22/01/2012

ao som do quarto.


   O meu despertador acaba de marcar quatro zeros na sua limitada tela retangular, a luz está acesa fora e dentro do meu quarto, parece dia lá fora, mas não é. É a imensidão do mundo gritando sua vida pela janela, deixando o brilho sair voando pelas brechas que as cortinas não podem tapar.
   Minha alegria não extrapola nenhuma cortina branca ou preta, é tão interna que às vezes nem eu sei que está dentro de mim, se esconde como filho único que brinca com a própria sombra em dias ensolarados e olha pelo vidros da casa a chuva que escorre como lágrimas.
   Ainda falta uma hora para ela chegar, parece eterno cada tic e cada tac, esperei por tanto tempo que agora é difícil de acreditar que o que nos separa são somente minutos. Estou totalmente desconectada, tentando simplesmente não pensar no que pode ser daqui para frente, o próximo acorde é sempre incerto na minha guitarra, desafina e afina a minha vida enquanto eu canto e balanço o meu cabelo tentando ser uma rock star pro meu espelho. É tarde, eu sei. 
   É tarde demais para tentar desistir, para tentar esquecer ou voltar atrás, é tarde demais para muitas coisas e eu nem consigo explicar ou entender. A espera sempre dói e saudade sempre agüenta. O nosso amor também agüentou muito tempo, aguentou o peso insuportável da distancia e do desapego, fomos brigas e amores, fomos inimigos e amantes. A estrada esburacada da nossa história fez a gente avançar devagar e mesmo assim a gente caiu num precipício difícil de escalar.
   Minhas unhas quebraram na subida, junto com o meu coração que a perdeu quando, com a vontade desesperada de chegar ao topo, esqueceu de olhar para trás e de dar a mão e ajudar a subir quem caiu comigo. Mas eu sei que alguma coisa ficou lá embaixo, alguma coisa importante. Faltou descobrir o que a gente tinha perdido pelo caminho (e eu sabia que não tinha sido o amor).
   Estou esperando o som dos passos se aproximando, sou mãe que espera o filho na sala de emergência, enquanto ele canta as lágrimas num quarto visinho, onde o passo é restrito e o único que se pode fazer é esperar. Mas eu não quero esperar, quero chutar a porta e abraçar e proteger quem espera por mim. É loucura sentar na frente da porta? É loucura entregar a vida que se tem nas mãos de alguém?
   O relógio apitou e o som dos passos ainda não se deixam escutar do outro lado da porta. Olho pela janela esperando ver alguma sombra perambulante que entre pelo portão pesado que protege o frágil edifício com o meu frágil coração.
  Vi a incerteza nos passos dela, quase parando, duvidando se entrar ou não. Lágrimas de felicidade e tristeza desceram pelo meu rosto. Eu não podia fazer nada ante a sua indecisão, só me restava olhar aquelas dúvidas, aquela que parecia ser uma briga interna entre ela e a razão, parecia ter esquecido o motivo de ter andado até aqui, parecia retroceder nas memórias e pensamentos mais profundos. Parecia retroceder.
   Se ela for embora eu sei que eu não vou poder fazer nada para que ela volte a andar até mim, e eu por mais que corra atrás, nunca vou encontrar o espaço que eu tinha dentro dos abraços que ela já não me oferece. Abandonei a borda da janela, abandonei aquela vista escura iluminada por tão poucas luzes. Era sombra, era cinza e quase invisível.
   Coloquei música para que o quarto não ficasse tão vazio como nos velhos tempos que vieram. Ignorando o frio da rua, desci. O vento gelado encontrou, no meu rosto e corpo, cortou meus lábios como quem pede para calar.
   Ela ainda estava parada na frente do portão, quando me viu seu olhar se assustou e se aliviou, como se eu fosse uma resposta, uma outra sombra cinza perdida na escuridão, como se eu fosse e estivesse igual. Olhei dentro dos seus olhos e, ainda que meus pensamentos gritassem em desespero e ansiedade, não disse nada. Abri as grades que nos separavam e me aproximei lentamente do corpo e da alma que me fizeram conhecer a felicidade.
   O espaço no abraço ainda estava lá, senti a força de dois corpos frios se juntarem. Foi quase eterno. E entre sussurros perguntei: “Entra?”. Olhei nos olhos perdidos que não encontrou nos meus as respostas que procurava.
   Beijou meu rosto frio, beijou a minha mão gelada e se foi enquanto as lágrimas queimavam o meio sorriso que tinha ficado no meu rosto por vê-la mais uma vez.  

