vindo não sei de onde. Levantei e olhei para os quatro cantos do meu quarto e percebi que a música vinha do meu bolso, eu não conhecia a melodia e quando vi a luz acesa do telefone celular pensei “ela, outra vez, trocou o toque. Já era de se imaginar.” Era sua música quebrando meu silêncio. Eu tinha demorado tanto para encontrar a origem do som que atendi antes que desligassem.


       Escutei sua voz do outro lado, nada mais que um simples “oi”, eu permaneci calada e ela ausente. Depois de um longo nada, eu disse “volta?” e ela me respondeu “não sei se posso”, outra vez um nada, dessa vez foi ela quem começou a falar no espaço vazio de nossas vozes “muda?” e eu respondi “não sei se consigo”. Ela falou “me conta como foi seu dia, para que talvez eu sonhe com você essa noite”. Repondi “Comprei o livro que você gosta, ainda não comecei a ler porque, por primeira vez, tive medo do silêncio.”. Ela “você não percebe? Você foi hoje tudo o que eu queria que você tivesse sido durante todo esse tempo que estivemos juntas. Você comprou o livro que eu gosto mesmo não gostando de ler, você assumiu seu medo, e aposto (risos irônicos) que você nem se importou com a música brega tocando no seu celular.”. Eu “é verdade, eu não me importei. Mas fico feliz de saber que você também a considera brega (eu ri, sem a opção de me controlar)”. Voltei a dizer “volta?” e complementei a frase dizendo “volta que o silêncio já me enguliu e eu ainda tenho todo um livro para ler, enquanto eu descubro a história que te faz tão feliz eu prometo fazer você feliz sem que você precise ler nenhuma palavra do meu livro que agora coloco sobre minha cabeceira.” Ela respondeu “talvez amanhã, outro dia.”


       Eu sabia que ela não voltaria, senti em suas palavras que ela já tinha se conformado e percebi em minhas palavras que eu ainda não tinha me adaptado a dividir minha vida com alguém, embora eu sabia que estava disposta a tentar com ela. Foi tudo uma questão de desencontro, ela deixou de me amar quando eu comecei a amá-la. Ela foi embora, eu sei, antes que não sobrasse nada de mim dentro dela, sabia que ela queria quardar o melhor de mim antes que eu não fosse mais capaz de dar o melhor para ela. E ela deixou comigo o meu amor por ela, o amor dela e uma tal música brega que eu não tive coragem de mudar.