
Alguns dias depois do decadente natal em família em que cada um dos presentes estavam claramente desejando estar em outro lugar com outras pessoas ou até mesmo dormindo, ignorando de forma natural o falso papai noel infantil ou a gula dos mais avantajados no que se refere idade, a jovem moça recém saída de casa devido a faculdade consegue voltar para sua solitária casa, fugindo das saudades da mãe e das preocupações e conselhos do pai – já ouvidas e anotadas milhões de vezes antes. Quatro horas de viagem até o recanto calmo e silencioso do lar, que estava a somente a 20 minutos da faculdade; voltou contente quase sorrindo para a bagunça que talvez nunca fosse admitida na casa dos pais, para a loça meio lavada, o sapato debaixo da cama, o lixo por descer, voltou para a cama nunca engomada e para a roupa amarrotada nas gavetas. O frio do lugar a muito tempo vazio se fez notar ao simples abrir das portas da sala, a poeira fina acumulada em cima dos poucos móveis dava um certo ar fantasmagórico e a impressão de abandono. O gato do vizinho vinha em busca de carinho se entrelaçando em suas pernas e fazendo-a tropessar e depois deita no sofá esperando em um pseudo sono a companhia da cansada menina que acabava de chegar. Passou pela poeira e pelo vento como quem não nota nada de diferente no ambiente, atravessou o corredor sem nem mesmo olhar para os estranho quadros pendurados nas paredes brancas, desenhos feitos em dias de tédio e solidão, enquadrados como obras de arte sem valor algum. Chegou em seu quarto e não se preocupou nem em acender a luz, simplesmente abriu a porta e depejou lá dentro a grande mochila, deu meia volta e foi em direção a cozinha, passando pela sala acariciou o preguiçoso gato que ao sentir as mãos passando sobre seus pelos negros miou um bocejo calmo, abriu a geladeira com a esperança de encontrar qualquer coisa comestível e que ainda estivesse dentro do prazo de validade, nada. A mesma tentativa frustada de matar a fome a fez vasculhar os armários e denovo nada. Por um momento sentiu falta da casa que tinha acabado de deixar para trás, por um momento realmente curto, ao encontrar dinheiro no pode de maionese vazio agradeceu por estar em casa outra vez. Desceu as escadas do prédio e foi no mercadinho que ficava ao lado, comprou coisas bem “não natalinas” como os tipicos salgadinhos de milho da Elma Chips, qualquer coisa congelada e refrigerante. Com o gato deitado em seu colo e uma vasilha na mesinha de centro com suas besteiras comestíveis pegou o controle da pequena televisão e foi trocando de canal em busca de algum filme descente de se ver, acabou parando na típica programação global de fim de ano, mas ao escutar as palavras cantadas com as vozes conhecidas “hoje a festa é nossa blablabla...” trocou novamente o canal e acabou por escolher o canal religioso com a imagem da queda do lider católico atual, e chegou a esboçar um sorriso tímido com a cena que se repetia e repetia em distintos ângulos. E passada algumas horas de puro nada o que fazer adormeceu. Seu corpo torto no sofá deixava um grande espaço para o gato quase seu, às vezes se mexia devagar e expressava caras e sonhos e pesadelos, só despertou da posição incômoda quando a luz tinha se ausentado por completo das janelas abertas e o velho telefone começou a tocar insesantemente. Levantou e colocou o telefone no ouvido e esperou escutar o outro, sua mãe que parecia ainda não ter matado a saudade por completo e chorou. Depois de tantos minutos, quase intermináveis, desligou o telefone com o dedo mantendo-o na altura do seu rosto, apertou o botão criando coragem para digitar algum número previamente decorado, mas nunca digitado antes. Colocou o aparelho no lugar porque a coragem que tentava reunir durante alguns poucos segundos não foi assim tão suficiente. Madrugada marcada no relógio, TV susurrando