10/01/2012


     Estou só, o escuro escondeu até a minha sombra. O quarto negro que me abriga e me obriga a abrir os olhos na tentativa inútil de ver algo, me expulsa de dentro de mim. E fora de mim sou quem eu quero ser, uma imagem destorcida da realidade atual do infinito escondido dessa casa, sou pássaro enjaulado que voa e quebra o bico no ferro frio que limita geograficamente o espaço e o tempo. Sou coruja de olhos abertos que não vêem.
   Sei que existem estruturas sólidas sobre mim e ao meu redor, me sinto protegida, mas não me sinto em casa. Uma maneira estranha de acordar todos os dias e pensar “onde eu estou?” e depois de alguns poucos eternos segundos sentir o cheiro do meu próprio perfume no meu próprio lençol e lembrar com ar cansado e quase desesperado que essa é a minha cama.
    Ainda que inativa posso escutar o barulho de cada tecla da minha velha máquina de escrever. Por muito tempo foi a minha melhor amiga, foi minha mãe e foi meu pai. Me dizia palavras bonitas de vez enquanto e palavras de ódio, escreveu muitas vezes palavras amor. E foi exatamente de amor suas últimas palavras. Hoje está ao meu lado, na minha mesinha de escrever, junto com a lâmpada que quase não ilumina, em conjunto são um resumo melancólico de quem eu costumava ser no passado.
   Estou deitada olhando para o teto desbotado dessa velha casa, quase tão velha como a histórias contadas nos livros que ficaram do antigo inquilino, que eu por curiosidade e tédio li. Li tantas vezes alguns e tão pouco outros, que tomei como meu os nomes e os apelidos dos personagens pelos quais me apaixonei. São meus inimigos todos os vilões que encontrei pelas páginas quase amarelas que a velhice deixou como lembrança. Foi por estar sozinha, por não ter ninguém que eu mergulhei profundo para dentro de mim, e agora sinto meus pés presos na lama que sempre fica no fundo do poço quando nem mais água tem. Me perdi muitas vezes nos meios das linhas, dos parágrafos, que às vezes as histórias se dividiam em duas, e eu ficava no meio do que é sóbrio e do que é loucura.
   É estranho não reconhecer o presente onde eu me encontro, é tão estranho saber que os sonhos e desejos já realizados ficaram pelo caminho e o futuro que me espera é linha reta e não permite visitar as curvas que eu já visitei. Um dia eu sonhei em morar dentro de um abraço, desejei que fosse eterno o corpo encostado no corpo. Felicidade efêmera eu disse, mas a saudade... ah, a saudade! Dura, dura até mais do que a própria vida, do que o próprio ser, perdura no coração que já parou de bater.
   Ela se entregou e eu me entreguei, mas quando eu fechei meus olhos, eu cai com as costas no chão gelado da chuva do ano novo, com lágrimas quentes queimando meu rosto. O barulho interno me cegava e a vontade selvagem que invadiu meu corpo desprotegido e vestido de branco foi de entrar na água violenta, deitar sobre as ondas e talvez desaparecer. Desapareci e aqui estou, só.
  Então eu olho para o teto, eu sei que ele está exatamente onde ele deveria estar, e eu olho para mim, estou fora de ordem, meu lugar é uma pessoa errante que foge e se afasta, que vai embora e me deixa sem lar, sem ar, sem o eu e sem o mim. E a valsinha agora eu danço sozinha.
   A máquina de escrever enferrujou ou fui que perdi a musa que dançava ao som da força dos meus dedos golpeando as teclas duras e velhas? Enferrujei. Perdi a coragem de pedir que ela segure a minha cintura, desajeitada deixou meu corpo cair.  

02/12/2010

Passo mal dado.



O som da praia era o único som presente no abiente, dentro dela, na profundeza dos seus pensamentos, esse repetitivo e agradável som competia com o som interno da sua própria respiração e a voz dos seus pensamentos.

Era quase noite e a lua iluminava a areia que sujava a sua roupa, a água salgada brilhava, e dentro daquele corpo cheio de dúvidas e medos aquele brilho parecia a única coisa de valor naquela praia deserta, exceto pela sua presença. O vento soprava forte e o cabelo solto que voava sem nenhuma direção, ia e vinha, lhe tapava a vista e a forçava a fechar os olhos, e cada vez que fechava os olhos era mais difícil abrir outra vez e encarar o mundo; cada vez que aqueles olhos azuis se escondiam debaixo da pele fina eles demoravam mais e mais para voltar a aparecer, voltar a iluminar.

O escuro foi pouco a pouco engolindo seu pequeno corpo, ela era só um ponto de interrogação para aqueles que passavam pela calçada, bem longe da areia húmida onde ela estava sentada, naquele exato momento ela era somente a sua própria sombra, era quase invisível, era somente o desenho negro, sem expressões, sem forças para levantar e ir caminhar sozinha sem o que antes era a base, era corpo. Ela se sentia como um passarinho na sua primeira tentativa de vôo, que cai desajeitado, cai de peito e machuca o coração, se sentia pequena, e ainda assim parecia não caber em lugar nenhum. Ela que já tinha morado em tantos lares, ainda estava à procura do se sentir em casa.

Depois de um bom tempo com os olhos fechados, olhando o seu próprio escuro, ela olhou para o oceano em movimento bem na sua frente, juntou forçar e vontade para levantar e sacudir a areia. Pisou com os pés descalços o chão gelado e começou o seu caminho deixando suas pegadas, umas mais fortes que as outras devido a seus tropeços de cansaço, umas mais fundas que as outras devido a suas pausas para um pseudo descanso. Andou quase uma hora pisando em pedras e conchas, pensando na dor que levava no coração. Parou e voltou para o carro só quando o vento gelado levava o seu cabelo e soprava sua nuca fazendo o seu corpo tremer de frio.

Entrou no carro, colocou as chaves e os sapatos, encostou a cabeça no volante sem vontade de diriir, sem vontade de ir. Apertou o acelerador como quem pisa em terras desconhecidas, devagar, com vontade de retroceder. Diridiu devagar, parou onde tinha que parar, onde em tempos de pressa passava sem pensar. Ergueu a cabeça e ligou o rádio... “tell me all that I should know ””tell me why I feel so low”... muitas palavras aquela cantora cantou, mas poucas faziam tanto sentido para ela. Olhou pela janela e viu que deixava para trás a praia e as pegadas, viu como aquela tarde tinha acabado e que alguma coisa dentro dela também tinha chegado ao fim.

Estacionou o carro na porta de casa e com os pés imundos de areia e suor ela entrou, entrou também deixando pegadas, mas pegadas diferentes das anteriores, era terra firme, era chão duro, e agora as marcas ficavam nos seus pés e não onde ela pisava. Foi direto para o banheiro, para a banheira com água quente, já estava cheia e ainda estava quente; parecia que alguém já sabia que ela ia chegar, sabia exatamente quando o escuro ia trazer ela de volta, por medo ou por alguma outra razão desconhecida. Ela entrou na banheira com a roupa no corpo e afundou a cabeça, mergulhou, inundou o banheiro com seus caprichos, com sua vontade de se esconder do mundo.

Saiu pingando suas dores pela casa ate chegar no quarto, deitou na cama ainda com a roupa molhada se cobriu com a coberta seca, dormiu. No meio da madrugada, quando seu corpo tremia exageradamente reclamando pela roupa gelada, ela acordou dentro de um abraço. Olhou para o rosto sonolento e acordado da sua namorada e voltou a apoiar a cabeça em seu peito, ignorando o que seu corpo pedia. Fechou os olhos e tratou de esquecer a tarde e tentou fazer daquela noite o começo de uma nova.
As duas dormiram juntas, esperando o sol chegar e esquetar seus corpos unidos. Agora toda a cama estava gelada, como se se tratasse de somente uma massa no meio de um espaço vazio. Era começo de primavera e o sol que entrava pela janela ainda era tímido, era um sol que queria entrar e abraçar as duas, mas sem coragem fica só olhando pela janela.
O despertador programado para a mesma hora de sempre não tocou, faltou pilha, faltou vontade de acordar, assim como ela e a pessoa que a abraçava. Estavam acordadas, mas não queriam assumir essa condição para não ter que levantar e encarar uma a outra, de uma forma ou de outra o silêncio diz muitas coisas e de alguma forma, junto com o abraço apertado, ele ia aquecer as coisas, ele ia resolver o que tinha para ser dito.

Quando o dia a convidou para viver a vida do lado de fora da janela, ela se escondeu dentro daquele abraço que a protegia. Olhou outra vez para aquele sol que brilhava e se rendeu aos seus pedidos e sentou na cama. A menina ao seu lado continuou deitada, a acompanhou com os olhos e enquanto ela esticava o corpo sentiu como a acariciavam as costas, devagar, tão delicadamente que sentiu imensidão do amor que contia naquele gesto. Parou num gesto súbito, olhou nos olhos daquela menina como a muito não fazia, e com voz sonolenta e decidida a convidou para dançar a valsinha do Chico, a convidou para dançar todos os dias.
A resposta que recebeu foi um sorriso e uma frase simples a fez entender que a vida era tão simples como aquelas palavras. E elas ficaram ecoando na sua cabeça, aquela voz não parou de cantar a frase durante todo o dia dentro dos seus pensamentos. E ela saiu para viver a tarde com o sol de mãos dadas com aquela menina.