alguma coisa desinteressante, já era hora e ir para o quarto, fingir arrumar a mochila e ligar o computador. Ao entrar no quarto teve a mesma sensação ao entrar em casa pela tarde, o mesmo vento (agora mais gelado) e o mesmo ar melancólico de solidão. Dentro da escuridão uma luzinha destacou dentro da mochila. Fazendo-a transparente, o celular abandonado lá dentro indicava algumas ligações perdidas e uma mensagem, as ligações sabia que era da sua mãe que lhe havia avisado no telefone, a mensagem ela não sabia de quem era, um número estranho que a única coisa que ela podia deduzir era que era de alguém da mesma cidae. Como todo ser humano não resiste a curiosidade ela abriu e leu exatas palavras “pensei em te ligar, mas tive medo de ouvir sua voz do outro lado ou talvez eu não tivesse mesmo nada para falar. Feliz Natal!”. Depois de ler gastou um bom tempo tentando adivinhar o autor de tal mensagem, imaginou por alguns instantes que seria seu amor platônico transformando-se em real, mas logo lembrou que não reconhecia o número e desabou. Deitou na cama sem nenhum vestígio de sono, e escutando a fraca chuva que começava a cair contemplou a mensagem até o dia chegar. O sol brilhando lá fora, mais um dia para começar, levantou e pegou um copo de leite gelado e em uma pequena tigela colocou o alimento do pequeno gato que não tardaria em chegar, olhou o telefone na mesinha enquanto ia em direção a janela espionar o mundo, passou direto mas seu pensamento continuou ali, parado pensando nos números quase decorados da noite passada. Debrussada na janela com sua caneca pegou o celular e abriu a mensagem, não para ler, mas para responder. Com poucas palavras pediu que o misterioso autor ligasse mesmo que não tivesse nada a dizer, porque ela tampouco saberia o que falar e que talvez os silêncios se entedessem entre eles. Passados não mais que cinco minutos o telefone em sua mão começa a vibrar e tocar uma música barulhenta, saltou em um susto rápido, sem pensar e com o coração na boca apertou o botão verde:
- Alô?!
Uma voz oscilante e insegura, com palavras ditas rápidas e lentamente, a respiração que era possível ouvir com claridade disse:
- Olá, acabei de receber a sua mensagem, e revolvi ligar. Tô um período a mais que você na faculdade e não acredito que você me conheça, bem... talvez de vista, não sei.
- Não precisa se explicar, reconheci sua voz.
- O que eu tenho para falar é que eu me apaixonei pelo seu jeito solitário, pelo seu sorriso de fim de aula... tamanho é meu constrangimento que é melhor disser logo antes que eu desligue de tanta vergonha. – silêncio – Bem, eu só queria perguntar se você tem planos para o reveillon, a residência da faculdade está às moscas e... não sei, seria ótimo virar o ano com você. - silêncio – Talvez você agora esteja me achando uma louca, mas eu não poderia virar esse ano sem cumprir o objetivo que eu traçei ano passado.
- Por que não vem você para minha casa? Aqui não é proibido fazer festa. Você sabe onde fica?
- Sei...
- Perfeito, te espero dia 31! Beijo
Desligou o telefone sem acreditar muito no que tinha acabado de acontecer, era ela! Era ela! Seu plâtonico tinha acabado de se declarar. Ficou tão feliz que não foi capaz de ficar parada, precisava fazer alguma coisa, libertar a energia, a tensão rapidamente acumulada durante a ligação.
Foi para o quarto, trocou de roupa, escovou os dentes e os cabelos, saiu tropeçando nos móveis pelo caminho até chegar na porta. Chamou o gatinho e o pegou no colo, atravessou o corredor, apertou a campainha do senhor que morava em frente, quando aquela cara de barba branca envergonhada ao ver o gato em seus colos abriu a porta, ela sem exitar perguntou com um sorriso nos lábios: “Posso adotar seu gato?”. A resposta afirmativa daquele senhor fez aquele dia um dos melhores que ela poderia ter pedido de natal.