(“A gente já está dançando a nossa valsinha, como todos os dias. Hoje foi só um tropeço, um passo mal dado. Mas eu ainda amo o seu jeito desajeitado de segurar minha cintura.”)

23/11/2010

Última folha


Eu sai andando devagar da cozinha, e fui em direção a sala apagando todas as luzes acesas que eu encontrava pelo meu curto caminho. Olhei pelo vão da porta do quarto, tentando verificar dentro da escuridão o que havia de estranho naquele lugar, era meu próprio quarto, mas alguma coisa tinha mudado e eu ainda não sabia exatamente o que estava fora de lugar.

Parei na porta da sala iluminada somente pela televisão ligada, em volume baixo, quase inaudível. Descansei meu corpo na borda da porta e fiquei comtemplando aquela imagem por alguns minutos até que ela, que estava sentada no sofá, se deu conta da minha presença. Me olhou fixamente e sem dizer nenhuma palavra pediu para eu sentar ao seu lado. Me pediu de uma forma muito simples, sentou no seu canto preferido do sofá e depois de chamar minha atenção com o olhar olhou para o canto que sobrava; o meu canto.

Sentei sem dizer nada e contemplei a televisão mesmo sem prestar nenhuma atenção, sem até hoje saber que filme estava sendo interrompido pelos comerciais naquele desconhecido canal. Eu estava mais preocupada nas palavras que sairiam da sua boca, se essas palavras seriam acompanhadas por algum abraço ou carinho. Tive vontade de deitar sobre o seu colo como antigamente e ver o filme, tive vontade de encostar minha cabeça em suas pernas e sentir como ela tremia delicadamente de frio, mas eu também tive medo, tive medo de aquelas pernas já não representassem nenhum tipo de lar para mim, logo eu que simplesmente procurava qualquer tipo frágil de abrigo.

Ela simplesmente continou encarando aquelas imagens coloridas sem sentido que faziam da nossa sala algum tipo de preto e branco colorido. Parecia cansada, seus olhos às vezes se fechavam e ela se perdia dentro de seus pensamentos enquanto eu me perdia dentro das suas expressões, me perdia a cada piscar de olhos, a cada bocejo reprimido.

Eu me perdi dentro dessa cena, dessa cena de constrangimento ao lado da pessoa que eu mais amei no mundo e que me conhece como uma mãe e me amou como um boêmio em dias de inspiração e criatividade. E eu só queria saber se esse amor bêbado e verdadeiro seguia ali entre a gente sentado ao nosso lado naquele sofá como antigamente. Eu de alguma forma queria perguntar por esse amor, queria olhar dentro daqueles olhos perdidos e perguntar se esse amor seguia segurando sua mão e equilibrando seus dias de embriaguês e desilusão, mas simplesmente não tive coragem, ela estava distante e eu estava perdida.

Para tentar esquecer por alguns poucos segundos a possibilidade de ter que levantar desse sofá e esquecer o que ele representou para mim, eu olhei ao redor, procurando encontrar respostas ou saídas de emergência. O único que eu encontrei foi o controle remoto, jogado no chão, com as pilhas perdidas pelos cantos. Recolhi cada peça daquele pequeno quebra-cabeça e ao terminar de montar os pedaços quebrados apontei para a televisão e desliguei sem pensar nas conseqüências.

De repente me senti livre dentro do escuro, fechei meus olhos e descansei meus ombros sobre o tecido velho daquele que outrora era ninho, era risos e sorrisos. Vi a silhueta dela ao meu lado, ela se movia devagar, parecia ter medo de encostar. De se machucar. Levantou e tomou seu caminho tomando cuidado para não tropeçar. Ainda que eu soubesse que ela reprovaria minha atitude, me levantei com ela, segurei sua mão e a acompanhei ao nosso quarto de portas e janelas fechadas.

Eu falei “a gente precisa conversar.” Ela me olhou sem a intenção de me encontrar dentro do escuro e respondeu “Talvez amanhã.” Nós duas sabíamos que não haveria nenhum amanhã, mas ela resolveu tentar esperar. Aceitei sua reposta como um fim, como um adeus.

Deitei ao seu lado na cama, deixando as lágrimas caírem silenciosamente para não perturbar seu precioso sono. Nossos corpos costumavam se encontrar no calor da noite em um abraço infinito, essa noite nossas costas se esbarraram, se embaraçaramm e se separaram. Esperei ela dormir para virar e contemplar seus cabelos negros espalhados pelo travesseiro, me aproximei devagar e a abracei como de costume, e de leve solucei lágrimas presas.

Quando eu passei meus dedos sobre sua barriga, tentando sentir pela última vez cada centímetro daquele que era meu corpo preferido, meu resumo de beleza, ela segurou minha mão, entrelaçou seus dedos nos meus e apertou o meu abraço frouxo. Minha respiração parou, tentei explicar tal comportamento com rotina, costume. Mas não. Ela realmente estava acordada e ao sentir meu corpo travado me disse com sua voz cansada e doce “Você não precisa ir embora, só preciso descansar, colocar a cabeça no lugar.”. Minhas lágrimas contidas sairam como quem precisa desabafar, foi quando eu chorei alto, solucei forte. Ela virou para mim passou a mão no meu rosto na sua tentativa em vão de secar minha pele. Com seus olhos me pediu compreensão, eu compreendi.

De manhã eu levantei bem cedo, bem mais cedo que o normal. Peguei minha mala arrumada debaixo da cama e deixei uma nota em meu travesseiro que dizia “Faz do tempo seu companheiro, faz do tempo seu, você tem o mundo, você tem só para você na janela desse mesmo quarto o oceano infinito, infinito como o anel no nosso dedo e como a promessa que a gente fez. Você agora tem o tempo que você tanto cobiçava, bom proveito. Você tem tudo e o único que eu quero é você, estou indo com o vento, só espero que ele não me leve longe demais e que algum dia você possa me encontrar. Ass: Aquela que costumava ser sua princesa. Te amo.”

Fechei as portas atrás de mim e antes de sair pela porta principal tirei minhas chaves do bolso e deixei pendurada na fechadura, dentro de casa. Sai devagar e fechei a porta nas minhas costas sem a possibilidade de voltar sem ser convidada. Preferi pensar que essa casa que eu abandonava não era minha, para mim era refúgio, era recanto.

Ao pisar a rua e ir com a direção que me indicava o vento eu percebi o que estava fora de lugar dentro daquele quarto, e a mais triste conclusão veio à tona, eu. Era eu quem, de alguma forma, sobrava. Eu era a última folha por cair para concluir o outono, e eu cai, desmoronei. E deixei meu coração transparecer e sentir junto comigo a brisa fria do inverno que chegou.

E hoje eu espero um convite para entrar (outra vez na sua vida).

06/08/2010

Balanço



    Sentou lentamente no balanço que balançava sozinho pelo vento típico de fim de tarde nesses dias de outono. Ao seu lado outro balanço vazio em movimento. A areia fina do chão dançava com as folhas suicidas que iam caindo pouco a pouco das árvores secas, magras e, devido à falta de iluminação no local, escuras, quase negras; algumas folhas já estavam secas, umas próximas e outras bem longe  dos troncos, dos galhos de onde antes habitavam, outras mostravam  certa resistência e seguiam verdes agarradas a aqueles pequenos  pedaços de madeira.

     O céu estava escuro e somente alguns postes eram responsáveis por toda a iluminação do parque de medidas médias, com poucos brinquedos e muita poeira. No outro extremo do parque, bem em frente do balanço havia uma casinha de madeira e essa foi a primeira imagem que viu depois de sentar e tomar coragem para erguer a cabeça e começar a impulsionar com os pés trêmulos cheios de dúvidas a madeira velha e úmida que flutuava no ar presa por duas correntes, que por suas cores quase laranjas mostrava que os anos tinham enferrujado aquele lugar.

     Seu rosto mostrava quase a mesma melancolia que representava um parque sem o barulho das gargalhadas das crianças, da areia que se dissipava no ar sem que nenhum pequeno ser tivesse passado antes correndo de um brinquedo a outro como quem quer ir a todos ao mesmo tempo e corresse para compensar seus super poderes ainda não desenvolvidos. Ela era a única que representava alguma vida para aquele lugar que no momento era um simples resumo do mundo e da sua vida.

     O telefone no seu bolso direito apitava sem parar, tentando avisar que estava prestes a desligar por falta de bateria, mas ela parecia não escutar, ou simplesmente não prestava atenção nos sinais que se apresentavam diante dos seus olhos de que o tempo estava passando e que talvez, por não estagnar, era hora de ir. Ela balançava cada vez mais alto, enchendo os sapatos de areia, aos poucos sentia o sabor daquele ar poluído que deixavam sua boca seca, quase sem saliva. Seus olhos ardiam pelo ar que soprava cada vez mais forte e cada vez mais sujo.

     A luz de uma pequena lanterna a obrigou a parar, com um movimento bruto, grotesco, colocou os pés rígidos no chão que instantaneamente fez voar terra e ela, de forma desajeitada, se viu em pé em frente ao balanço que agora rodopiava de um lado a outro tentando assimilar e voltar para sua órbita natural. O guardinha
que já queria ir para casa, se aproximou com cara de cansado e a perguntou se ela estava perdida ou se queria alguma ajuda para chegar em casa, e ela com uma cara ainda mais cansada olhou para o senhor ao seu lado e sem dizer nada recolheu suas coisas no chão e deu as costas para aquele lugar. O velho guarda vendo aquela que
acabara de transformar-se em mulher indo em direção a rua mais estreita e antiga da cidade sentiu compaixão e tristeza porque parecia entender que ela só precisa de um descanso.

      Enquanto caminhava devagar por aquela rua representou um claro contraste para a decoração, parecia não pertencer ao ambiente e por respeito tirou os sapatos barulhentos e o casaco colorido. Com as mãos levava suas coisas e ainda que sentisse frio preferia a sensação de pertencer, de encaixar com alguma coisa, e de fato sua calça jeans e sua camisa preta eram as peças que faltavam naquela rua silenciosa de casas baixas, janelas na altura de quem passa, de quem se interessa pelo que está dentro e de quem se interessa pelo que está fora.

      Sua cabeça e seus pés doíam, latejavam sem sincronia. Sem saber por quanto tempo esteve caminhando por fim chegou em casa. Abriu a porta e com passos leves foi devagar até o banheiro. Não se importava muito, mas mesmo assim se preocupou em deixar as luzes apagadas e não fazer barulho, encostou a porta e ligou o chuveiro
dentro da escuridão. Enfiou a mão no bolso e foi tirando dali cada minúscula moeda, as chaves, o celular e alguns papéis rabiscados. Desamarrou o cabelo e desabotoou os botões da manga da camisa social. Nem por um segundo pensou em tirar a roupa e entrar de baixo daquela água gelada, entrou como quem quer lavar não só o corpo, mas como quem também queria se desfazer de alguns aspectos da vida.

      Quando sentiu a água atingir seu corpo teve uma sensação de quase dor, era prazer. A roupa molhada rapidamente colou no seu corpo escondido. Ela tinha os olhos fechados, concentrada na água que caia porque não queria pensar em nada mais, o alheio não lhe atraia. A roupa em pouco tempo se transformou em um grande incômodo, ela se viu obrigada a abrir os olhos e pouco a pouco ir se livrando de todos aqueles tecidos. Quando abriu os olhos viu que a entrava luz pela fresta aberta da porta, ficou a espera do que era óbvio para ela. A porta se abriu devagar a luz cresceu e dominou todo o banheiro, ela soltou alguma reclamação que a sua namorada não pode entender, ou simplesmente ignorou. Ela voltou a fechar os olhos ainda com metade da roupa por tirar e não disse nada.

      “Sempre tive medo de que você não voltasse para casa, que no caminho se desse conta de que não faço parte do seu conto de fadas.” – Disse a namorada enquanto entrava de baixo da mesma água fria que ela, também vestida.

      Ao ter companhia respeitou o intruso que não incomoda e substituiu a água fria pela água quente. Enquanto o vapor ia subindo lentamente ela voltou sua atenção à roupa ainda por tirar, recebeu ajuda com os botões que faltavam e deu as costas à mulher que estava na sua frente para que esta pudesse tirar com mais facilidade a
camisa grudada no corpo molhado.

     “Sabe por que eu me apaixonei por você?” – Ela disse, e antes de ter uma resposta continuou – “Antes de me apaixonar por você, me apaixonei por seus medos, sua fragilidade. E sabe por que às vezes eu volto tarde para casa? Porque sou incapaz de assumir que não represento um porto seguro para você e meus abraços não te afastam dos seus monstros.”

     “Isso não é verdade” – Respondeu a namorada enquanto puxava devagar seu braço a forçando a dar a volta e encarar seus olhos escuros.

     “É verdade!” – Ela exclamou num quase grito de desespero.

      Olhou para cima, deixando a água cair diretamente no seu rosto. Durante alguns poucos segundos deixou que o silêncio voltasse a impor a ordem no seu corpo e em tudo não material dentro de si para voltar a falar em um tom que, sem poder aumentar o volume da própria voz, aceitou ser um sussurro.

     “Escutei você chorar essa noite, e sei que você estava pensando em mim enquanto deixava seu inconsciente desabafar. E hoje eu acordei e vi seu rosto inchado sorrindo por algum sonho bonito e por ver você sorrir me senti feliz e me dei conta que já não sou indiferente.”

     “Você precisa descansar.” – Respondeu sua namorada envergonhada por ter sido capaz de esconder as lágrimas da noite passada, e por não conseguir esconder naquele momento.

     Ela abaixou a cabeça e entrou no abraço da namorada que a esperava com a toalha aberta, sentia frio e por impulso caminhou em direção ao quarto, sentiu que estava sendo seguida e enquanto andava tropeçando nas bordas da toalha que arrastava no chão se perguntou se ela estaria no sonho que deu origem ao sorriso mais bonito que havia visto, e ao pensar nisso se virou e encarou sua namorada com cara de quem ia começar a fazer um interrogatório. E o que teve como resposta foi um sorriso similar e a seguinte frase: “Sim, eu sonhava com você, e sim, antes de dormir e sonhar eu chorei, chorei porque, não importa o que aconteça ou o que você diga, eu sempre vou temer te perder.”


11/05/2010

Blog de cara nova - Feliz 1 ano de Blog!

Olá!

      Eu estou aqui voltando a falar em primeira pessoa. Como você já deve ter percebido, o blog está todo diferente, de cara nova e com muitas novidades e isso é devido a comemoração de 1 ano do blog essa semana!

      E para não passar em branco resolvi remodelar todo o layout e criar algumas páginas. A primeira fala um pouco mais sobre mim. Outra sobre meus contatos, como Twitter, Orkut e outros. E por último e o mais especial, muitas pessoas me mandaram emails e recadinhos aqui no blog que gostavam muito dos textos, que os imprimiam, e resolvi fazer um livro virtual, onde os textos mais comentados, os mais bem votados, que vocês e eu mais gosto estivessem em uma versão exatamente para guardar com vocês, e inclusive para impressão. Espero que gostem do resultado. Para quem se interessar, o livro está disponível na página de downloads.

      E para terminar queria muito agradecer todos vocês que sempre estão aqui no blog comigo, lendo os posts, comentando, seguindo o blog. Eu fico sempre muito feliz de saber que vocês gostam do blog e estam curtindo ele comigo. Um beijo enorme pra vocês!

      Raianne Senna.

05/05/2010

Seu sorriso



           Ela está muito longe de mim agora, mas faz questão de me presentear seu sorriso todos os dias antes que eu possa dormir, porque ela sabe que me faz feliz vê-la sorrir seu sorriso tímido de quem nunca esteve ao lado, mas sempre esteve presente. A gente nunca chegou a ser próximas, nunca chegamos a concluir que o que se sentia era de verdade amor, tampouco pode-se dizer que tivemos tempo.
       A conheci a alguns anos atrás, quando a coincidência fez do cruze destraído de nossos olhares um encontro, ela procurava alguém no meio de todos e eu simplismente descansava meus olhos de tanta poluição humana, encontrei em seu delicado rosto meu descanso e também minha inquietude quando ela, ao buscar outro, me achou. Até que tentei disfarçar o meu encarar, mas já era tarde e ela tinha percebido e junto comigo se constrangiu. Era pequena celebração da pequena cidade em que nasci, bem longe de onde decidi viver. Muitas pessoas das quais eu achei que nunca mais ia ver estavam presentes, eu até que estava tentando me centrar mas meus pensamentos realmente não estavam ali, e assim foi até que a vi.
      Meus pés voltaram a tocar o chão, quando consegui ver que seus olhos de aspecto relaxado eram azuis, pensei em caminhar em direção oposta, pensei em fugir da pressão que era seguir encarando aquele olhar. Mas quando comecei a andar meus pés pareciam conhecer somente uma direção, a sua. A cada passo senti meu coração bater mais forte, no meio do caminho, quando parei de ohar o chão e tentei inútilmente desviar a direção vi que ela estava olhando para mim, parecia esperar. Ela me sorriu e esse sorriso me fez parar, significou rosto vermelho e olhar perdido em mim. E como quem rebobina uma fita velha eu dei passos para trás, e ela como quem adianta uma música para chegar no refrão veio em minha direção.  Quando ela chegou o suficientemente perto para que eu pudesse ver até os diferentes tons de água dos seus olhos eu a cumprimentei com acabeça e ela imitou meu movimento, me olhou meio curiosa e depois de alguns intermináveis segundos ela pronunciou alguma palavra que eu não prestara atenção e até hoje me pergunto qual teria sido.
      Eu não lembrava dela, mas ela insistiu em dizer que em algum momento de nossas vidas a gente tinha estudado juntas. Pode que tenha sido distração minha, nunca tinha prestado atenção nas coisas que eu encontrara dentro das salas de aulas até que cheguei na faculdade. Ela devia ser mais uma que sentava no oposto, no outro extremo da sala pintada de amarelo que diziam estimular o raciocínio, o que não funcionou comigo. Me envergonhei em perceber que ela sabia grande parte de mim e eu não sabia nada dela, me senti estranha, logo eu que me reservava para mim mesma, como podia estar tão exposta dentro da minha falta de interesse? Mas parecia que meu corpo vazio de qualquer sentido a interessava.
    Durante toda a festa ela esteve comigo, tentando me fazer lembrar que ela também já tinha existido para mim anteriormente, mas fui incapaz porque toda vez que eu fazia a cara de quem não sabe do que se está conversando ela sorria, achava graça do vermelho das minhas bochechas. Era impossível que ela tenha um dia estado comigo no mesmo espaço geográfico sem que eu tenha reparado naquele sorriso, seu bonito rosto quase perdia importância para os meus olhos quando ela me deixava ver seus dentes escondidos nos lábios finos. Seu sorrir tinha mudado ou era eu que tinha aprendido a reparar na beleza do enrugar do rosto quando a alma sorri? Eu nem tentei lembrar, não me procupei em revirar minhas lembraças para encontrá-la porque ela já estava ali comigo. Eu gostei tanto de ouvir a sua voz e de admirar o seu sorriso que eu tinha até esquecido que em um primeiro momento eu a tinha desejado.
     O que parecia improvável aconteceu, eu desejei passar a noite naquela cidade, desejei estar ali por mais algum tempo, mas eu não pude, a viagem era longa e eu tinha que seguir. Antes que a noite clareasse eu tinha que ligar o motor do carro e partir, me despedi com muito pesar daquele sorriso. Antes de dar as costas para ela a pedi que viesse me visitar algum dia, dei até meu endereço na esperança de um sim verdadeiro por parte dela, o sim veio mas já a sinceridade eu não tinha muita certeza, ela chegou a falar que talvez na semana seguinte chegaria de surpresa trazendo uma foto antiga da nossa infância. E eu com um pouco de sono fingi acreditar.
     Quando eu cheguei em casa não demorei para esquecer tudo o que tinha passado, exceto o sorriso, não saiu da minha cabeça. Eu até queria acreditar que ela chegaria com a foto, para eu ver se eu levava na minha cara de criança a inocência de não perceber tal beleza, ou se ela levava no rosto o sorriso escondido, guardado para outras ocasiões. Não acreditei que viria, mas veio, não ela, mas uma carta com seu nome e só uma coisa dentro, uma foto em que outrora eu era menor, encolhida dentro de mim mesma. Fiquei tanto tempo me observando na foto que não percebi o abraço que eu tinha em meus ombros, era ela irreconhecível, ignorando a foto e rindo, olhando para mim. Ela me ofereceu antes esses lábios em movimento e eu realmente não lembrava, ela tinha razão o tempo todo quando dizia que eu era distraída demais para dar atenção aos pequenos detalhes que ela expunha só para mim. Vi que a foto estava marcada, um relevo que indicava palavras no verso da imagem, virei para ler e em palavras borradas pelo envelope eu li “espero que você se lembre agora, porque eu nunca vou esquecer dessa época.”
     Essa época… que época foi essa que se apagou da minha memória? Apagou uma parte de mim que talvez antes não me era importante, mas agora sim.  Procurei em minhas próprias fotos encontrar a resposta, eu sabia exatamente o que eu fazia e quem eu era naquela época, mas eu realmente não sabia o que ela fazia, nem quem era ela.
       Eu respondi a carta, e muitas outras que vieram. E atendi os telefonemas e disquei muitas vezes também. Demorei bastante para voltar para aquela cidade apertada no meio do nada, mas quando fui passei a noite, amanheci com o sorriso do lado e pude então sorrir, porque ver aqueles olhos olhando dentro dos meus e aqueles lábios me sorrindo enquanto se aproximava para um beijo, me fizeram então lembrar que aquela mulher que eu tinha ao meu lado tinha sido a menina que um dia me sorriu aquele sorriso quando eu perdi minha primeira namorada, era ela, e eu não tinha percebido, era ela quem chorou quando eu virei as costas e vim embora. E por mais que me doa, agora mais em mim do que nela, vou ter que voltar a dar as costas.
      Agora sou outra vez distante, encolhida dentro de mim mesma, mas não mais por medo, mas simplismente porque cada vez que eu olho para dentro de mim e me escondo ali, estou vendo de olhos fechados o sorriso que me faz sorrir.